1'
] — 2." Tradições
EDIÇÃO ESPECIAL SOB O PATROCÍNIO DA COMISSÃO DO IV CENTENÁRIO DA CIDADE DE SÃO PAULO
SERVIÇO DE COMEMORAÇÕES CULTURAIS
História e Tradições da
Cidade de São Paulo
Volume II
História e Tradições da Cidade de São Paulo
3 desenhos em côres de Cândido Portinari 112 bicos-de-pena de Clóvis Graciano fotografias e plantas de S. Paulo antigo e moderno
VOLUME I
Prefácio de Gilberto Freyre Nota Preliminar Introdução — Cidades-Gr andes do Brasil V Parte — Arraial de Sertanistas (1554 - 1828)
VOLUME II 2' Parte ^ Burgo de Estudantes (1828- 1872)
VOLUME III
3' Parte — Metrópole do Cafi (1872 - 1918)
Apêndice — São Paulo de Agora (1918 - 1954)
Bibliografia
Notas sobre as Gravuras
índice de Assuntos è de Lugares
índice de Nomes
★
Livraria JOSÉ OLYMPIO Editora
/íio <lr. Janeiro : Rua do Ouvidor, 110 Hão Paulo: Rua dos GusmOés, 100 Belo Horizonte: Rua Curitiba. 482 Itecife : Av. Manuel Borlia, 23^C Porto Alegre: Rua dos Andradas, 717
ERNÂNI SILVA BRUNO
História e "tradições
da
Cidade de São Paulo
VOLUME II
Burgo de Estudantes (1828-1872)- ★
Prefácio de Gilberto Freyre ★
Com 285 ilustrações, fotografias e plantas Bicos-de-pena de CLÓVIS GRACIANO Desenhos em cores de CANDIDO PORTINARI
2. a edicã
EDIÇÃO ESPECIAL SOB O PATROCÍNIO DA
COMISSÃO DO rv CENTENÁRIO DA CIDADE DE SÂO PAULO ly' ^ Serviço de Comemorações Culturais
Livraria José OlympíO Editora
Hua do Ouvidor, 110 — Rio de Janeiro — / 954
ÍNDICE GERAL DO VOLUME II
SEGUNDA PARTE
BURGO DE ESTUDANTES (1828-1872) 441
I — Os Sobrados e os Balcões 465
II — Sob a Luz do Azeite 503
III — No Retiro das Chácaras 555
IV — Carruagens e Pontes de Pedra 581
V — Saúva e Chafarizes 625
VI — Lojas, Fábricas, Hotéis 671
VII — Febres e Crimes 723
VIII — Festas de Brancos e de Negros 753
IX — A Presença dos Académicos 807
X - — Entre Comédias e Serenatas 861
índice de gravurasdo volume ii
42 — Vista da cidade (1855) 443
43 — Aspecto de ruas e casas (1841) 449
44 — Igreja e mosteiro de São Bento (1835) 453
45 — Igrejas de São Francisco e Ordem 3.^ (1870) 457
46 — Casas com beirais na rua Direita (1870) 467
47 — Edifícios de taipa na rua de São Francisco : . 471
48 — Casas com rótulas na rua do Quartel (1860) 475
49 — Mosteiro e igreja dos Beneditinos (1847) 481
50 — Igreja de São Pedro (1860) 485
51 — Igreja de Santa Ifigência (meados do século passado) .... 489
52 — Sobradões edificados em 1852 e 1854 493
53 — Sobrado de três andares (1860-1870) 497
54 — Pavimentação irregular no Piques (1860) 507
55 — Calçadas estreitas na rua Direita (1865-1870) 513
56 — Casas com rótulas na rua da Boa Morte (1870) 519
57 — Rua da Esperança (1860-1870) 527
58 — Pátio do Colégio (1847) : 531
59 — Lampião preso a uma porta (rua de São José) .... 539
60 — Lampião preso a uma parede (rua Tabatinguera) 543
61 — Rua da Imperatriz à noite (1862) ~ 547
62 — Aspecto da "cidade (1841) 557
53 — Chácara da Tabatinguera (1862) 561
64 — Chácara Charpe, Mauá ou do Campo Redondo (1870) .. 565
65 — Chácara Bresser (1860) 569
66 — Chácara Loskiel (1860) 573
67 — Ponte do Cubatão e Caminho do Mar (1855) 585
68 — A cidade vista do Caminho da Penha (1854) 589
69 — Estação primitiva da Estrada de Ferro Inglesa (1867) .... 593
70 — Cavalos presos a portas (rua de São Bento) 599
71 — Carro de bois na rua Direita 603
72 — Ferrador e tílburi no largo de São Francisco 609
73 — Ponte do Carmo e lavadeiras 617
74 — Bica do Acu e casa do brigadeiro Tobias 627
75 — Campos do Bexiga e ruíi de Santo Amaro 633
76 — Chafariz e igreja da Misericórdia (1870) 645
77 — Chafariz e pirâmide do Piques (1860) 651
78— "Charge" sobre a falta de água (1866) 655
79 — Estudantes na bica do Miguel Carlos 661
80 — Carroças-pipas no Tamanduateí (1866) 665
81 — Casinhas (mercado) na ladeira do Carmo 675 .
82 — Negros com tabuleiros no Ipiranga (1855) 679
83 ^ Quitandeiras de peixe (1854) 683
84 _ Ladeira General Carneiro (1860) 687
85 — Hotel Palm (1870) 691
86 — Grande Hotel da Paz 695
87 — Henrique Fox, lojista famoso na cidade 701
88 — Lojas de fazendas na rua Direita (1860-1870) 707
89 — Largo do Brás (1860) 713
90 — Caminho do Aterrado do Brás (1870) 731
91 _ Convento da Luz (1870) 739
92 — Capitão do mato no Vale do Anhangabaú 743
93 — Edifício da Câmara e Cadeia (1860) 747
94 — Igreja e convento de São Bento (1870) 757
95 : — Sepultamerito nos cemitérios de igrejas 761
96 — Cruzeiro de pedra no largo do Ouvidor (1870) 765
97 — O episódio da Cruz Preta 769
98 — Imagem de São Jorge 775
99 — Igreja matriz, no largo da Sé (1860) 779
100 — Igreja do Rosário dos Pretos (1860-1870) 787
101 — Marquesa de Santos 799
102 — Edifício da Academia de Direito 811
103 — Igrejas e convento do Carmo (1870) 815
104 — Chácara dos Ingleses 821
105 — Igreja da Sé (1847) 827
106 — Primeiro número de O Farol Paulistann (1827) 839
107 — Primeiro número do Correio Paulistano (1854) 845
108 — Alvares de Azevedo 853
109 — Casa da Ópera (1870) 865
110 — Teatro São José (1870) 871
111 — Ruínas da Casa da Ópera 877
112 — Serenata de estudantes 887
113 — Largo da Cadeia e igreja dos Remédios (1860) 891
FORA DO TEXTO
Entre as págs.
Desenho de Cândido Portinari IV/V
Planta da cidade de São Paulo (1877) 896
SEGUNDA PARTE
BURGO DE ESTUDANTES
Em 1830 São Paulo, apesar de capital de província e distinguida desde 1823 cora o título de Imperial Cidade, não pas sava de uma povoação pobre. Nem a sua re- gião nem a sua província podiam lhe dar ele- mentos de prosperidade e de destaque dentro dos quadros da economia brasileira da época. Circundada de campos estéreis — escreveu Vieira Bueno — in- çados de saúva, apenas matizados de capões e res- tingas, a lavoura circunvizinha limitada à cultura da mandioca e de poucos cereais não lhe oferecia ele- mentos de riqueza. Acontecia a mesma coisa com a indústria pastoril. Só no comércio de animais, pela maior parte trazidos do Rio Grande do Sul — acres- centava esse cronista — é que alguns paulistas da capital tinham conseguido adquirir fortunas de certo .vulto. O comércio de exportação da província, ali- mentado somente pelo açúcar produzido no interior, apenas atravessava a cidade, movimentado pelas tro- pas de bestas que passavam para o pôrto de Santos^. Não era de estranhar por isso que não houvesse che- gado ainda a Piratininga — como observou D'Or- bigny nessa época — o luxo europeu no ponto em que éle era encontrado "nas ricas cidades do litoral"^
^ Francisco de Assis Vieira Bueno, "A Cidade de São Paulo", Rev. do Centro de Ciências, Letras e Artes, Campinas, Ano II, n.os 1, 2 e 3.
