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ALFREDO PINTO (SACAVÉM)

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pLFfLD^oPiMO

EM TERRAS DE PORTUGAL

DO MESMO AUCTOH

Jesus e a Samaritana.

Scenas d' Aldeia, (esgotado)

A Moabita.

Telas da Vida.

Abandonada I

A Tetralogia de Ricardo Wagner. (2." edieâoi

Impressões.

Chopin. (tradiicção)

No Remanso do Lar. (chronicas»

Horas d' Arte. ll." serie)

Verdi. (conferenciai

Em preparo

Parsifal.

Músicos, (enchíridíon biographico)

Sol ardente, (romance)

Horas d' Arte. (2.* serie)

Alfredo Pinto (Sacavém)

k km de Poítugal

RECORDAÇÕES ESBOÇOS PHANTAZIAS

>4

(ILLUSTRAÇÕES PHOTOGRAPHIC AS DO AUCTOR)

1914

LIVRARIA FERIN 70, Rua Nova du Almada, 74

LISBOA

n-

Passar algum tempo no campo é um ha- bito que entra na massa do sangue desde o alvorecer da nossa mocidade, e assim, logo que a natureza se envolve com o manto variado das suas cores, pensamos logo em abandonar Lisboa e vermo-nos livres, por al- guns mezes, da vida buli- çosa da capital, com tudo que etla possue de simu- lado na sua vida íicticia e pouco hygienica.

Assim uns tempos no campo são um verdadeiro bálsamo de conforto, de tranquillidade á nossa existência physica e intellectual.

Na ^tjõôr parte da gente não existe, infeliz- mente, a ideia nitida que se deve ter de uma estada no campo.

Geralmente todas as familias abandonam Lisboa pelo espirito comesinho de seguirem a

BILHA DE SEGREDO

(Época da rainha D. Leonor)

EM TERRAS DE PORTUGAL

moda de : ir para fóra^ e terem a mesma vida da cidade, com o mesmo luxo das toilet- tes, com todo esse rosário de ideias balofas e ridiculas que enche os cérebros das mães de familia, em que as thermas, praias, etc, são apenas pretextos para mostrarem as filhas e verem se as casam ricas o mais depressa pos- sível !

Todas as infinitas belezas que a natureza lhes oíTerece n'essas terras para onde vão per- manecer alguns mezes, passam desapercebidas como verdadeiras vulgaridades.

Por isso direi que sempre me faz pena não comprehenderem o campo para onde vão, e saberem gozar d'elle com aquelle amor e cari- nho que elle tanto merece.

Mas deixarei estas considerações, pois malhar em ferro frio é tempo sempre perdido, e entrarei no assumpto d'estas notas, d'estes esboços colhidos a esmo que apenas têm um íim contar as minhas simples impressões de mero viandante por esses montes e valles d'esta nossa querida terra ; impressões não re- vestidas com a burilada linguagem d'um Ber- nardin de S. Pierre, que tanto adorava o campo, nem como Victor Hugo nos seus livros sobre o Rheno, mas sim com o estylo simples de um forasteiro que longe de Lisboa, vae colhendo aqui e alli pequenas notas impres- sionistas que o meio lhe oíferece, lodo esse scenario campezino matisado de uma serie

EM TERRAS DE PORTUGAL

infinita de encantos variados, symphonia de de cores, crescendo de tons quentes que nos causam a vertigem do Bello em todo o seu esplendor.

As thermas das Caldas da Rainha, onde actualmente me encontro, conheço-as ha vinte e nove an- nos, e a vagarosa evolução que tem soíírido, tem passado perante os meus olhos com um grande interesse.

Não conheço ter- ra próxima de Lis- boa que reúna tantos atractivos como as Caldas.

Mas terá esta villa aquelle encanto de tranquillidade que ti- nha antigamente antes da chamada civilisação do caminho de ferro? Decerto que não, mesmo na estructura intima da sua vida a differença é radical.

Voltemos um pouco a vista ao passado para fazermos melhor o parallelo com a vida presente.

TORRE MATRIZ

-8

EM TERRAS DE PORTUGAL

Partia-se de Lisboa da estação de Santa Apolónia, e chegava-se á Azambuja pelas 1 1 horas da manha ; deligencias, largas car- ruagens, onde podiam levar em cima duas

UM TRKCHO PA MATTA

e três malas, conduziam-nos até ás Caldas, uma distancia de dez léguas. As primeiras povoações por onde passávamos eram Aveiras de Baixo e depois Aveiras de Cima, Alcoentre, d'ahi a léguas o lugar do Cercal, onde estacio- návamos duas horas para almoçarmos e para descanço do gado.

Ainda me recordo que nos davam em uma estalagem, canja e bella galinha cosida

EM TERRAS DE PORTUGAL

i;m híecho das cai.da.s, ao cahiu da takdk

IO

EM TERRAS DE PORTUGAL

com arroz e presunto. Hoje, esla estrada, segundo me consta, está horrível, havendo apenas transito de galeras.

N'estas thermas não havia então o movi- mento de famílias que se hoje ; o máximo

A BERLINDA

meia dúzia, formando todas uma familia, sem os cancans que nos atormentam agora!

A vida que se passava era a seguinte : de manhã, tratamento no hospital onde havia o tradicional copinho dado pelo velho Sebastião que Deus tem ; durante o dia, no passeio da Copa, jogava-se o arquinho, as senhoras co- siam e bordavam : mais tarde houve um jogo de Croquet devido á iniciativa da familia Bar- ros Lima e José Sacavém.

EM TERRAS DE PORTUGAL

II

Também havia o jogo da malha, e ainda me recordo de ver o falecido escriptor Luciano Cordeiro joga-la com enthusiasmo. Tempos que não voltam !

o CANTAR DAS LOAS

Depois de jantar, que era por volta das cinco horas, ia-se á matta real, uns subiam ao pinheiro da Rainha, outros espalhavam-se pelas ruas a jogarem jogos de prendas e arqui- nho s.

Quando a noite vinha bastante próxima, todos desciam ate ao club, onde se dançava animadamente até ás dez horas, sendo então

12 EM TERRAS DE PORTUGAL

servido o conhecido e tradicional chá com fa- tias e bolachas, alem de copos com agua cha- lada. Este chá era fornecido pela direcção do Club, sendo digno de elogios pelo asseio e abundância.

Aos sabbados então, antes do club, entra- va-se na egreja do hospital onde se cantava a ladainha e vários cânticos á Virgem do Po- pulo (*); diversas senhoras cantavam no coro, nunca faltando o conhecido padre António d'Almeida, hoje residente em Óbidos, que alem de ser um eximio caçador de perdizes, possuia uma agradável voz de barvtono. -^ No dia I 5 de agosto havia festa rija n^csta egreja, pregava geralmente o padre António. Os cantores é que tiravam a ao maior crente, eram músicos da philarmonica ; poderá o leitor avaliar que serie de desacatos musicaes elles nos oíTereciam aos nossos ouvidos !

O conhecido Céu de vidro d'hoje, era anti- gamente um modesto corredor entre os dois corpos do club, tendo apenas por tecto a abo- boda celeste, seria menos commodo, mas era muito mais poético. N'essa noite era coberto

(*) Foi n'esta egreja que no anno de lõQá foi representado Tim coito de Gil Vicente o de S. Martinho, pedido feito pelos ha- bitantes das Caldas em honra da rainha D. Leonor, então viuva de D. João II, que se encontrava nas Caldas O auto è pequeno e Gil Vicente pôz a seguinte rubrica : «Xão foi mais porcpie foi l^eãido muito tarde». O auto é uma alusão á caridade da rainha sendo esta obra talvez a i^rimeira representada fora do j^aço 6 da corte.

ÉM TERIAS DE PORTUGAL

por um toldo, e transformavam-no em um jar- dim, lodo illuminado a copos de Cíjres. Hoje, como disse, é uma passagem envidraçada, ponto de reunião para a tná lingua e para os

o CAURO DOS AXJ03

namoros^ para estes nâo é bem um ceu de vidro, mas um ceu aberto.

Havia muitos passeios em burros a S. Mar- tinho do Porto, ás Gaeiras, Óbidos e de car- ruagem a Rio Maior, e quando chegavam a esta villa eram sempre entradas iriumphantes com marchas aux-flambeaiix, guitarradas, etc.