2 Alcide D'Orbigny, Voyagc dans les deux Amériques, pag. 179.
442
ERNÂNI SILVA ERUNO
A cidade refletia aliás com precisão — no dizer de Teodoro Sampaio — o que ia pela província inteira: algo que estava longe da prosperidade que mais tarde seria condicionada pelo café, embora não fôsse já o torpor que havia caracterizado todo o setecentismo paulista^
Sobretudo até meados do século São Paulo não se distanciou por isso quase nada de sua fisionomia colonial, e nem de longe acompanhou a Corte no desenvolvimento urbano que se seguiu no Rio de Ja- neiro à fixação da família real portuguêsa, ou algu- mas cidades do litoral do nordeste, desde os primeiros séculos beneficiadas — quando São Paulo era ainda um arraial quase perdido na bôca do sertão — pela opulência de regiões em que a cana de açúcar se di- fundira mais e em melhores condições de estabilidade, e pelas facilidades de contacto mais permanente com a Europa ou pelo menos com Portugal. Alguns de- poimentos da época são bastante expressivos dessa desigualdade. O romancista Bernardo Guimarães, referindo-se à cidade em meados do oitocentismo — cidade que conhecera bem, nesse tempo, pois viveu nela alguns anos, cursando a sua Academia de Di- reito — escrevia: "...pôsto que fôsse já, relativa- mente à época, uma cidade assaz poi^ulosa e o núcleo de um grande movimento intelectual, parecia respirar- se ali ainda a aura tradicional dos tempos de Amador Bueno"\ Era a "cidade dos mortos" a que se referiu, em um de seus desabafos, um contemporâneo de Ber- nardo Guimarães: o poeta Álvares de Azevedo. "A cidade ainda não deixou de ser São Paulo, o que
^ Teodoro Sampaio, "São Paulo no século XIX", Rev. Jo Inst. Hist. c Gcog. de S. Paulo, VI, pag. 159.
* Bernardo Guimarães, Rosaura, a Enjeitadaj pag. 8.
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 445
quer dizer muita coisa: tédio e aborrecimento", la- mentava-se êle em carta para a família. E em outra : "É para desgostar um homem tôda a sua vida de ver ruínas! Tudo aqui parece velho e centenário"^ E mesmo no "Macário", em descrição que sem dúvida é da cidade de São Paulo — apesar da possível defor- mação romântica - — diz um personagem do autor da Lira dos Vinte Anos: "Hás de vê-la desenhando no céu suas torres escuras e seus casebres tão pretos de noite como de dia, iluminada mas sombria como uma essa de enterro". "A cidade, colocada na montanha, en- volta de várzeas relvosas, tem ladeiras íngremes e ruas péssimas"®. É possível que o poeta — que se sentia em São Paulo como exilado da Corte, falando sem.pre em tom amargo das coisas paulistanas em sua corres- pondência para o Rio — carregasse um pouco nas côres. Mas o seu depoimento, ainda assim, tudo leva a crer que retratasse a fisionomia da cidade piratí- ningana que só aos poucos ia sendo modificada ■ — inclusive em seus costumes — sob a pressão da exis- tência de um Curso de Direito e da presença de estu- dantes numerosos do Rio- de Janeiro e de outras pro- víncias. Até certo ponto pelo menos a opinião de Álvares de Azevedo representava o modo de sentir de muitos de seus colegas de Academia. Depois de notar, em outra de suas cartas, que a vida em São Paulo era um "bocejar infinito", acrescentava: "Se íòsse só eu que o pensasse dir-se-ia que seria moléstia, mas todos pensam assim". "Não há passeios que en- tretenham, nem bailes, nem sociedade"''. Deve-se notar que a sociedade pauHstana estivera reduzida até
■ ^ Álvares de Azevedo, Obras Completas, II, pags. 467 e 531.
^ Álvares de Azevedo, op. cit., II, pags. 26 e 29.
' ^ Álvares de Azevedo, op. cit., II, pag. 493.
446
E R N A xV r SILVA BRUNO
a primeira metade do século dezenove — como lembrou Richard N. Morse — a unidades de família, cada (jual confinada numa chácara ou sobrado. "A auto- reclusão das famílias da classe mais abastada rele- gava as ruas e os largos ao domínio das classes mais humildes : escravos que brigavam nos chafarizes, qui- tandeiras loquazes, tropeiros, tipos populares de bê- bados e débeis mentais, e à noitinha mulheres da vida". Isso tudo começou a sofrer o impacto repre- sentado pela permanência da classe académica^. An- tônio de Toledo Piza, referindo-se aos primeiros tem- pos da Academia de Direito, observou que o pequeno número de estudantes já era bastante então para im- primir certa atividade "às sombrias ruas da vetusta cidade colonial e para dar feição brasileira a uma sociedade composta em boa parte de negociantes por- tuguêses e franceses, únicos elementos estrangeiros então perceptíveis na capital paulista"^. Mas ainda em meados do oitocentismo a diferença entre o desen- volvimento urbano e os costumes da sociedade do Rio e de São Paulo era bem marcada, explicando-se o aborrecimento que a capital da província, como cidade, causava a muitos dos estudantes de sua Aca- demia. Pelo menos àqueles familiarizados com cen- tros de maior desenvolvimento e afeitos a costumes mais requintados. A êsses São Paulo não podia parecer mesmo senão uma aldeia de provincianos em- bezerrado.5. Ou — na expressão de Almeida Nogueira — a jjequena e atrasada cidade que era o wSão Paulo das rótulas, das mantilhas e das formigas saúvas^'*.
Richard N. Morse, São Paulo — Raízes Oitocentistas da Mct ól^ole, pag. 459.
' Citado ix)r Almeida Nogueira. A Academia de São Paulo. IV, pag. 21.
^" Almeida Nogueira, op. cit., pag. 266.
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 447
que os académicos às vêzes procuravam ridicularizar nas suas sátiras ou nas suas brincadeiras. Isso resul- tava em grande parte da pequena relevância do burgo paulistano como centro de negócios, e de sua posição por isso secundária dentro da economia brasileira da época. "São Paulo, como quase todas as cidades cen- trais — observa va-se em comentário publicado em 1854 no Correio Paulistano — não oferece a seus habi- tantes senão escassos e acanhados meios de subsis- tência. Em verdade a nossa população compõe-se de emprvegados públicos, militares reformados, pouca tro- pa, artistas que só trabalham para o consumo dò lugar, um comércio quase morto, porque é de retalho e final- mente a classe académica : eis aqui uma população con- sumidora e pouco produtora"^^. Daí aquela observação do reverendo Fletcher em 1855 : a de que havia nesse burgo um ar mais intelectual e menos comercial do que em qualquer outra parte do Brasil que o americano co- nhecera. "Não se ouvia a palavra "dinheiro" soando constantemente aos ouvidos, como no Rio de Ja- neiro"^^
É verdade que exatamente em meados do século dezenove uma porção de fatôres concorreu para que se alterasse o .panorama económico e social do país e mais particularmente ainda o da província de vSão Paulo. Um déles, o deslocamento da primazia eco- nómica, das velhas regiões agrícolas do norte para as do centro-sul do Brasil, acompanhado pela deca- dência da lavoura tradicional da cana de açúcar e o desenvolvimento considerável de uma cultura até então
Correio Paulistano de 11 de julho de 1854. 12 D. P. Kidder e J. C. Fletcher, O Brasil e os Brasileiros, II, pag. 72.
448
ERNÂNI SILVA BRUNO
modesta: a do café^^ Na província de São Paulo nessa época já era aliás bem visível a substituição do açúcar pela nova lavoura^*. Na zona de Campinas sobretudo — região de lavradores abastados — muitos fazendeiros abandonavam completamente a antiga cul- tura, tratando de fazer enormes plantações de café: já se viam ali até destroços de velhos engenhos de cana^^ A mudança da cultura de açúcar para a de café e chá — dizia-se em um relatório do govêrno da província em 1852 — é uma tendência que os nossos fazendeiros manifestam e se vai operando in- sensivelmente; esta tendência provém. . . não só de ser mais fácil e vantajosa essa cultura do que aquela, como porque é menos sujeita às avarias inerentes ao péssimo estado das nossas vias de comunicação e impossibilidade da rodag^em^^. Êsse desenvolvimento da lavoura cafeeira por sua vez contribuiu para am- pliar de forma notável os negócios dos muladéiros, "que iam vendendo muares para abastecer as centenas de tropas que de São Paulo e da província do Rio — escreveu Gouto de Magalhães — transportavam para o Rio de Janeiro o café, só mais tarde conduzido pelas estradas de ferro"^''. Por outro lado, extinto no país o tráfico de africanos — como observou Sebastião Ferreira Soares — a grande soma de capi-
Caio Prado Júnior, História Económica do Brasil, pags. 167 e .--eguintes.
^* Alphonse Rendu, Eludes Topografiques, Médicales et Agranouiiques sur le Brésil, pags. 218 e seguintes.
'5 Maria Pais de Barros, No Tempo de Dantes, pags. 68-69.
Relatório do presidente da província Nabitco de Araújo ein 1852, pag. 36.
Couto de IMagalhães, Viagem ao Araguaia, pag. 6.
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 451
tais "que nesse anticatólico giro se empregava, re- fluiu às nossas principais praças comerciais em busca de novo emprêgo"^l Surgiram então iniciativas e empresas comerciais, financeiras e industriais de tôda espécie. Inclusive, em São Paulo, a primeira estra- da de ferro. Articulavam-se dessa forma elementos que iriam conferir á província uma feição diferente e uma posição de relevo económico e politico muito maior dentro do país.
Mas a repercussão profunda de todas essas ocor- rências não se faria sentir de forma visível sôbre a cidade de São Paulo até aproximadamente 1870. Viajantes estrangeiros e brasileiros de outras pro- víncias que nesse tempo estiveram em São Paulo embora notassem alguns dêles sinais de vitalidade comercial bem mais acentuados do que aqueles que poderiam ser observados na primeira metade do sé- culo, apenas podiam adivinhar o crescimento e a ex- pansão do burgo paulistano, que se delinearia no último quartel do oitocentismo. Tschudi, em 1860, escrevia que os recursos da cidade eram então ainda muito limitados em vista de sua indústria pouco importante e de seu comércio insignificante^ ^ O americano Codman achava, cinco anos depois, que mes- mo a sua relativa animação comercial seria possivel- mente perdida logo que a estrada de ferro alcançasse o distrito de Campinas^". Apenas o inglês Hadfield — em 1868 e em 1870 — viu com olhos mais otimistas a cidade nessa época, sob o ponto de vista de sua signi-
Sebastião Ferreira Soares, Esboço ou Primeiros Traços da Crise Comercial da Cidade do Rio de Janeiro em 10 de Se- tembro de 1864, pag. 33.
Citado por Afonso de E. Taunay, Amador Bueno e outros ensaios, pag. 130.
John Codman, Ten Aíonths in Brasil, pag. 70.
452
E R N A N r SILVA BRUNO
ficação económica. Falou do ruído das rodas dos vagões e dos guizos das mulas pelas ruas como sím- bolos do seu caráter comerciaP\ Mas era um pro gresso que mais se adivinhava ainda do que se via. ''Não pode haver dúvida — escreveu êle — de que São Paulo está destinado a ir para a frente cortio capital da província e pivô central das comunicações ferroviárias""^ Ferreira de Resende, um, observador que conheceu a cidade melhor do que Fladfield — pois contava com a perspectiva histórica: vivera em São Paulo até 1853 e reviu a cidade em 1868 — ob- servou: "...conquanto já então [em 1868] se come- çasse a dizer que São Paulo estava prosperando muito, eu fui achar a cidade tal qual eu a havia deixado, nada tendo ido ali encontrar de novo senão a estrada -de ferro, que não havia muito se tinha construído"^^. Confirmou essa última observação de Resende outro conhecedor da cidade na época, o cronista Almeida Nogueira, escrevendo que aproximadamente até 1870 a capital da província de São Paulo permaneceu es- tacionária, não se vendo crescerem de modo perceptí- -vel a sua população, a sua riqueza, nem tampouco os melhoramentos materiais de que tanto carecia^*. "A
21 William Hadfield, Bra:;il and thc Rivcr Plate in 1868, pag. 80.
-2 William Hadfield, Brazil ànd thc River Plate, pag. 169. Ferreira de Resende, Minhas Recordações, pag. 445. Almeida Nogueira, op. cit., V, pags. 16-17. "No decé- nio de 1860-1870 — escreveu êsse cronista — assinalavam-se pela ausência entre nós quase todos os melhoramentos mate- riais que a civilização moderna tem tornado indispensáveis nos grandes centros urbanos. Não tínhamos iluminação suficiente, sistema de canalização de águas, serviço de esgotos, calça- mento regular, carros de praça, nem tampouco o vapor, o gás, o gêlo, etc. Não se encontravam na cidade restaurantes, cafés, ■confeitarias, casas de banhos, bancos, etc".
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 455
capital é paupérrima — dizia um relatório do governo provincial em 1872 — de melhoramentos materiais e muito mais de melhoramentos condignos de sua categoria e importância. Falta à cidade regular abas- tecimento de água potável. Nem ao menos se têm melhorado os terrenos adjacentes ao povoado, onde as águas estagnadas infetam a atmosfera e prejudi- cam a salubridade pública"^^ Deve-se assinalar mes- mo que até êsse tempo a cidade não se distanciou sob êsse aspecto, de forma decisiva, de outras localidades paulistas : Campinas e Santos eram ainda então cida- des da mesma categoria que a capital, sendo que a última delas sonhou até na época em se tornar a sede do governo provinciaP^. E no plano nacional — pelo menos do ponto de vista da população — a cidade ■de São Paulo estava ainda em situação inferior, não apenas ao Rio de Janeiro, Salvador e Recife, como também a Belém do Pará, Fortaleza, Niterói, Pôrto Alegre e Cuiabá^ ^.
É que São Paulo, no período de 1828 até aproxi- madamente os anos de 1870 ou 1872, foi sobretudo um burgo de estudantes. Êsse foi o seu caráter mais acentuado, a condição de que derivaram os as- pectos mais característicos e mais destacados de sua existência nessà fase de sua história. Foi a Aca- demia de Direito que principalmente arrancou a ca- pital da província do seu sono colonial e foi a presença <los estudantes — observou Morse — que criou condi- ções para que se inserissem em sua existência, alte-
2^ Relatório do presidente da província Jose Fernandes ■da Costa Pereira Júnior em 1872, pag. 44.
Aureliano Leite, História da Civilização Paulista, pag. 110.
Aureliano Leite, Pequena História da Casa V erde,
pag. 83.
456
ERNÂNI SILVA BRUNO
rando-lhe a estrutura e os costumes tradicionais, os hotéis, as casas de diversão, o teatro e as atividades intelectuais. A vida nas repúblicas — escreveu êsse pesquisador — provocou um rompimento abrupto do austero código do sobrado e da família. "Os estu- dantes introduziram novas modas no vestuário. As caçadas, a natação, o flerte, as bebidas, as orgias, e o hábito de se reunirem para discussão e diverti- mento levaram a vida para as ruas, ao ar livre, criaram a necessidade de tavernas e livrarias, e inau- guraram o sentimento da comunidade. E com esses, como com todos os estudantes, surgiu uma impetuosa e penetrante rajada de ceticismo: tradições, costumes, tabus, foram agudamente analisados pelos olhos da mocidade"^^. "Teve tradições essa Paulicéia — es- creveu já neste século um visitante — onde se for- maram vates e brilharam mancebos estudiosos. Tra- dições idênticas às de tôdas as cidades de estudantes, histórias, partidas, casos . . . Por outro lado foi a Academia de Direito um fator de prosperidade geral para a cidade e mesmo para a província. O viajante Tschudi achou um absurdo que se pensasse em 1860 em transferir de São Paulo o seu Curso Jurídico, tamanhas haviam de ser para a povoação as conse- quências desastrosas dessa medida^". E a própria Câmara Municipal reconhecia a situação, pois em 1861, constando que a Academia seria transferida para a Corte ou para Petrópolis, cogitou de pedir a conservação da Faculdade em São Paulo "embora
Richard N. Morse, op. cit., pag. 462. '2' Manuel de Sousa Pinto, Terra Moça — Impressões Brasileiras, pags. 340-341.