Hoje a vida das Caldas é totalmente diffe-

í4

EM TERRAS DE PORTUGAL

rente ; o caminho de ferro veiu lançar a nota do modernismo, a concorrência augmentou extraordinariamente. O Parque da Copa e a Matta soífreram com o administrador Berquó profundas modificações ; vieram os sextettos substituir o velho Pavão que executava no

A CHEGADA DO CYKIO

piano umas palsas horríveis e uns lanceiros detestáveis, veio a antiga Banda da Guarda, em vez da philarmonica da terra, appareceram o Tennis^ o jogo da bolla, Fooi-^all, os con- cursos hypicos, etc.

Uma antiga cavacaria das conhecidas Men- dricas que existia na Praça, ponto de reunião á tarde e á noite de amena cavaqueira onde se juntavam entre outros Mariano Pina e Ra-

EM TERRAS DE PORTUGAL

phael Bordallo, acabou ! Raphael Bordallo, com o seu grande talento e fino conversador fazia-nos passar alli horas agradabilíssimas.

No mez de setembro havia a tradicional passagem dos cyrios para a Nazareth.

ASPECTO DO MERCADO

Eram três, o das Caldas, o da Prata Grande e o d'Obidos. Tanto na ida como na volta os cyrios davam três voltas á roda da Praça e iam ao largo da Copa, em frente da porta do hospital, cantar as Loas. Somente o d'Obidos é que não cumpria ás vezes estes usos, atravessava a villa e nada mais ! Se-

l6 ÉM TERRAS DE PORTÍJGAt

gundo me disseram, por causa de certas riva- lidades entre as duas villas. Como curiosidade eis algumas Loas (*") cantadas pelos anjos dos cyrios :

i." Anjo

Parece que nossos pães Nos dizem a rijos brados As vossas crenças sagradas Não per cães, filhos amados.

Anjo

A" Lusa Sião ! batei

As sendas que batemos

Dai ao palácio da Pátria

As honras que nós lhe dêmos.

3." Anjo

E nossas cinzas lançadas Debaixo da terra fria, Volvendo-se reanimadas Palpitarão de alegria.

Todos

Corramos ó caldenses, vamos já, No mais vivo transporte d'alegria, Eender divinas graças a Maria, Que por nós esj^erando está.

(*; o As Ldas são ainda persistentes nas romarias chamadas Cyrios ; junto da ermida do Cabo, existe uma edificação cha- mada a Opera, onde o Cvrio de Lisboa fazia varias representa- ções, de que falia Eibeiro Guimarães ; á chegada dos forastei- ros ao adro da egreja, e na entrega da bandeira aos festeiros do anno futuro, os três Anjos que os acompanham recitam Loas, com versos apropriados e que i^rovocam lagrimas. A Loa é uma espécie de bando ou jjregão, como o Cri, do antigo theatro francez.»

(Eschola de Gil Vicente por Theophilo Braga, pag. 529),

ÈM tERRAS DE PORtUCÁL

í?

Terminadas as Loas, a musica executava o hymno nacional, estalavam foguetes e o cyrio continuava na sua derrota.

Hoje todos estes costumes caracteristicos

o SOBREIRO DA FEIRA

do povo foram prohibidos, e apenas ficaram umas pobres e modestas festas de egreja.

Emíim se esta terra se parece agora com tantas outras^ perdeu, quanto a mim, o seu antigo encanto, pois passou, infelizmente, a ser um bairro da nossa capital, no luxo dema- siado das senhoras e nos cancans habituaes da nossa sociedade.

l8 EM TERRAS DE PORTUGAL

Sinto saudades d'esses tempos passados que jamais voltam. . .

Ah ! pensarmos no passado é sempre uma dôr para a nossa alma. Passam perante nós, como imagens sagradas, figuras e factos, tudo revive perante o pensamento, e o nosso íntimo confrange-se, quando cahimos no presente, na realidade ! ÍUusóes que se desfolham como as flores estioladas pelo correr do tempo, um mundo que foi realidade e que é apenas agora uma serie de visões semi-apagadas.

Em plena soalheira.

Dias de sol claro, como existem em terras portuguezas.

Por todo o campo uma luz cspalha-se cheia de intensidade, havendo nos casaes, nas fazendas, nos atalhos, iníinitas maravilhas de tonalidades de cores, em que as sombras se alongam em formas variadas e caprichosas.

N^aquellas horas a natureza reveste-se de esplendor, que começara no raiar da aurora e que em breve declina no crepúsculo da noite.

Varias estradas partem das Caldas, como a d'Obidos, Foz do Arelho, Rio Maior, S. Martinho do Porto, etc, mas nenhuma tem para mim o encanto da estrada que liga esta villa com o lugar do Couto, alongando-se depois até á povoação Sallir dos Mattos. :

Qual caminheiro, absorvendo na alma. todas aquellas variedades que o campo me, oííerecia, sahi das Caldas quando o sol lan- çava cheio de vigor, os raios sobre a terra.

Ao principio a estrada serpenteia uma pequena collina, íicando á direita, encostas de.

iO ÉM tERRAS DE PORTUGAL

vinhas, á esquerda um pequeno valle que se alonga em vastos campos onde fica a villa das Caldas ; a nossa vista muito ao longe, divisa um trecho de S. Martinho e os morros da entrada da bahia.

Depois a estrada desenha-se plana entre campos de vinha e pinhaes, onde aqui e allí diversas casitas muito brancas, ostentando nos telhados abóboras còr de ouro, que mais pare- cem ninhos de princezas encantadas, chamam a nossa imaginação a vaguear nos labyrinthos da phantazia.

Quem não quizer seguir, como eu, este lanço de estrada tão conhecido para mim, pode retomar a estrada, então plana, metten- do-se por uma azinhaga que íica logo ao sahir da villa, depois de se encontrar um grande tanque onde geralmente um grupo de lava- deiras batem roupa branca de neve, ao som de canções simples, mas de rythmo agradável e melódico.

A natureza jazia em uma tranquillidade mysteriosa, e atravez d'aquella azinhaga assom- breada, a passarada chilreava, voltejando de ramo em ramo, misturando-se com as vozes dos homens que andavam na cava d'um campo próximo. Uma ou outra borboleta voejava por entre os silvados.

Quasi a meio d'este caminho, como reti- rado, escondido, existe construído, um pe- queno monumento até agora despresado. Faz

EM TERRAS DE PORTUGAL

21

recordar ás gerações futuras um acto de gra- tidão de uma cura realisada com um veio de agua férrea que alli corria antigamente em abundância.

.Mu^U.Mt,^lu DA AZINHAGA.

Hoje a agua encontra-se desviada por causa de umas escavações que alli fizeram.

Até a este anno o monumento tinha per- manecido em um estado de porcaria extraor- dinária, hervas cresciam por toda a parte, a

22

EM TKRRAS DE PORTUGAL

inscripção quasi desapparecida, emfim o nosso chronico desleixo.

Porém, ha dias quando por passei tive a agradável impressão de ver ludo restaurado e limpo!

Não posso deixar de fallar aqui no sr. Eduardo Neves, presidente da Gamara das

CAPKLLA Dli 8. JACYKTllO

Caldas, que cheio de interesse cuidou d'este monumento, sempre despresado até a esta data !

O monumento é feito de pedra e cal tendo talvez dois metros d'altura, vendo-se na frente a seguinte inscripção :

DA EXFERMA HUMANIDADE A BEXEBUCIO EM MEMORIA DO BEM ALCANÇADO FOI ESTE PERDURÁVEL MONUMENTO POR BENÉFICA JÍÂO AQUI VOTADO.

EM TERRAS DE PORTUGAL

23

24

EM TERRAS DE PORTUGAL

TANTO PODE A GRATIDÃO

E DE BEM PUBLICO O ZELO

PRAZA AOS CÉUS QUE HUM TAL EXEMPLO

SIRVA AOS MORTAES DE MODELO.

1819

Ignoro o nome da pessoa que o mandou edificar; tendo pedido a dois amigos meus

FONTE DE SANTA KITTA

para investigarem nos archivos da Camará qualquer documento elucidativo nada se tem encontrado. Apenas soube depois que a ins- cripção foi feita por Agostinho Paulo d'An- drada Mendóça.