■"^ Citado por Afonso de E. Taunay, Amador Bueno e outros ensaios, \rdg. 130.
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 459
■criassem outra em Petrópolis ou na Côrte", "contanto que para o aumento da Côrte ou de Petrópolis não se aniquilasse uma província . . .
Vários depoimentos da época revelam o caráter de burgo de estudantes que foi o de São Paulo apro- ximadamente de 1828 a 1870-72. Quando os estu- dantes da Faculdade de Direito saiam para férias
— observava tm 1860 Zaluar — inter rompia-se a vida por assim dizer fictícia da cidade, e ela recaía "no seu estado habitual de sonolência""^. Conhecendo a cidade em 1865, na época das férias escolares, o americano Codman observou que ela estava triste porque muitos académicos tinham-se ausentado para suas localidades ou províncias^^. É claro que muitas casas ficavam mesmo fechadas durante êsse período de férias^*. O tom de animação quem dava à "velha cidade", segundo Hadfield, era a presença de perto de mil estudantes^^ É que a Faculdade de Direito
— na observação de Teodoro Sampaio — era a nota dominante na modesta sociedade da capital da pro- víncia"^ Os moços estudantes — escreveu outro cro- nista — monopolizavam os carinhos da cidade. "Coimbra do Brasil, as tradições lusas refloriam
31 Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XLVII, pags. 55-56.
Emílio Zaluar, Peregrinação pela Proznncia de São Paulo, pags. 136-137.
John Codman, op. cit., pags. 70-71. 3"* Atas da Cântara Municipal de São Paulo, LVIII, pag.
49.
35 William Hadfield, Bra.^il and tlie River Plate in 1868, pag. 80.
Teodoro Sampaio, "Discurso no Aniversário do Insti- tuto Histórico em 1901", Rev. do Inst. Hist. e Geog. de São Paulo, VI, pag. 572.
3 — 2." Tradições
i
460
ERNÂNI SILVA BRUNO
aqui, na feia catadura dos mestres e na irrefreada desenvoltura dos escolares"". Moreira Pinto evocan- do em 1900 a povoação que conhecera em tôrno de 1870 notou: "São Paulo era uma cidade onde domi- nava soberana e despoticamente o estudante, e só êle"^^ Mais claro e mais positivo ainda foi nesse sentido o depoimento de Zaluar, que em 1860 escrevia na sua Peregrinação pela Província de São Paulo: "Os habitantes da cidade e os cursistas da Academia são dois corpos que não se combinam senão produ- zindo um precipitado monstruoso. No entanto, ape- sar de tôda a diversidade de pensamentos, de hábitos, de costumes, que caracteriza os dois ramos da popu- lação da cidade, é esta vima das condições inf aliveis de sua prosperidade. Tirem a Academia, de São Paulo, e esse grande centro morrerá inanido. Sem lavoura e sem indústrias em grande escala, a capital da província, deixando de ser o que é, deixará de existir"^^
Um burgo que em função da presença dos estu- dantes se enriqueceu de casas em que êles estabele- ceram as suas repúblicas, em largos, em ruas e até
Spencer Vampré, Memórias para a História da Aca- demia de São Paulo, I, pag. 429.
Alfredo Moreira Pinto, A Cidade de São Paulo em mo, pags. 7, 8 e 9.
•'^ Emílio Zaluar, op. cit., pag. 142. "A antiga cidade dos Jesuítas — escreveu ainda o autor da Peregrinação — deve ser considerada debaixo de dois pontos de vista diversos. A capital da província e a Faculdade de Direito, o burguês e o estudante, a sombra e a luz, o estacionarismo e a ação, a desconfiança de uns e a expansão muitas vêzes libertina de outros, e, para concluir, uma certa monotonia da rotina perso- nificada na população permanente e as audaciosas tentativas de progresso encarnadas na população transitória e flutuante". (Zaluar, op. cit., pag. 137).
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 461
em caminhos que animaram com os seus passeios e as suas troças, desenvolvendo novas representações da existência coletiva no velho cenário que as pedras tortas do calçamento, as taipas rudes e as misteriosas rótulas compunham. Burgo que por causa dêles am- pliou o seu comércio e passou a contar com hotéis, cafés, confeitarias e uma porção de divertimentos até então desconhecidos. E que se enobrece com o refle- xo das atividades artísticas e intelectuais condiciona- das pela escola estabelecida no velho convento francis- cano.
I — os SOBRADOS E OS BALCÕES
r e s s urgimento económico da ca-
pitania de São Pau- lo a partir de fins
Hifi. do setecentismo e o es -
tabelecimento de itm Curso Jurídico na ca- pital da província err;
1828 condicionaram
até certo ponto uma
fase nova na história da casa paulistana. Embora per- sistisse como sistema de construção dominante e mes- mo quase exclusivo o da taipa de pilão, tanto para os sobrados mais fidalgos da zona central como para as casas mais modestas, tanto para as sedes de chácaras como para os edifícios religiosos — não se alterando em essência o tipo rotineiro das edificações coloniais — as novas condições de existência urbana deram mar- gem a um senso mais desenvolvido do duradouro, do confortável e às vêzes do requintado, que imprimiu alguns traços novos à habitação piratiningana. Mas de modo geral alguns elementos tradicionais — como o colorido das fachadas e o uso das rótulas nas janelas
466
E R X A N r SILVA BRUNO
— resistiram durante muito mais tempo que em cidades brasileiras mais desenvolvidas e abertas, na época, ao contacto com o resto do mundo. O próprio arranjo e a própria arrumação dos interiores se mostraram ainda nesta fase mais modestos que os de outras cidades brasileiras. O que era compensado talvez pela beleza dos jardins particulares, sobretudo nas grandes chácaras das imediações.
Deve-se observar que houve, a partir de 1828, aumentos contínuos na população da cidade, além do seu crescimento normal. Não apenas determina- dos êsses aumentos pela afluência de estudantes de fora e de escravos de família que muitas vezes acom- panhavam êsses moços durante o seu Curso de Direi- to, como também pela fixação cada vez mais fre- quente — e registrada em 1839 pelo reverendo Kidder ^ de fazendeiros na capital da província, pois de São Paulo podiam orientar melhor os seus negócios e controlar a passagem do seu açúcar, serra-abaixo, a caminho do mercado^. Êsse crescimento bem dizer anormal da população é claro que exigiu não só re- formas a adaptações em muitas moradias como a construção de edifícios novos em proporção até então desconhecida. Muitas casas antigas passaram a ser ocupadas também por repúblicas de estudantes, ao mesmo tempo que algumas chácaras dos arredores serviram de residências para outros novos moradores da cidade: professores da Academia ou fazendeiros. Entretanto alguns fazendeiros abastados passaram a habitar, como as famílias paulistanas de mais recur- sos, os pavimentos superiores dos sobradÕes que se ostentavam nas ruas principais de São Paulo. Na maioria dos edifícios de dois pavimentos — à seme-
^ I). P. Kidder, Rci)ii)iiscc)icias dc J^iageiís c Pcnnanência no Brasil, T, pag. 191.
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 469
lhança aliás do que ocorria nas outras cidades do Brasil e em grande parte das hispano-americanas - - só o de cima era utilizado para moradia, servindo o térreo para loja ou mesmo para estábulo ou cocheira. No andar de cima viam-se as sacadas de rótula, e esses — segundo observação de Kidder — eram os lugares i)referidos por homens e mulheres para espia- rem a rua ou assistirem à passagem das procissões^. Êsses sobrados no entanto — como escreveu Vieira Bueno evocando o 1830 pauHstano — se concentra- vam quase todos em algumas ruas centrais. Em sua grande maioria as casas da cidade eram térreas, destituídas de elegância, "sem arquitetura" e mesmo feias — na opinião dêsse cronista — por causa dos beirais projetados sôbre a rua^.