No trajecto até ao Couto, encontramos digno de nota a Fonte de Santa Rita, sempre

EM TERRAS DE PORTUGAL

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muito caiada de branco, tendo em um nicho a imagem da santa. Mais adiante a quinta do Arieiro, com magnifica nascente, e próximo do lugarejo, semi escondida, entre campos de vinha, isolada, uma capella, cujo patrono é

UMA RUA DO COUTO

S, Jacyntho, tendointeriormente magnificos azulejos.

O lugar do Couto é muito curioso pelo lado rústico, quasi selvagem 'que apresenta ; apenas uma rua central, andando em plena liberdade galinhas, patos e porcos. Vários becos cheios de estrumeiras encontram-se

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EM TERRAS DE PORTUGAL

d'um e d'outro lado da rua central. As casas em relação á hygiene das ruas. As mulheres são feias e tisnadas pelo sol, e durante o dia, emquanto andam pelas fazendas no labutar quotidiano^, deixam as crianças no lugarejo também em pleno convivio com os animaes !

A CAPELLA DO fOUTO

Existe no Couto o typo de mendigo que anda de porta em porta esmolando, e conforme é a importância da espórtula assim elle canta mais ou menos tempo. Tem a perfeita vida de vagabundo, recebendo agasalho d'esta po-

bre gente.

A ermida é junta ao cemitério, ficando no fim do lugar. Tem um aspecto modestíssimo,

EM TERRAS DE PORTUGAL 27

na frente um terreiro d'onde se avista um grande valle, tendo ao fundo uma cadeia de serras, e muito ao longe espalhadas diversas povoações como : Casaes da Ponte, Sallir dos Mattos, Cruzes, Guisado, Casal da Areia, Torre, Barrantes, Infantes, etc.

PKAIA L>E S. MARTINHO

a noite se avisinhava quando deixei aquelles sitios. O modesto sino da ermida ba- dalava sons das Ai^e Marias; por toda aquella região houve uns certos instantes, em que a nossa alma se elevou a regiões sagradas.

Uns trabalhadores que ao longe cavavam, pararam de trabalhar e ficaram como suspen- sos ouvindo aquelles sons que echoavam pelos campos.

28 EM TERRAS DE PORTUGAL

Então á minha memoria vieram aquelles notáveis versos de Lamartini, o Isolemeul:

«Cependant, s'élauçant de la flèche gothique,

Un sou religieux se rèiíand dans les airs:

Le voyageur s^arrête, et la cloche rustique

Atix derniers bruits du jour mele de saints concerts."

O sol no horizonte rubro de fogo despe- dia-se da terra passando para outros mundos.

Pastores passavam com os rebanhos em direcção ás arribanadas, levantando nuvens de poeira.

Assim toda a paysagem ia desapparecendo pouco a pouco em sombras envolventes de mystcrio.

A noite veiu beijar a terra e o silencio reinou profundamente em toda aquella região

III

Eqi pleno campo, quando o sol despontava no horizonte e vinha encher de luz os prados períumados e os valles floridos, eu estava lendo á janella do meu quarto um artigo de Emílio P^aguet, referente a ferias de estudan- tes. O illustre escriptor, fallando do mez de setembro, diz : ^<^Je liii voudrais iin joii uoni, faíl de joie, d'abondance, de grace plauíiireuse et d'un commencemeut seulement de mélancolie doitce »

Se Emilio Faguet conhecesse o mez de setembro n'esta região, chamar-lhe-hia o mez da Luz , pois toda esta paysagem é illuminada de um tal brilhantismo de sol, que as estradas e regatos assemelham-se a filas de prata muito brancas que se alongam dolentemente.

A natureza, os contornos das arvores, os lugarejos espalhados ao longe nas encostas dos outeiros, iam apparecendo, pouco a pouco e a luz ténue da madrugada ia cedendo o lugar a outra mais scintillante, conforme ia subindo no horizonte o grande astro da vida.

3o EM TERRAS DE PORTUGAL

Uma ave passou piando perdendo-se de- pois de vista para o outro lado da montanha, e tive vontade de lhe perguntar como em uns versos de Xavier de Maistre :

«Parle-moi du bruit des torrents, Des lacs profonds, des frais ombrages, Et du murmure des feuillages Qu'agite Phaleine des vents,»

Deixei por momentos o livro que estava lendo, e pensei em todos aquelles que não comprehendem as mil variedades de attracti- vos que o campo encerra.

No campo a nossa alma expande-se, e seja artista ou não, ha-de por força reconhecer o encanto do Bello, que alli está vincado nos menores detalhes, n'esses pequenos nadas que são sempre grandes paginas do glorioso livro da creação.

Para què nega-lo? Não nos sentimos pe- quenos, verdadeiros pygmeus, quer nos encon- tremos perante uma grande montanha, ou na frente d'um abysmo profundo ? !

As arvores seculares com as suas copas frondosas espalhando sombras benéficas e agradáveis, onde as aves se aninham quando a noite chega e d'onde com os seus gorgeios louvam o romper da aurora, não serão revela- ções do poder do Creador?

As azinhagas, os atalhos floridos, os rega- tos cheios de írescura, as fontes murmurantes.

EM TERRAS DE PORTUGAL

3i

não indicarão um grande poder suggestivo ao pintor, ao musico, ao poeta, atra vez da gamma das cores, da combinação dos sons, da escolha das rimas?

O meu pensamento ia assim divagando e o sol alto illuminava de tal intensidade os

ESTRADA DO AYENAL

campos, que toda a paysagem se fundia agora cm uma symphonia de colorido intenso, como se quizesse revelar ao meu pensar que se achava revestida do seu manto de brilhan- tismo, para a admirar, e lhe prestar preito e homenagem.

Sahi para poder respirar melhor aquelle ar matutino perfumado pelas singelas fiôres

32 EM TERRAS DE PORTUGAL

dos atalhos, e embrenhar-me por aquelies pinhaes assombreados e atapetados de espessa caruma.

Toda a atmosphera eslava luida por uma leve brisa que corria mansamente.

Gente que passava dava-me os bons dias, com aquelie aspecto de ingenuidade que não se encontra nas cidades.

Os topos dos pinheiros rangiam ao vento, e sons de vozes chegavam aos meus ouvidos, semi-confusas.

Das chaminés das casas, brancas como noivas, subiam espiraes de fumo que se ele- vavam pelos ares; eram os primeiros lumes, iniciavam-se os primeiros labutares dos lares, d'aquella gente pobre, humilde, de corações singelos e simples.

Os trabalhadores no campo accendiam os lumaréos entre duas pedras que sustinham uma negra pannela cheia de caldo fumegante.

Em todas aquellas almas rústicas havia o estigma da simplicidade, despido de conven- cionalismos sociaes. Todo o dia labutam e a terra que lhes absorve o suor do rosto, é a sua segunda mãe. E' o torrão que os viu nascer, que lhes amparou os primeiros passos e que os viu pela primeira vez chorar.

Ha typos no nosso campo que, vistos uma vez, jamais se olvidam. Maria Angela está n'este caso.

Maria Angela ? ! perguntará o leitor, admi-

EM TERRAS DE PORTUGAL

35

PlNfitAL DA COPA

34 EM TERRAS DE PORTUGAL

rado de vir fallar aqui d'Lima pobre creatura, quando o meu pensamento divagava pelas regiões da phantazia!

E' que Maria Angela encarna na alma o soífrimento mais nitido, mais característico da tristeza, da saudade, acariciada apenas por essa fazenda, por esse rincão de oliveiras ao longe junto ao rio.

Maria Angela era considerada a moçoila mais formosa do seu tempo ; ainda hoje existe o José Vicente, barbeiro, que attesta que fez andar á roda muitas cabecitas da sua moci- dade.

Hoje... são apenas restos de formosura passada ; desgostos vieram uns apoz outros e os annos foram pouco a pouco decompondo aquellas linhas do rosto, dos peitos, das ancas, restando apenas o olhar cheio de carinho e bondade.

Quando nova, o seu casamento com o Manuel da Quinta foi origem de festa rija na aldeia, o sino da capella repicou todo o dia! Se ella era a mais linda do lugar!