Ao sistema da taipa de pilão e a essa cobertura das casas com telhados amplos referiu-se também o viajante Kidder. Conquanto fôsse razoável essa pre- caução — escreveu êle — sabia-se de muros de taipa que permaneceram intactos durante mais de um século sem qualquer espécie de cobertura*. A côr da pin- tura das fachadas, notou o pastor americano que variava entre o branco, o amarelo-palha e o rosa- pálido, contrastando de forma agradável com o ver- melho dos telhados^ De acordo com as notas de outro viajante estrangeiro alguns anos depois — Greene Arnold, no ano de 1847 — ■ eram pintadas de branco ou de amarelo as edificações pauhstanas. As casas de dois pavimentos, do centro, exibiam em geral ge-
2 D. P. Kidder, op. cit., I, pag. 189.
^ Francisco de Assis Vieira Bueno, "A Cidade de São Paulo", Rev. do Centro de Ciências, Letras e Artes, Campinas, Ano II, n.os 1, 2 e 3.
4 D. P. Kidder, op. cit., I, pag. 189.
5 D. P. Kidder, op. cit., I, pag. 189.
470 E R X A NI S I L \- A BRUNO
losias ou postigos pintados de verde^. Até certo ponto êsse colorido das fachadas talvez representasse no tempo algo de caracteristicamente regional, em face de outra observação de Kidder, que percorrera quase tôdas as províncias brasileiras : a de que as casas caiadas de branco davam um tom uniforme às cidades do país^. Foi do pastor americano também a obser- vação de que quase tôdas as casas paulistanas eram edificadas de forma a deixar uma área interna que servia para arejar os dormitórios, sistema c[ue èle achou indispensável em São Paulo sobretudo tenclo em vista o costume generalizado de se manterem fechadas, com folhas pesadas, as janelas que davam para a rua^ Em construções de mais recursos, às vêzes pátios espaçosos. Ian de Almeida Prado lem- brou, em trabalho sôbre a arquitetura paulistana, que o palacete do brigadeiro Rafael Tobias, na rua que teve depois o seu nome, possuía nos fundos um pátio interessante: todo rodeado de varandas, com escadas comunicando com todos os andares. Um ar de habi- tação espanhola^.
Entretanto embora a taipa fôsse de modo geral um material duradouro — como reconheceu Kidder — em certas circunstâncias parece que êle não resistia bem à ação das águas. Depois da enchente grande qne houve na cidade em 1850 um certo G. Wyzevvski dirigiu ao poder municipal um ofício sugerindo o modo por que deviam ser edificadas as casas de maneira a se vencer, "todo e qualquer contraste das águas pUi-
^ Samuel Greene Arnold. Viaje por America dei Siir (1847-1848), pag. 104.
' D. P. Kidder, op. cit., II, pag. 126.
« D. P. Kidder, op. cit., I, pag. 189.
=^ Ian de Almeida Prado, "São Paulo Antigo e sua Artjui- ietura", Ilustração Brasileira, setembro de 1929.
J
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 473
viais". Êsse ofício dizia que na execução da taipa se tivesse mais cuidado ; que seu uso f òsse reservado apenas para os muros dos cercados; e que se fosse empregado em casas, estas deveriam ter alicerces de alvenaria com tijolos ou pedras que chegassem "até o terreno vivo, e feitos conforme os preceitos da arte"; finalmente, que se a casa fôsse de sobrado, o pavi- mento térreo se construísse de tijolos ou de pedra e ca.V\ Essa sugestão, que visava a transformação dos métodos de construção e dos materiais usados tradi- cionalmente na cidade, partia provavelmente de um estrangeiro. Aliás entre os nove pedreiros e mestres de obra mencionados pelo Almanaque Administrativo, Mercantil e Industri:d da Provinda dc São Paulo para o ano de 1857, quatro tinham sobrenomes es- trangeiros : Carlos Zapp, Cristiano Frank, Cristiano Seechrist e João Beck^^. Mesmo no entanto supondo- se que alguns desses mestres de obra quisessem rom per com as práticas rotineiras — aceitando os conse- lhos do tal Wyzewski — encontrariam resistências difíceis de vencer. Em 1857 havia na cidade nove pequenas fábricas de telhas e de tijolos^^ Mas não se fazia uso de tijolos senão para ladrilhar, e a pri- meira grande fábrica só se inaugurou parece que no
Citado por Nuto Santana, São Paulo Histórico, 1, pags. 167 e seguintes.
Almanaque Administrativo Mercantil e Industrial da Província de São Paido para o ano de 1857, pag. 152. Tudo leva a crer que o G. Wyzewski do documento citado seja o enge- nheiro polaco Cristino Wyzenski, que o presidente da província em 1848 dizia em seu relatório ter chegado há pouco tempo à cidade e de que tinha boas informações, relativas aos seus co- nhecimentos profissionais e à sua prática de mais de doze anos em trabalhos de pontes e estradas na França. (Anais da Assembleia Legislativa Provincial de S. Paulo, 1848-1849, pag.. 130).
^2 Abncfnaque citado, pags. 149-151.
474
ERNÂNI SILVA BRUNO
mio de 1859, no Bom Retiro^^ Ainda para construção do grande edifício do Seminário Episcopal (de 1855 a 18()0)," como não houvesse indústria de tijolos que pudesse fazer o fornecimento necessário, as paredes foram levantadas pelo sistema da taipa^^ Pelos mes- mos motivos eram ainda nesse tempo feitas de taipa certas casas solarengas da cidade, de dimensões in- comuns e ostentando requintes de ornamentação. Como a das irmãs Rendon, na travessa do Colégio (rua An- chieta), com suas sacadas de ferro forjado e seus bei- rais com telhas vidradas de calha como ornamento^^. Outras já exibindo como apêndice as enormes gerin-
Ezéchias Galvão da Fontoura, Vida do Exmo. e Revmo. Sr. D. Antônio J. de Melo, Bispo de São Paulo, pag. 87.
^"^ Azevedo Marques, Apontamentos Históricos, Geográfi- cos, Biográficos, Estatísticos e Noticiosos da Província de São Paulo, II, pag. 166.
Ezéchias Galvão da Fontoura, "História do Seminário" (áll)um do 1.° qtiinquagenário do Seminário Episcopal de São Paulo), pag. 128. No Rio de Janeiro sabe-^se que desde o começo do século fundaram-se várias fábricas de tijolos, em consequência sobretudo da presença da Côrte portuguesa, pas- sando a ter mercado garantido a produção dessas indústrias. (J. B. Debret, Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, I, pag. 257). Em meados do século, na cidade paulista de Piracicaba, a construção de uma casa tôda de tijolos ainda produziu sen- sação. "Ajuntava-se gente — contou Almeida Nogueira — para observar como se levantavam paredes sem esteios ou pilares, nem mesmo nos ângulos. E, sôbre se tais paredes cairiam ou não, faziam-'se apostas." Tantas foram as críticas, acrescentou êsse cronista, que o dono da casa perdeu a paciência e acabou mandando afixar sôbre os andaimes um letreiro com êstes dize- res: "O dono desta obra não tem íjue dar satisfações a nin- guém". (A. Nogueira, A Academia de São Paulo, VII, pags. 35-36.)
.Aureliano Leite, Pequena História da Casa Verde,
pag. 23.
i — 2." Tradições
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 477
g-onças de ferro para colocação dos primeiros lampiões de rua. E todas elas, com seus beirais e suas goteiras pendentes, dando ao conjunto — no depoimento do reverendo Fletcher em 1855 — "um pitoresco suíço"". Êsse "pitoresco suíço" todavia se ostentava com pre- juízo da boa conservação das paredes e do bem-estar dos transeuntes que passassem por perto das casas em dias de chuva. A ponto de se ter proposto na Câ- mara alguns anos depois — em 1859 — a obrigação, para os proprietários, de colocarem canos de folha nas beiradas de suas casas, descendo até ao nível das cal- çadas^^.
O interior dessas casas paulistanas, até meados d'.) oitocentismo, era de modo geral ainda bastante mo- desto e desprovido de requintes. A mobília da sala de visitas — escreveu Kidder — variava de confor- midade com o maior ou menor luxo da casa, mas o que se encontrava em tôdas elas era um sofá com assento de palhinha e três ou quatro cadeiras dis- postas em alas rigorosamente paralelas, que partindo de cada extremidade da primeira peça se projetavam em direção ao meio do aposento. Quando havia visitas, as senhoras se sentavam no sofá e os homens nas cadeiras^ ^ "O gôsto do luxo europeu — escre- vera D''Orbigny alguns anos antes — não chegou ainda a São Paulo como se encontra nas ricas cidades do litoral. Ali se prefere a propriedade à elegância, o confortável antigo às formas cambiantes da moda"^^',
D. P. Kidder e J. C. Fletcher, O Brasil e os Brasileiros, II, pag. 72.
Atas da Câmara Miíiiicipal de São Paulo, LV, pag. 54.
D. P. Kidder, Reminiscências d'c Jlagciis c Permanên- cia no Brasil, I, pags. 189-191.
2" Alcide d'Oribigny, Voyacje dans les dctix Amériqiies. pag. 179.
478
ERNÂNI SILVA B R T; N O
Muito menos êsse luxo poderia ter chegado à maioria das casas de estudantes, para as quais vendiam mas principalmente alugavam móveis dois sujeitos muito populares na cidade : Nhô Quito e Martiniano Rubim César^\ Muitas das repúblicas de académicos aliás faziam economia até de cadeiras. Pois não devia ser a única de seu tipo a casinha alugada em 1863 a um estudante, no largo de São Bento, que tinha em cada lado da janela, no interior da sala, amplo assento feito na própria taipa da parede^^.
Feitas de taipa eram também as sedes de chácaras antigas existentes nos bairros ou nas imediações da cidade, algumas se destacando pelas suas dimensões, outras por certos traços de requinte mais acentuados talvez em geral do que aquêles que se exibiam nos sobradões da área central. A sede da chácara de Rendon, na Vila Buarque, tinha doze janelas de fren- te. As chácaras da Moóca se requintavam particu- larmente por seus muros, com leões de louça por cima. e seus portões de ferro batido, todos cheios de ara- bescos caprichosos — obras-primas quase sempre do serralheiro Carlos Plaster^^. Por êsse Carlos Plaster parece ter sido feito entre outros o portão da casa do Marquês de Três Rios, na rua do Carmo esquina de Santa Teresa, onde morou o fidalgo Dom Tomás de Molina. Portão de ferro imponente e gradil bem trabalhado teve também a chácara da Figueira^*.
2' Rodrigo Otávio, Minhas Memórias dos Outros, 1.^ sé- rie, pags. 105-106.
22 Almeida Nogueira, A Academia de São Paulo, VIII, pag. 231.
2^ Afonso A. de Freitas, Tradições e Reminiscências Paulistanas, pag. 16, e Afonso Schmidt, "Carlos Plaster", Jornal de São Paulo.
2'» Everardo Valim Pereira de Sousa, "A Paulicéia há sessenta anos", Rev. do Arquivo Municipal, CXI, pag. 55.
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 479
Nas chácaras ou casas de campo maiores e mais afas- tadas do centro havia às vezes belos jardins, como aquêle de Baumann, descrito no começo do século por Saint-Hilaire. Ou como aquêle a que se referiu Bernardo Guimarães em uma de suas novelas foca- Hzando São Paulo em 1845: "O jardim era notável, não só pela profusão e imensa variedade de flores raras e formosas que o cobriam, como principalmente pela aprazível posição em que se achava colocado^ como um belvedere. Consistia em uma área quadra- da de cerca de dez metros de face, dividida em can- teiros dispostos com arte e agradável simetria.' Dois bonitos caramanchões, cobertos de trepadeiras, orna- vam-lhe os ângulos, como dois torreões de verdura e flôres"^^ Para muitas famílias abastadas de fazen- deiros, então fixadas na cidade, essas chácaras e casas de campo representavam um fenómeno de meia urbanização. O paulista da roça — que desde os tempos coloniais quando tinha casa na cidade era só para passar domingos ou dias de festa — urbanizava- se, mudando-se para a capital da província. Mas em certos casos conservava o seu resto de homem rural, morando em chácaras, onde havia árvores e passa- rinhos, e as casas se esparramavam à vontade como no sítio. Isso -porém ao lado de outra tendência: a de fazendeiros ricos que se urbanizando montavam casas mais requintadamente urbanas que as dos an- tigos moradores da cidade.
De taipa eram também, em meados do século dezenove, os edifícios religiosos, e por isso com fre- quência continuavam reclamando consertos ou refor- mas, como nos primeiros séculos. Em 1830 conserta- va-se a tórre da igreja da Misericórdia, atingida por um raio, e um leitor escrevia ao jornal O Farol Paulis-
25 Bernardo Guimarães, Rosaura, a Enjeitada, pag. 18.
480
E R X A X I SILVA BRUXO
iano sugerindo que o templo fòsse municio de um "condutor elétrico"-^ De 1839 a 1849 passou essa igreja por novos consertos, e em 1869-1871 ainda por outros, reconstruindo-se a sua tôrre^^. De 1844 data o curioso enxerto arquitetônico feito na igreja do convento da Luz, querendo-se que êle ficasse com a frente para a avenida Tiradentes^^. De 1845 a 1850 fi- zeram-se reparos na igreja da Sé Catedral'^. Outros templos nessa época também já revelavam sinais de ruí- nas : o de São Bento, o de São Gonçalo e até o da Boa Morte, então relativamente novo^**. Em 1868, enu- merando as igrejas e capelas da cidade, Joaquim Ferreira Moutinho — o autor do Itinerário de Via- gem de Cuiabá a São Paulo — falava que além das dos conventos de São Bento, do Carmo, de São Fran- cisco, da Luz e do recolhimento de Santa Teresa, havia as da Sé, de São Pedro, do Colégio, Terceira do Carmo, Boa Morte, dos Remédios, de São Gon- çalo, Terceira de São Francisco, Santo Antônio, da Misericórdia, do Rosário, de Santa Ifigênia e da Consolação, afora outras que se levantavam nos ar- rabaldes^^. Quase todas, filiais da freguesia da Sé : a do convento do Carmo e a da Ordem Terceira do Carmo, a do convento de São Francisco e a da Ordem Terceira de São Francisco, a do convento de
O Farol Paulistano, n.° 412, de 6 de novembro de 1830. 2^ Francisco Martins de Almeida, 1.° Relatório sobre a Santa Casa de Misericórdia da Cidade de São Paulo, págs. 19 a 21.
2^ Nuto Santana, op. cit., III, pag. 259. 2^ Almanaque cit., pag. 193.
Antônio Egídio Martins, São Paulo Antigo, I, pag. 115 e II, pags. 39-46.
Joa(|UÍm Ferreira IMoutinho, Itinerário de Tlar/eni de Cuifíbá a São Paulo, pag. 81.
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 485^
São Bento, a do recolhimento de Santa Teresa, a do Bom Jesus do Colégio, a de São Pedro, a da Miseri- córdia, a de Santo Antônio, a de São Gonçalo, a de Nossa Senhora dos Remédios, a de Nossa Senhora do Rosário, a de Nossa Senhora da Boa Morte, a capela do Cemitério e ainda a de Nossa Senhora da Glória, esta última já em ruínas. Filiais da fregue- sia de Santa Ifigênia, apenas a de Nossa Senhora da Consolação e o recolhimento de Nossa Senhora da Luz da Divina Providência. Da freguesia do Brás, só a capela do Belém^^ Como eram muitas, as do centro se acotovelavam em uma área pequena. Suas torres e cúpulas se destacavam e davam à cidade em 1847, segundo o viajante Greene Arnold, formo- sa perspectiva^^. E ao conjunto urbano, já em 1855,. aspecto mais imponente que o de localidades de po- pulação muito maior.
Mas essa impressão, segundo o reverendo Fletcher, era dada especialmente pelos seus edifícios conven- tuais^*, que nesse período passaram também por mui- tas reformas e adaptações. O de São Bento foi am- pliado e todo reconstruído em 1860^^, uma parte do edifício tendo sido ornamentada — segundo Hadfield — com gosto notável^^. Talvez tivesse perdido então o aspecto sombrio e algo ruinoso que ostentava, so- bretudo na tôrre de sua igreja, em 1847, quando foi examinado, por determinação da Câmara, pelo enge- nheiro militar José Jacques da Costa Ouriques. Ou-
Almanaque cit., pags. 114-115.
Samuel Greene Arnold, op. cit., pag. 103. •'4 D. P. Kidder e J. C. Fletcher, op. cit., II, pag. 67. " Gastão Moreira, "A Abadia de São Bento em São- Paiilo", Ilustração Brasileira de novembro de 1922.
William Hadfield, Brasil and tJie Rivcr Plate in 1868^
pag. 68.