O marido, passados annos, morreu de fe- bres, deixando-a abandonada com três filhi- nhos, que ella foi amparando á custa de duras economias até se fazerem homens. Mas a des- graça de Maria Angela não ficou por aqui, parece que uma estrella funesta a acompa- nhava sempre !

O mais velho, o António, como militar,

EM TRRRAS DK PORTUGAL

morrera nas Africas defendendo como um heroe a bandeira da sua querida Pátria ; o do meio, o José, suicidára-se por causa da mulher que o enganava ; o mais novo, o Thomé, atra- vessara-lhe o peito uma bala, por engano, n'uma desordem em um arraial.

Todas estas dores reunidas formaram a maior tortura da sua alma.

Os annos passaram e hoje a Maria Angela, longe do mundo, orando apenas pelos seus que Deus tem, ampara conforme pode os desgraçados que á sua porta batem.

Maria Angela é caritativa como a terra que ella amanha; esta dá-lhe trigo, centeio, milho, para a desgraçada repartir pela pobre- za; e parece que as lagrimas dos pobresinhos que ella acolhe lhe vão regar a fazenda, pois esta está sempre tão viçosa !

Pelo menos é a lenda que corre pela aldeia. . . e não será agradável acreditarmos

n'ella ?

IV

As chuvas ultimamente cabidas deram aos campos o aspecto d'um grande vergel perfu- mado, em que os tons verdes de variadas to- nalidades palpitam cheias de viço e frescura.

As oliveiras, carvalhos, plátanos, choupos, mais além os valados, muito limpos da poeira, apresentam no seu aspecto uma alegria incons- ciente que o homem adivinha pelo prisma da sua analyse.

Os pinheiraes desprendem de si um per- fume vivificante ; as fontes, os regatos, as ver- tentes dos montes, são sagradas imagens de aspectos difterentes da natureza quando esta se recama de toda a força de Belleza trans- cendente.

ao longe passam rebanhos para o pasto; caminham na sua tranquillidade habi- tual e monótona, ao passo que o pastor os vae conduzindo, tocando na avena rústica o thema de qualquer canção, desabrochada na sua alma simples e ingénua.

Para mim o pastor é um symbolo de sim- plicidade. O rapazola que conduz o gado todo

38 EM TERRAS DE PORTUGAL

O dia, que vive isolado, pelas charnecas em fora, possue um alto grau de poesia campe- zina, é uma fonte de psychologia emotiva e subtil.

O pastor é um ente que vive affastado de toda a serie das manifestações do saber hu- mano, separado da melhor descoberta, alheio a todo o alimento intellectual do nosso eu. O seu horizonte de pensamento é semelhante ao visual, acanhado e curto, tendo por limites o ceu que o cobre e a charneca immensa que elle pisa sob os raios do sol.

Se fallarmos ao pastor na menor desco- berta, responderá por uma gargalhada, sem mesmo comprehender as palavras que lhe diri- gimos. E essa gargalhada franca, não será svmptoma de estupidez, mas o signal de uma -intelligencia inculta.

No pastor, apesar de desconhecer a exis- tência, no que ella possue de mais bello dentro da sua razão de ser, como nós a conhecemos, vemos n'elle o protótipo do artista em em- bryão !

O pastor é artista de nascença, foi o meio campezino que lhe dictou na alma uns limi- tados princípios de esthetica.

O murmúrio das fontes, o chilrear das aves, o ranger das arvores pelo vento da tem- pestade, o scenario que os campos lhe apre- sentam quando lhe mostram a mistura irregular das diversas cores da carvalhiça, dos pilri-

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teiros, do tojo, da carqueja, do rosmaninho, do carrasco, das giestas e outras plantas cam- pezinas, tudo desperta n'elle a ideia do Bello, d'uma forma rudimentar, pois que o ignora^ mas que o dispõe a possuir uma alma embe-

bida sempre n'uma espécie de Belleza ainda que pura, ingénua e simples.

Quando elle, no cimo de um outeiro, iso- lado, pega da avena, feita por elle, e toca uma canção, não veremos uma alma vibrante de sentimento ;M

De tez tisnada pelo sol, cabello desgre- nhado, peito semi-nu, olhar vivo, contempla

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carinhosamente a terra que o viu nascer e chama-lhe sua segunda mãe. Desde o romper da aurora o pastor vae caminhando e os sons da sua flauta rústica echôam pelos valles ca- vados entre abysmos, perdendo-se no grande espaço onde reina o silencio apenas quebrado pelos chocalhos do gado.

Eis um trecho de paysagem que o pintor poderá reproduzir na tela, mas por melhor que seja a obra do artista nunca traduzirá toda a sua belleza philosóphica, nascerá uma paysagem quasi sem vida, quasi morta!

Se queres leitor, conhecer bem a paysagem portugueza, embrenha-te pela charneca, vive na existência semi-selvagem das serras, con- templa frente a frente os abysmos, entra no lar do camponez, do humilde cavador, analysa o seu labutar quotidiano, ouve-lhe as canções, ora alegres como o trinar dos pássaros, ora tristes como o murmúrio das levadas, depois então verás como o artista é deficiente para a traduzir no numero infinito das suas phases suggestivas, na gamma dos seus aspectos en- cantadores !

Como disse, a chuva viera refrescar os campos verdes^ vibrantes, como preciosa esme- ralda.

Do alto de uma pequena colina via na minha frente um trecho da villa das Caldas semi-escondida pelas copas dos arvoredos ; na hnha do horizonte as areias brancas da

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Foz do Arelho e a lagoa d'Obidos, espelhada, semelhando-se a um triangulo de prata.

A' esquerda mais ao longe, divisavam-se as ruinas do castello d'Obidos, sobranceiro a todas as redondezas; jaz alli solitário, der- ruindo-se pouco a pouco.; uma pagina da

PASSANDO UM RIBEIRO

nossa historia, restos de uma época de con- quistas e heroicidades!

Com o seu aspecto negro e majestoso, de- senhava-se ao longe em Imhas severas, ser- vindo de contraste áquelle fundo de paysagem toda garrida e respirando vida.

Um bando de pombas brancas sahiram de

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um pinhal, e foram voando, batendo as azas, brancas como a espuma do mar, leves, muito leves !

Nos campos de vinhas alli próximos, junto ao lugar do Avenal, ranchos de raparigas, es- palhadas aqui e alli, andavam vindimando sob uma intensa luz de sol brilhante.

Mais além diversas dornas, em carros de bois, estavam quasi cheias de formosos cachos que em breves horas estariam nos lagares,

«Les granas chars fjemissants qui reviennent le soir»

como disse Roujon referindo-se ás vindimas da Gascônha.

Havia na fazenda um movimento desu- sado; todos traballiavam com afan. Vinho novo! Vinho novo! O sangue do trabalhador!

Entrei na herdade por uma tosca e negra cancella de ripado, um cão branco com malhas pretas correu logo a ladrar-me, era um claro aviso que estava em terra extranha.

Gala-te Fiel, disse uma voz forte solta do meio da vinha.

O animal foi prompto em obedecer e dei- xou-me em paz. Apezar de dizerem «cão que ladra, não morde» não me foi muito agradável a visita do Fiel. . .

Era um quadro digno de vêr-se, ao passo que o labutar enchia de alegria aquellas almas rudes e simples, as raparigas, como gorgeios

EM TERRAS DE PORTUGAL 43

d'aves, cantavam quadras como estas que eu pude anotar:

Perguntei ao sol se viu, A' lua se o encontrou, - A's estrellas se souberam D"um amor que me deixou.

Majaricão da jauella, Todo bordado aos ramos. Os diasque te não vejo Para mim i^arecem annos.

Quatro flores em meu peito, Fizerami sociedade. Malmequer, Amor Perfeito, O Martyrio e a Saudade.

Eu heide-te amar, amar, Quer tu queiras, quer não queiras Eu tenlio por minha bauda Quatrocentas feiticeiras.

Subi ao ceu por uma ameixa, E desci pov um cacho d'uvas Ninguém se fie nos homens São falsos como Judas.

A rapariga ao cantar esta quadra, sorriu e olhou para mim, um olliar franco ; mas tra- duzindo talvez um pouco de malicia.

Os versos eram dirigidos a mim, com cer- teza, pois eu vinha bastante longe e ainda ouvia as gargalhadas das raparigas !