484
F. R N A N I
SILVA BRUNO
riuiies aciiou que o edifício não ameaçava ruína, escrevendo no entanto: "A tòrre é exteriormente sombria, sem elegância, é um pensamento pesado; ao vê-la senti também como que uma proximidade de desmoronamento; mas a análise prova o contrário"^^ O antigo convento dos Jesuítas continuou sofrendo reformas para se ada])tar à necessidade de instalação de muitas repartições do govêrno, entre as quais a Assem- bléia Provincial, o Tesouro e o Correio Geral. No andar térreo da parte ocupada pela Assembléia — escreveu Antônio Egídio Martins — existia um salão ou portaria em que aquartelava a guarda da pessoa do presidente. Ao lado direito dêsse salão uma es- cada velha dava acesso ao recinto, à secretaria e às galerias da Assembléia, e também à tòrre e ao côro da igreja do Colégio. As galerias — contou ainda o cronista — eram durante o dia muito escuras e de noite, quando havia sessão, os seus frequentadores sofriam com a falta de luz na escada e nos corredores^^. Também o convento dos Franciscanos, depois da pri- meira adaptação para que nêle se instalasse a Acade- mia, passou por outras modificações. Para o aumen- to das salas de aula a para a instalação da secretaria, da biblioteca e de outras dependências. As principais dessas reformas foram a destruição das celas exis- tentes no pavimento superior e a abertura do largo de São Francisco, primitivamente quintal do con- vento'"*^. Mas a frente do edifício "permaneceu por dezenas de anos com a sua humilde e feia aparência an- tiga — notou Vieira Bueno — com seu telhado de beirada larga, com suas pequenas janelas" e tendo por
■^■^ Citado por Nuto Santana, op.. cit., II, pags. 148-150. •'^ Antônio Egídio Martins, op. cit., I, pag. 46 e II, pag.s. 22-23.
y\lnieida Nogueira, op. cit., \', pags. 17-18.
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 487
línica entrada a antiga portaria do convento, no ves- tíbulo da igreja*". A função primitiva do edifício (habitação coletiva destinada à vida monástica) mos- trou Ricardo Severo que lhe dera essa feição caracte- rística: longa fachada de dois pisos, com filas de janelas repartidas de conformidade com as celas inter- nas, ao lado da capela com sua tôrre: "como elementos ■decorativos apenas, aparentes, os quadros construti- vos das janelas, de madeira Hsa com o lintel arqueado, coberto por diminuta arquivolta e como coroamento -dêste homogéneo frontispício horizontal uma cimalha corrida formando com o largo beiral saliente o enta- blamento terminal do desataviado edifício"*^. O arco do seu portal era no entanto lavrado em belo mármore itahano, "coisa infehzmente difícil de se perceBer — escreveu Tschudi em 1860 — por causa ■da camada de óleo de còr amarela suja de que vivia recoberto"*^. E ainda o convento dos Carmelitas passou por novas reformas em meados do século dezenove, época em que se colocaram as sacadas de ferro nas suas janelas de frente. Essa foi uma rea- lização de frei Antônio Inácio do Coração de Jesus e Melo, quando prior*^ O mesmo que acabou tragi- camente: estrangulado por dois escravos em 1859**. Mas apesar de todas essas reformas — ou talvez mesmo em consequência delas — eram êsses conventos,
Francisco de Assis Vieira Bueno, loc. cit. 41 Ricardo Severo, "A Casa da Faculdade de Direito de São Paulo (1643-1937)", Rev. da Faculdade de Direito, vol. XXXIV, fascículo I, pag. 11.
Citado por Afonso de E. Taunay, Amador Bueno e outros ensaios, pag. 131.
■♦^ Antônio Egídio Martins, op. cit., I, pag. 80. Antônio Egídio Martins, op. cit., I, pag. 80.
48S
E R X A N I S I I, V A B R U X O
no depoimento de Tschudi, construídos com admirável irregularidade, não tendo nem sequer as janelas de uma mesma fila a mesma altura. Edifícios em forma de quartel — escreveu êsse visitante da cidade — e sem o menor bom gôsto^\
As casas de dois e principalmente as de mais de dois pavimentos — apesar de haver então na cidade velhos sobrados que no silêncio da noite, como notou um obserxador em 1862. se revestiam de um manto lúgubre e misterioso^" — parecem ter tomado im- pulso mais notável a partir de meados do século, e já em 1849 a Câmara confecciona^'a uma postura a fim de que os prédios a ser construídos de então em diante tives.sem um padrão (jue regulasse suas alturas para que conservassem ''a beleza da igualdade"^". Tal- vez quisessem os oficiais da Câmara acabar com aquele aspecto evocado por Dona Maria Pais de Barros : o de um vasto casarão, no centro da cidade, em muitas ruas, como "conta disjuntiva" naquele "sombrio ro- sário" dé casas baixas e pequenas'*'^. Sabe-se que nessa época havia em certos trechos centrais casas tão pequenas e insignificantes — sobretudo no local onde se abriu o largo do Rosário — ■ que por cima delas, de rua para rua. se avistavam as imagens conduzidas eni charola ])or ocasião da procissão de Cinzas^®. Episíxlio no entanto significativo do prestígio dos grandes sobrados nessa época foi contado por Antônio Egídio Martins. Um comerciante — Domingos de Paiva Azevedo — a i)ro])ósito da construção de um
Citado por Afonso de E. Taunay, op. cit., pag. 132. ■"' Teodotniro Alves I'ereira, Vida Acadcuiica. II, pag. 35. ■^-^ Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XXXVII, pags. 131 e 181.
I\íaria l'ais de Barros, Xo Tempo de Dantes, pag. 12.
Antonio F.gidio Alartins, ojx cit., II, pag. 84.
i
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 491
isobrado de Antônio Cavalheiro e Silva, perguntou: "Está fazendo o seu sobradão? — Estou sim, isso é para quem tem ânimo. — Ah, é para quem tem ânimo? Pois vais ver um outro, de três andares" — teria respondido Paiva. O de três andares ficou acabado em 1854, na esquina da rua da Imperatriz (15 de Novembro) com a do Tesouro^^.
Os sobrados dêsse tempo em São Paulo — alguns ■com janelas adornadas de pequenos e bonitos balcões, revelando, disse Tschudi, arquitetura de bom gôsto^^ — podem ser apreciados através das estampas sugesti- vas de Militão e de outros fotógrafos primitivos da cidade, ostentando sempre seus amplos beirais e', apesar de suas particularidades, uma uniformidade impres- sionante. Foram descritos, com abundância de deta- lhes técnicos, por Wasth Rodrigues. Havia os que tinham sacadas de ferro abraçando tôdas as janelas, com esteios para as luminárias. Começando como simples ganchos nos batentes onde se penduravam lan- ternas com velas ou tigelas de azeite, mostrou êsse pesquisador e desenhista que os suportes tomaram grande desenvolvimento no oitocentismo, tornando-se um adorno requintado nas fachadas das casas urba- nas^^. Havia por outro lado os sobrados que pos- suíam seu último andar em forma de água-furtada. E os que tinham telhados com quatro águas e quatro águas-furtadas dispostas em forma de cruz. Ou então sobradinhos com as janelas de cima tocando no beiral. Tipo de janela comum em São Paulo — segundo Wasth — como também em Minas e no Rio, era com vidros em caixilho fixo na metade superior e duas
Antônio Egídio Martins, op. cit., II, pag. 24. , Citado por Afonso de E. Taunay, op. cit., pag. 133. José Wasth Rodrigues, Documentário Arquitetônico, II, ^comentário à estampa 25.