44 EM TERRAS DE PORTUGAL

Quando d'ahi a dias encontrei casualmente na estrada a rapariga dos versos, parecia que a sua voz ainda me dizia aos meus ouvidos :

«Ninguém se fie nos liomens São falsos como Judas.»

Ella olhou para mim, abaixou os olhos, corou e sorriu-se.

Reconhecôra-me . . . mal sabia ella que eu lhe perdoara ha muito a injustiça.

V

Dias de chuva ! Responderás tu, leitor, muito convicto: «Dias de verdadeiro marty- rio.» Engànas-te por completo. pelo campo, não existe um momento que não seja baíejado por um terno lampejo de poesia ideal.

Se toda a natureza parece desahrochar-se n'um enlevo de alegria, quando bebe sôfrega os raios do sol, também em dias de ceu par- dacento e de constantes chuvas, os campos que se alongam perante nós, dão-nos a illusão de um ente cheio de paciência evangélica, pois suportam as bátegas d'agua, as fortes ventanias, com um heroísmo de martyr, sem o menor queixume ! Apenas o ranger dos tron- cos das arvores seculares, assemelha-se a gar- galhadas de bruxas sabidas das cavernas das montanhas, e os ribeiros correm sinistros ba- tendo com violência pelas pedras espalhadas aqui e alli ao capricho da sorte.

O ceu rasga-se como por encanto, as nu- vens acastelladas desagregam-se, abrem-se clareiras azues, e raios de sol beijam as cristas

46 EM TERRAS DE PORTUGAL

dos outeiros, os prados, os campos de vinha, os lugarejos.

Parece que um novo dia nasce !

Então a natureza, sob aquella luz cheia de poeira d'ouro, apresenta um aspecto como se estivesse com um manto de diamantes. As gottas vão-se diluindo pouco a pouco, e as flores humildes^ semi-escondidas nos atalhos, parecem que sorriem de alegria.

Abrem-se as portas das casas, e as crian- citas saltam para o meio da estrada, alegres como bandos de pardaes.

Em um casalito ao longe, meio enco- berto por um pinhal, appareceu logo a Maria Rita rodeada dos netos, tmi casal de anjos, como ella lhes chamava.

Por estes sitios todos conhecem a Maria Rita ; tem setenta e três annos e está rija como ferro, sendo a admiração de todos !

O filho, o Manoel;, mais a mulher encon- tram-se no Brazil a tentarem fortuna, e para não deixarem a velhinha sosinha e desampa- rada com aquella idade, coníiaram-lhe tempo- rariamente o cuidado dos filhos.

A' Maria Rita custara-lhe muito a partida do filho para as terras da America, ella bem sabia que ia á procura de melhor futuro, mas a separação horrível foi para o seu coração de mãe um sangrento golpe, pois pensava sempre que jamais o tornaria a ver.

Por issOj vendo nos netos, n'aquellas criaii-

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fHoupsa

48 Em terras de PORTUGAL

ças, ainda o sangue que lhe corria nas veias, a sua dor de eterna saudade ia-se diluindo por aquelles dois pequenos entes, amparan- do-os com os carinhos de avó, com um amor terno e puro, como cristalina era a agua do rio que reflectia, em uma deliciosa miragem, os elegantes choupos das suas margens.

Depois do jantar ao meio dia, era sabido que Maria Rita se assentava no degrau da sua porta, assomhreada por uma frondosa latada, e onde um melro, em uma simples e singella gaioUa de canna, lançava alegres cantos.

Maria Rita fazia meia, os netos, sentados aos pés, olhavam para ella, ávidos de curiosi- dade ; era também a hora em que a avó lhes contava varias historias que ella sabia de cór desde os primeiros alvores da sua juventude.

Nunca me cançava de contemplar aquelle quadro de familia, que dentro das suas cores de simplicidade, dimanava um encanto infinito de paz e bondade.

O' avosmha conta-me hoje a historia do macaco'^ disse o mais velho cheio de impa- ciência.

Hoje ha-de ser a historia do castello encantado que eu gostei tanto, disse a pequena beijando muito as mãos da avó.

Hoje os meus queridos netos, terão uma historia nova muito bonita.

Qual ?

Gomo se chama ?

EM TEtíHÀS DE PORTUGAL 49

E as duas crianças doidas de contenta- mento, batiam com as mãos umas nas outras, como avesinhas sacudindo as azitas quando os pães se aproximam do ninho.

A historia chama-se a Prince{a dos ca- bellos. de luar; attenção meus meninos.

Fez-se um grande silencio e Maria Rita continuando da mesma forma fazendo meia, com voz pausada começou :

Era uma vez um grande fidalgo, que vivia no alto de uma montanha em um cas- tello feito de crystal e pedras finas. Vivia sosinho, apenas com os criados, sempre triste, passando os dias e as noites chorando de tris- teza.

A sua maior alegria era ter uma filha, uma menina muito formosa, que fosse por sua morte a feliz herdeira dos seus domínios.

Passavam- se os annos e D. Gaspar jazia sempre absorvido n'aquella continua angustia, n'aquelle eterno martyrio. Porém^ uma linda noite, passando o velho fidalgo pelos seus bos- ques, gozando o bello luar, que enchia as ruas de sombras movediças, D. Gaspar viu semi- escondida no bosque uma linda menina ves- tida de branco; foi ter com ella e disse-lhe :

«Que faz por aqui, tão n'estes ermos, de noite i*!»

E a menina respondeu :

«Fui despresada pela sorte bemfazeja e procuro agasalho, tenho frio e fome.»

5o ÊM TERRAS DE PORTUGAL

«E' d'aqui, d'estas terras? disse-lhe o fidalgo, interessando-se muito pela menina.

. «De longe venho, dizem que sou filha da lua e ninguém me quer por ter sempre os cabellos da côr do luar.»

«Não te afflijas, virás comigo para o meu palácio e alli viverás como uma prin- ceza.»

A menina ficou muito contente e foi rece- bida no palácio com as maiores honras. Houve uma grande festa no castello, os sinos da ca- pella repicaram, e a menina alli viveu muitos annos em companhia de D. Gaspar que nunca -mais teve um dia de tristeza.

Ai que lindo, minha avó, o pae sabe esta historia ? disse o pequeno cheio de curio- sidade.

Sabe, contei-lh'a muita vez, quando era pequenino como tu.

O' avosinha, disse a pequena, conte outra, esta é tão pequenina ! Olhe, aquella da filha do demónio. . . . .

A branca Flor?

Sim, sim, disseram os netos em coro.

Era uma vez um grande rei que tinha um filho chamado João, muito jogador. Uma noite fugiu do palácio para correr mundo á procura de aventuras. Chegou a uma terra e entrou n'uma casa de jogo, n'essa noite perdeu todo o dinheiro sendo ganho por um sujeito que era o diabo em pessoa. A' sahida disse o

EM TERRAS DE PORTUGAL

5r

diabo a João ; ase queres conhecer o meu pa- lácio, vae á ribeira aqui próxima onde existem duas estradas, segue peia mais larga para en- contrares o meu palácio. O príncipe assim fez, porém quando chegou á ribeira encontrou duas rapari- gas, sendo a mais nova mui- to formosa. João brincan- do com esta, fingiu tirar-lhe uma roupa, ella pediu-lhe mui- to para que lhe desse o fato e que em troca o auxiliaria, lin- tão aconse- Ihou-o a que seguisse pela estrada mais estreita, pois pela mais larga seria morto.

ttOlhe, disse a rapariga, eu sou filha do dono do palácio e chamo-me Branca Flor, não lhe diga que me falou.» João agradeceu muito aquellas boas palavras e poz-se a caminho. O príncipe esteve bastante dias no palácio do demónio, seguindo sempre ás escondidas os

KA VOLTA DO MERCADO

52 EM TERRAS DE PORTUGAL

conselhos da Branca Flor. Um dia o diabo disse a João: aVae a um cerro com meio alqueire de trigo para semear e no fim do dia quero ter pão cosido. o () pobre príncipe partiu banhado cm lagrimas, vendo que era impossível cumprir aquellas ordens! «Porque choras?» disse Branca Flor; e o príncipe res- pondeu : «Não posso cumprir as ordens de teu pae.» Então Branca Flor, disse a João que se encostasse ao seu peito. João adormeceu pro- fundamente. Então a filha do diabo com a varinha de condão, fez crescer o trigo^ foi de- bulhado e cosido o pão. Quando o príncipe acordou ficou radiante de contente. Como o diabo visse que nada conseguia e tivesse no- tado que tudo era obra de Branca Flor, resol- veu mata-los. Então o príncipe e Branca Flor fugiram, e apezar dos esforços do demónio para os encontrar nunca poude conseguir. A mulher do diabo disse então: «Quando o prín- cipe receber o abraço da mãe, nunca mais se lembrará de nossa filha.» E foi certo, porque o príncipe chegou ao palácio e esqueceu-se de Branca Flor. Esta desgostosa e triste ficou morando sosinha, próximo ao palácio. Todos fallavam a João n'aquella menina tão bonita que alli niorava e um dia o príncipe quiz visi- ta-la. Achou-a muito formosa, nias não a co- nheceu! Mas Branca Flor bem sabia que a culpa não era d'elle e então disse-lhe : «Per- dou-te o esquecimento, tens bom coração.»

EM TERRAS DE PORTUGAL 53

Ficaram ambos muito contentes e d'ahi a pouco tempo casaram, tendo liavido muitas festas no palácio E acabou a historia.

As crianças riram muito e pediram á pobre velha que desejavam ouvir no dia seguinte a mesma historia

Se a avó cumpriu o pedido dos netos, ignoro, mas é de crer que lhes contaria nova- mente.

Ella não via outra coisa senão aqucUas pobres crianças !

\'I

Por uma bella larde de fins de outubro, quando a natureza comèç:a a sentir-se triste como adivinhando os frios invernaes, em que as folhas amareladas e murchas cahidas das arvores se vão depositando em montículos com a lama pelas valetas das estradas e pelos atalhos, sahi da villa das Caldas e tomei a es- trada de Rio Maior para visitar os lugares dos Mosteiros e Vidaes.

O dia apresentava-se como um parenthesis de belleza ás semanas seguidas de chuva e forte ventania que me obrigaram a passar os dias em casa.

Ia agora respirar um ar repassado de hu- midade em que o cheiro do matto se apresenta mais activo e penetrante.

O principio da estrada guarnece pelo lado esquerdo toda a matta do hospital, sempre subindo até se embrenhar depois em lindos pinhaes que a tornam a mais pittoresca das estradas.

D\im e d'outro lado avistam-se pequenas terriolas, ao longe em horizonte largo fazendas

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EM TERRAS DE PORTUGAL

amanhadas e diversas eiras. Moinhos ostentam altivos as suas velas brancas que giram dolen- temente, cortando o ar, gementes como suspi- ros cortados pelas lagrimas da dôr. Pelos valles e outeiros aquelles sons echoam prelu- diando adágios de agonias lentas.

LM ii:i;( lio 11

Caminha-se depois pelo valle de Santa Cecília, região assombreada por frondosas ar- vores, em que a estrada na linha caprichosa do seu traçado se alonga em curvas, poden- do-se gozar a paysagem em diversos aspectos. A estrada torna a subir novamente por entre campos de sobreiros e oliveiras descendo d'ahi a pouco para entrar na ponte da Matoeira,

EM TEITRAS DE PORTUGAL

5?

VALLE DE SANTA CECÍLIA

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EM TERRAS DE PORTUGAL

Aqui OS campos mudam de aspecto, a na- tureza reveste-se de novas galas, acabam os pinhaes e lanços de estrada são assombreados por altos choupos e cucalyptos ; campos de

t-^^r^r^FST^-

ARCO DA MLMoKlA

vinha, oliveiras e carvalhos acompanham a estrada até Mosteiros e Vidaes.

A povoação dos Mosteiros é insignificante, casas com aspecto pouco limpo, e outras des- habitadas com as janellas cerradas, vidros par- tidos, etc. ! A capellinha é bastante rústica com porta para a estrada, mas^pelo lado da lim-

EM TERRAS DE I'ORTUGAL

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ESTKADA DOS VIDAES

6o EM TERRAS Dl- PORTUGAL

peza forma um perfeito contraste com o resto da aldeia.

a povoação dos Vidaes denota maior importância. Dois prédios bastante grandes, bellas quintas e magnificas adegas. Notei que existe n'esta aldeia um certo gosto pelas flores! A maior parte das casas têm á janella o seu modesto vaso de sardinheiras, e pelas paredes trepadeiras floridas. Assim o lugarejo reves- te-se de uma ingénua alegria á mistura com o labutar dos trabalhadores, e com o piar das aves que sahem em bandos das copas dos arvoredos.

Próximo d'esta aldeia no alto da serra de Albardos existia até ha dois annos o Arco da Mcmuri(T,[*) todo de cantaria, com cinco metros de altura, tendo na parte superior a estatua de D. Affonso Henriques. Este arco represen- tava o primeiro marco dos coutos de Alco- baça. Ha dois annos que este arco foi des- truído parte pelo tempo e falta de reparação, parte por mãos de vândalos que não respei- tam nada, quando monumentos d'esta ordem deveriam ser guardados e estimados como

(*) o meu amigo e distincto sportman o sr. Jorge de Almeida Lima tendo notado o abandono a que estava^condemnado tal monumento histórico, oíFereceu á então Real Assoi-iaçàn dos Ar- queólogos Porttifjuezes iima photographia do Arco fazenda tam- beni ver o seu abandono e ruina. Mais tarde o sr. Jorge ]jima re- cebeu da Associação um honroso otficio dizendo que tinham sido dadas serias i^rovidencias ! Isto foi no anno de 1910 I Hoje dis- seram-me que nada existe ! ! 1

EM TEkftAS DE PÔRTUtíAL

verdadeiras relíquias. Hoje nada existe, se- gundo me disseram, pedras espalhadas aqui e alli, nada mais ! Geral desmasêlo da nossa gente!

São paginas da nossa historia que vão desapparecendo pouco a pouco e as novas gerações d'aqui a annos não terão onde pos- sam ver, analysar épocas remotas, testemunhas vividas que o correr dos séculos não conse- guiu derruir mas que o fraco senso dos homens destroe em poucos annos !

VII

«Oh pátria minha, oh pátria «aicantadora, Antigo alcáçar, Óbidos amada, Se por braço infiel edificada, Ha séculos da Cruz adorada.»

Silve'n-a Malhão.

Um dos arredores das Caldas mais digno de ser visitado é decerto a villa d'Ohidos.

Óbidos! como este nome evoca paginas da nossa historia! Ao entrarmos dentro dos seus muros, quando percorremos as suas ruas e becos, quando analysamos as suas egrejas e cruzeiros, quando deparamos com seus anti- gos nichos, iliuminados pelo clássico lampião em ferro batido, quando emíim olhamos para o seu castello em ruinas, temos a impressão que vivemos em outra época bem difterente da nossa !

E' uma terra que parece viver do seu pas- sado ; dentro das suas grossas muralhas os habitantes são descendentes de antigos heroes, que a conquistaram com rara bravura ; vivem como separados, isolados de todos, adorando um passado brilhante que jamais poderá mor-

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ÉM TERRAS DE PORTUGAL

rer pois está gravado para sempre na historia portugueza !

A maior parte das famílias vão a Óbidos, á laia de simples passeios, meros pretextos para burricadas, nada mais !

Não! visitar Óbidos d'esta forma, chega a ser um crime d'arte !

Ksta villa com o seu suggestivo aspecto antigo é um constante livro aberto onde po-

VISTA GERAL d'oKIDOS

demos colher um numero infinito de elementos curiosos para a nossa vida histórica. Dimana de si própria uma constante força de belleza tão característica que não se assemelha com as demais terras d'esta região. Logo que a avistamos ao longe coroada pelas torres do castello, apresenta-se sob um prisma de nobreza, de superioridade, verdadeiramente altiva !

ÈM tEéiiAS DE PORTUGAL

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Não contando com um pequeno numero de casas que tem construído fora dos muros, a villa é cercada por grandes muralhas com ameias e diversas torres. Estas muralhas pos- suem as seguintes portas : da Cerca, da Villa,

o CASTELLO DOBIDOS

do Telhai e do Valle. Tanto do alto do castcllo como das muralhas avista-se um panorama magnifico ; divisamos as Gaeiras, Quinta das janellas, (*) Várzea da Rainlia, etc.

(*) Esta quinta è hoje propriedade do sr. Luiz Gama. Diz-nos o Panorama, vol. V, o seo-uiute : «Foi pertencente a D. José d' Alarcão, filho de D.José d'Alarcão e da condessa de S.Vicente. Morreu n'esta quinta, d'uma cólica, a, 21 de julho de 1742 o in- fante D. Fi'ancisco, irnião d"el-rei D. João V.»

66 EM TEliRAS DE POfetUGAt

Sobre a fundação d'esta villa nada po- demos dizer de certeza, ha quem diga que data do anno de i364 antes de Christo, mas tudo isto são meras conjecturas. {*) Para nós começa a ter importância apoz 1 1 de janeiro de I 148, dia em que foi tomada aos mouros por D. Affonso Henriques.

Entrando-se no castello, olhando para todas aquellas pedras negras e carcomidas pelas chuvas de mititos séculos parece que nos dizem á nossa imaginação tudo que sabem e que presenciaram ! E foi olhando para aquellas ruinas que ellas me traduziram passa- gens gloriosas da sua vida. Assim pude sinthe- tisar no meu espirito alguns factos históricos ; quanto Óbidos foi grande em lealdade a D. Sancho II, resistindo cheia de coragem ao cerco imposto por D. Aílonso III ; reconhe- cendo-lhe depois tal valor que lhe deu o titulo de sempre leal! A forma como o rei D. Diniz cuidou com interesse d'esta villa mandando

(*) Segundo consta, em épocas remotas c-he.£2,'ou ali um braço de mar, na estrada das Caldas a 'J'urres Vedras, perto do rio Ai-noia que entra na lagoa d'0bidos e vae desaguar no Oceano Atlântico. 'São admira que os teireuos, atravez dos séculos, tenham soíírido tantas transformações e que hoje esse braço do mar tivesse desapparecido. O chronista Frei Francisco Bran- dão, meiado do século xvii, notava que as areias davam causa a obstruir-se o escoamento das aguas lluviaes. Diz elle que o rio Alfeizirão, no reinado de D. Manuel, podia com oitenta navios de alto bordo. No porto de S. Martinho o areiameuto era no- tável. Sobre o rio Alfeizirão devemos notar bastante exagero ! Por esta região d"Obidos havia grande numero de bosques ojide abundavam cervos, javardos. coelhos, etc.

O Livro vermelho de D. Aítbnso V diz que na lagoa habita- vam e se criavam Cisnes selvagens,

ÉM TEÍMíÀS de PORTUGAL

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construir um castello sobre um enorme ro- chedo, e dando o senhorio d'esta villa quando do seu casamento á sua mulher a rainha santa Isabel; o cuidado que teve D. Fernando em

UMA TOKUE ]J0 CASTELLO

mandar reparar certas muralhas e construir outras, e por íim como esta villa assistiu aos primeiros tiros entre as tropas portuguezas aliadas com os inglezes contra os francezes, realisando-se no dia seguinte, 1 6 de agosto de 1808, a batalha da Roliça, próximo d'Obidos.

68

EM TERRAS DE PORTUGAL

Estas datas vinham á minha mente umas apoz outras e todas aquellas figuras que tanto illustraram o nome portuguez, passavam rápi- das perante mim como se sahissem d'aqueilas

ruinas, a faze- rem lembrar ás gerações mo- dernas quanto foram grandes e quanio ama- ram a sua Pa- trifi !

Quando sahi do castello, era ao cahir da tarde ; a villa jazia sobre uma ténue claridade crepuscuhir, e o sol desappa- recia no hori- zonte, lançan- do as ultimas resteas de luz sobre toda aquella região banhada de silencio e paz.

Rodrigues Cordeiro em poucas palavras resumiu o valor da villa d'Obidos, e fê-lo de uma forma tão suggestiva. que é quasi um dever transcrever para aqui os seus brilhantes períodos ;

UMA PORTA XO CASTELLO

EM TERRAS DE PORTUGAL

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«Então era a lembrada dos reis, hoje é a esquecida; então era a rica, a feliz, a namorada do guerreiro, hoje é a decrépita, que ve car- coiuida e quasi tombada a sua coroa de mu- ralhas.

U.M TKKCHU DA VII.LA

chicomprehensiveis destinos humanos!

<• Para nós, que não podemos ser inditferen- tes ás glorias da pátria, que não somos como o villão que passa por uni homem de bem sem lhe tirar o chapeo, porque lhe a face iucar- quilhada e a capa velha, que não somos dos

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EM TFRRAS DE PORTUGAL

que a matizam ou cobrem d'injurias porque a vêem descida do throno, é Óbidos ainda :

«A veneranda, a coeva da monarchia, que pode sorrir com desdém para os que vierem

EGUEJA DE SANTA MAUIA

depois, e a olham sobranceiros porque se vêem agora mais ricos e mais considerados; «A sempre leal, que pode levantar a fronte desassombrada, olhar para Toledo, e fitar o tumulo do infeliz D. Sancho II, como dizen-

EM TERRAS DE PORTUGAL

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UVA. K CRUZKIRO

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EM TERRAS DE PORTUGAL

do-lhe : fui-te fiel, fui como a tua Coimbra, e a tua Celorico, emquanto todas as outras te trahiram.

«A nobre, que pode apontar para os seus pergaminhos, e desvanece-se do seu brazão d'armas uma torre de prata assente sobre

CAPKLLA DAS GAEIRAS

rochedos, onde tremula uma bandeira e do seu aqueducto, dadiva de duas rainhas (D. Leo- nor e D. Catharina) ; do seu roqueiro castello, presente de um D. Diniz; da sua gloria de haver sido escolhida para dote d'uma Isabel,

santa rainha de Portugal.

«A sabia, que pode rever-se em seus filhos e mostrar á pátria, a par dos que são heroes pelas armas, os que pela intelligencia e pela

EM TERRAS DK PORTUGAL

7-3

penna não são menos distinctos um António de Macedo Neto e Mello, um Fr. António de S. Thomaz, um Fr. Dionizio Matoso, um Fr. Estevão Annes, um Francisco Vaz Tagarro, um João Campello de Macedo, um Fr. João da Nazareth, um Fr. José de S. Rufo, um Fr. Luiz

o SKNIIOK DA l'EL)RA

de Sá, um Fr. Manuel da Cunha, um Fr. Mar- tinho Pereira, um Fr. Miguel da Natividade, uma Josepha d'Aiála, e os Malhóes illustres no trato das musas, distínctissimos na elo- quência do púlpito.»

Sim, mais uma vez direi que é neccessario visitar Óbidos, analysar a villa sob um aspecto de rehquia valiosa, pois tudo possue um cara- cter antigo que nos fascina. Quando visitamos

74 EM TERRAS DE PORTUGAL

as egrejas de Santa Maria, de S. Pedro, de S. Martinho, (*) cada uma com os seus quadros de valor, os seus túmulos, etc, a nossa alma vibra perante todos aquelles objectos que são testemunhas constantes de tempos passados, épocas em que fumos gran- des e notáveis.

Na egreja de Santa Maria ainda pude exe- cutar no velho órgão um Preludio de Bach, e toda aquella musica espalhou-se como por en- canto por todo o ambiente sagrado que me ro- deava ; tive então a illusão que um cortejo d'anJos descera do ceu á terra para cantarem a Deus um hymno de louvor. Fiz soar as uhi- mas notas do Preludio e tudo jazeu no\'amente no silencio continuo.

Muito próximo da villa d'Obidos existe a egreja do Senhor da Pedra ^ digna de ser também visitada. E' da época de D. João V, as obras começaram em 1740 e foi aberta ao culto em 1747. A parte exterior da egreja não foi terminada por causa da morte do monar- cha. A titulo de curiosidade direi que os mé- dicos aconselharam a D. João V os banhos das Caldas e logo se mandou concertar as estradas e construir alli palácios de madeira

I*) Esta capella foi vendida o anno passado a lueu irmão Visconde de Sacavém ijosé). Foi fundada pela família Lafeta, natural de Cremoua e que viveu em Portugal. Tem por brazão um castello de ouro em campo azul. Existem n"esta capella dois túmulos em i^edra e varias inscripções. _

EM TERRAS DE PORTUGAL

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para alojarem a corte, e foi o cardeal da Cunha benzer as estradas, dias antes da partida do rei. Apenas a corte chegou ás Caldas, o rei recebeu innumeros presentes dos frades de Alcobaça, constando de 69 vitellas, 194 pre-

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suntos, 182 queijos, 210 perus, 692 gallinhas, 12 cargas de fructa, 26 paios e 333 caixas com doces. D. João V repartiu este presente pelos cardeaes da Motta e da Cunha e pelos frades arrabidos das Gaeiras mandando a estes mais 2oorooo rs. Ao Senhor da Pedra enviou 10:000 cruzados para as obras da sua egreja.

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EM TERRAS DE PORTUGAL

Direi também que D. João V e a sua corte de regresso a Lisboa gastaram na jornada 12 horas. (*)

Outro passeio interessante é a S. Mamede, Roliça e Columbeira, vendo-se no alio d'um

cAi'i;i,LA DK í;. ma.mi:;i>i;

monte um cruzeiro em memoria da iTioric do tenente-coronel inglez Lake que fallcccu na batalha entre portuguezes e inglezes contra as tropas francezas.

A estrada é muito pittoresca atravessando campos de vinha e olivèdos.

{*> 'Portugal ua ej^oca de D. João V». por Manuel Bernardes Branco.

VIII

Em meia dúzia de quartos de papel, escri- ptos sobre uma tosca mesa de pinho do meu humilde gabinete d'aldeia, venho hoje dizer as ultimas impressões da minha estada no campo, as quaes me deixaram no espirito recordações sagradas de saudade.

Não pude, é certo, deliciar o leitor com elevadas flores de cstylo, resta-me ao menos a consciência a dictar-me que procurei ser sincero fazendo todo o possivel em traduzir, atra vez da minha prosa, todos os encantos que estas regiões me deixaram, momentos de- liciosos, horas de um conforto moral admirá- vel, dias em que a minha alma se elevou a lugares de paz e socego.

E agora que estou a deixar d'aqui a horas estes sitios, mais elles me despertam no meu coração um vago estado de tristeza illuminada por uma melancholia infinita.

Quando no comboio que me transportará a Lisboa, vierem á minha mente estas paysa- gens banhadas de luz, toda esta bôa gente que tãa carinhosamente me tratou, sentirei uma

78 ÈM TERRAS DE PORTUGAL

profunda dôr, pensando nos mezes de ausên- cia que terei, até vir visita-los de novo e con- viver com elles.

O campo é um livro immenso, que todas as vezes que o folheamos encontramos coisas novas.

Um abysmo rasgado entre duas montanhas desperta em nós, de cada vez que o contem- plamos, phenomenos diversos. Um vergel flo- rido recama-se aos nossos olhos de coloridos ditlerentes. A solitária charneca atapetada de carqueja em flor, ora nos a impressão de alegria, ora nos faz nascer as ideias de dôr, de grandeza.

O murmúrio dos rios, o gemer das fontes, os cantos das aves, as canções das raparigas, as eiras cor de ouro, tudo emfim nos desperta uma serie infinita de pensamentos, de estados d'alma que ficam gravados para jamais se apagarem da nossa sensibilidade.

Podemos comparar o campo ás sympho- nias de Beethoven, pois todas as vezes que as ouvimos lhe encontramos compassos novos de rara Belleza.

Lembro-me agora d'uma phrase de Michel Epuy do seu brilhante livro sobre o Sentimento da Natureia: <'Pour la nature surtout, ce qui frappe douloureusement,c'est qu'elle est aimée et ne le sait pas.-»

Dois dias de sol, após uma semana de chuvas, deram-me ensejo de visitar dois luga-

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rejos que não conhecia, Failadia e S. Gregório.

A totalidade da estrada é lançada atravez da charneca, dando-nos esta toda a força da sua aridez. Mas em compensação, por momen- tos, a nossa vista espraia- se em lindos horizontes, ten- do como fundo as serras de Rio Maior, desta- cando-se com as suas cores azuladas, do resto da natu- reza verdejante que se divisava levemente.

Aqui e alli pequenas po- voações dão á leia rústica um lom de alegria delicada e sim- fanadia

pies.

A Fanadia é a primeira aldeia que se en- contra. Meia dúzia de casas dispostas á beira da estrada ; ao terminar do lugar uma capeli- nha interessante, e varias adegas.

Depois da Fanadia, á distancia talvez de dois kilometroSj encontra-se em um pequeno

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EM TERRAS DE PORTUGAL

outeiro a capella de S. Gregório dominando

algumas fazendas de vinhas, oliveiras e vários

pinhaes.

Do lado op- posto, sobre um cerro, um moinho bas- tante caracte- rístico faz lem- brar um trecho de campo hol- landez.

D'ahi a pou- co cntra-se no kiiíar de S Gre- !^ori().

\\ também bastante insi- gnificante, mas muito mais pit- toresco que a Fanadia, pois íica situado n'um alto. As casas são demasiado rústicas, e a mór

parte têm nas beiras dos telhados, renques de

abóboras a receberem os bellos e dourados

raios do sol.

Entre as casas, as costumadas estrumeiras,

á solta gallinhas, patos, porcos e até bois !

Todos em pleno convívio, a máxima liberdade !

S. GREGÓRIO

EM tÇRRAS DE PORTUGAL

8l

Como nota curiosa : fallando com um po- bre velho e dizendo-lhe quanto aquelle lugar íicava distante das* Caldas, tão inconveniente para o mercado ao domingo, elle olhou para mim com "aspecto serio e replicou-me :

Para nós é um pouco longe isso é verdade, mas para os senhores não ha longes,

UM MOIXHO

esses carros a fogo\ correm como o raio ! O home inventa cada uma !

Conclui então que os carros a fogo eram os automóveis.

Gente rústica e bondosa, almas simples que nos encantam sempre!

Pela volta, ja o sol baixava no horizonte enchendo a paysagem d'uma cor acobreada.

82 EM TERRAS DE PORTUGAL

A charneca apresentava-se como a ima- gem da eterna tristeza, da infinita solidão,

A luz vermellia do poente, vista atravez dos pinheiraes, dava-me a illusão d'um gran- dioso e phantaslico incêndio, da terra em fogo!

As chaminés das casas lançavam aspiraes de fumo muito branco, que se elevava pelos ares, eram os últimos lumes do trabalhador, a hora da ceia, depois. . . o somno reparador do trabalho.

Em todo aquelle ambiente pairava uma atmosphera de profundo mvsterio ; os campos iani-se cobrindo com o manto da noite e atra- vez das sombras cada vez mais carregadas tive a illusão que o campo se.povoava de figu- ras phantasticas, almas errantes. Imagens pas- savam perante mim como sombras sinistras da Dôr humana, e na minh'alma reflectia-se toda a melancholia da Natureza, todo aquelle crepús- culo sempre triste da noite.

No dia seguinte voltei ao lugar do Couto, ao casal da Serralheira para assistir a uma festa bastante sensibilisadora , festejava-se o centenário de uma velhinha que nascera a 6 de outubro de iSij. Chama-se Mariana Rosa Alves Trapalha. Além de uma filha, netos e bisnetos tem um irmão com a edade de 96 annos.

EM TERRAS DE PORTUGAL

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Houve jantar de familia, musica e fogue- tes, verdadeira festa d'aldeia.

Todas as crianças dos lugares próximos

MAKIANA TRAPALHA

foram visitar a pobre velha que estava radiante de contentamento ; foram anjos a conhecerem aquella alma que em breve tempo subirá ás regiões sagradas do mysterio e da paz eterna.

84 TM TERRAS DE PORTUGAL

Agora deixando estas regiões, levo na alma bem gravado todo o esplendor, toda a força csthelica d'estes sitios que têm para mim um conjunclo de attractivos como existem cm terras de Portugal.

Caldas da Rainha

Agosto Novembro

1913.

ACABOU-SE DE IMPRIMIR ESIE LIVRO

AOS DOIS DE JANEIRO

DE MIL XOVECENTOS E QUATORZE NA

TYPOGRAPHIA DA LIVRARIA FERIN,

EDITORA, RUA NOVA DO ALMADA,

NÚMEROS SETENTA A SETENTA E QUATRO^ NA

CIDADE DE LISBOA

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525 Em terras de Portugal

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