-5 — • 2." Tradições
492
ERNÂNI SILVA BRUNO
folhas de rótula em baixo. E também as ombreiras de madeira com vêrga arqueada e rematada de mol- dura. Um elemento por êle considerado característi- co da arquitetura paulistana foi o muxarabiê como proteção de rótula sobreposta e apoiada ao balcão também de rótula^^. Balcões à maneira espanhola, escreveu o viajante Houssay c[ue davam um toque de originalidade às casas paulistanas"^. Nas suas notas sobre moradores antig"os da cidade, Antônio Egídio Martins era difícil falar de uma casa que não fôsse "de janelas de rótula" ou "de sacadas de rótula"^^ — janelas que uma postura proibia, já em 1855, que se abrissem para fora"®. Tanto casas térreas como de sobrado. E que no entanto aparecem ainda com mui- ta frequência — às vezes escancaradas atrevidamente sôbre os passeios estreitos — nas velhas gravuras que restarám de algumas ruas paulistanas em 1860. Já em 1854, diante de um projeto para que se acabas- sem com as rótulas na cidade, e ante a defesa que muitos faziam delas, achando que eram muito cómo- das, o jornal O Constitucional escrevia: "Cómodas em que sentido? Para ocultar em-se as famílias, as vidraças cobertas com "esteiras da China", nas jane- las baixas, como se pratica em Santos e no Rio de Janeiro, produzem o mesmo efeito. E ocultarem-se de quê? Somos nós um povo de cucas? Demais vai aí grave questão de moralidade : é bom ref letir sôbre o estímulo de tudo que se esconde". "De resto —
Jo.-é Wasth Rodrigues, op. cit., I. ■'^ ^ Frédéric Houssay, Dc Rio dc Janeiro cf São Paulo, pag. 72.
Antônio Egídio Martins, op. cit., I, pags. 82, 93, 146, e II, pags. 41, 44, 65, 71. 72, 73, 74, 86. 90 e 162.
5^ Atas da Câmara Municipal dc São Paulo, XLI, pag.
85.
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 495
acrescentava o jornal — é fora de dúvida que muito melhora de aspecto a capital da província com a provi- dência projetada, e que os perigos das abalroadas nas janelas desaparecem, e quem sabe que influência exer- cerá nos nossos costumes?"" As rótulas eram nu- merosas em São Paulo todavia ainda em 1865, e êsse foi um dos motivos pelos quais a cidade nessa ocasião não agradou muito ao Visconde de Taunay. As ró- tulas iam-se fechando — escreveu êle — "sucessiva- mente, "com um bater tão característico, à medida que os transeuntes vinham se chegando para mais perto, e prestes se entreabriam depois da passagem^ esgui- chando-se atrás delas as cabeças da curiosidade e do mexerico .
Ainda nessa época, mesmo quando no pavimento térreo dêsses sobrados funcionavam casas de negócio, lojas de calçados, oficinas de ourives ou mesmo qui- tandas ou talhos de carne, no andar de cima instala- vam-se residências mais ou menos aristocráticas. Nas crónicas de Almeida Nogueira relativas ao pe- ríodo de 1869 a 1873 focalizam-se cenas em que apa- recem senhoras, na sacada de seus sobrados da rua da Imperatriz, em cujos peitoris, escreveu Cerqueira
5^ Citado por Antônio Egídio Martins, op. cit., II, pag.
123.
Visconde de Taunay, Memórias, pag. 149. No Rio as gelosias desapareceram alguns anos depois da chegada de Dom João VI (Luccock, Notas sobre o Rio de Janeiro e par- tes meridionais do Brasil, pag. 25) e em Recife na mesma época estavam sendo substituídas (Henry Koster, Viagens ao Nordeste do Brasil, pag. 257), mas ainda em meados do sécu- lo elas se conservavam em edifícios antigos do distrito reci- fense de São Pedro (D. P. Kidder e J. C. Fletcher, op. cit, II, pag. 252) e em Belém do Pará eram ainda mais comuns que as vidraças. (D. P. Kidder, Reminiscências de Viagens e Permanência no Brasil, II, pag. 168).
496
ERNÂNI SILVA BRUNO
]\íendes. dentro de caixotes en\'oltos em papel recor- tado, floriam malvas e cravinas^^. Ou visitas de es- tudantes da Academia a sobrados "onde eram recebi- dos com tôda a distinção"^**. Outros sobrados ou casas térreas de residência, nas proximidades do centro. conta\-am porém com maior espaço, ocupando por vezes áreas enormes, com cavalariças no quintal, poço. lavadouros e alojamentos para escravos, como a residência da família Brotero, edificada em 1840^^. Ou a da família Pais de Barros, em cujo pavimento térreo havia os cómodos reservados para os emprega- dos da casa^". Também dispunham de espaço maior e ostentavam arquitetura mais aristocrática que as residências antigas os palacetes que na segunda me- tade do século dezenove começaram a ser edificados por fazendeiros enriquecidos que se transferiam do interior para a capital da província, localizando-se em geral nas vizinhanças da Estação da Inglêsa. Foram erguidos ali — segundo Ian de Almeida Prado — além do palacete da família Pais de Barros, o do Barão de Piracicaba e o do Conde do Pinhal. Muitas dessas novas casas urbanas se inspiravam, segundo êsse pes- quisador, no classicismo italiano dos séculos dezesseis e dezessete. Contrastavam com as velhas casas aca- çapadas da tradição portuguesa as linhas severas e o aspecto monumental dessas residências do bairro da Luz. Algumas delas ostentando fachadas quase todas revestidas de azulejo. E colocadas quase sempre no fundo dê jardins, o que ressaltava a sua imponência de solares. Nas áreas mais modestas da cidade, deli-
Cerqueira Mendes, Figuras Antigas, pag. 17. Almeida Nogueira, op. cit., I, pag. 298. ^' Frederico de Barros Brotero, Traços Biográficos do Conselheiro Jose Maria de Avelar Brotero, i)ag. 4. *2 Maria Pais de Barros, op. cit., pag. 23.
J
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 499"
neava-se o chalèzinho ladeado de portão, com pilastras- encimadas por cães ou leões de faiança portuguesa. "Era quando se construía a São Paulo Railway", es- creveu Almeida Prado^^.
Também os jardins particulares ou os terraços ajardinados dentro da zona urbana parece que começa- ram então a firmar o seu prestígio — de que é um reflexo êste anúncio publicado em 1860 pelo Correia Paulistano: "Se algum senhor desta cidade quiser dar a fazer qualquer jardim ou recreio pitoresco feito no último gosto, assim como qualquer terraço- ajardi- nado com caramanchões tecidos de jasmins do Caba e também feito com letras com o nome do proprietário, os canteiros em volta de lírios do Japão do mais lindo gosto possível ..." podia escrever para o anunciante,, que se declarava conhecedor tão perfeito de sua arte de jardineiro a ponto "de fazer dar uma só roseira cinco diferentes qualidades de rosas, como Baronesa. Aurora, Eugênio Sue, Duque de Aumale e Príncipe Alberto"'\
Mas mesmo as residências de gente màis abas- tada eram de noite pouco iluminadas. Na corres- pondência de Álvares de Azevedo, de São Paulo para o Rio de Janeiro, entre os anos de 1844 e 1850, en- contram-se observações que revelam detalhes da po- breza da iluminação das casas paulistanas nesses meados do oitocentismo. Em uma de suas cartas a estudante pedia que lhe mandassem da Còrte vidros pequenos, que servissem no seu candeeiro; quatro anos depois fazia um pedido igual : o vidro de seu candeeiro tinha se quebrado, e êsse era um artigo que não se
Ian de Almeida Prado, op. cit.
Correio Paulistano de 25 de maio de 1860.
500
E R X A N I SILVA BRUNO
encontrava aqui, "nesta santa terrinha"^^. Era to- davia principalmente por meio de candeeiros de azeite que se iluminavam as casas. Mas também por meio de velas. Velas que as escravas punham nos quartos, na hora de arrumar as camas, ou que eram postas em altos castiçais de prata, iluminando a mesa em que to- mavam chá as famílias nas residências mais aristocrá- ticas^^. As velas de espermacete, em meados do sé- culo, já representavam um progresso, segundo o cro- nista Almeida Nogueira, sôbre as de cêra, as de sebo ou "as lúgubres candeias de azeite"^^.
Álvares de Azevedo, Obras Completas, II. pags. 451 e ■seguintes.
Maria Pais de Barros, op. cit., pag. 24. Almeida Nogueira, op. cit., II, pag. 115.
como em outras cida- des brasileiras segmi- do Gilberto Freyre, foi no século deze- nove que mais acen- tuadamente começa- ram a despontar si- nais do prestigio cres- cente da rua em face da antiga prepotência da casa particular — casa que nos primeiros séculos se instala- ra nas áreas urbanas com o mesmo à-vontade com que se esparramava na zona ruraP. Em São Paulo, sobre- tudo a partir de meados do oitocentismo. É verdade que desde um século antes tivera a povoação um armador, para evitar que continuassem sendo feitos os traçados extremamente irregulares dos primeiros tempos. E que desde os últimos anos do setecentismo pudera contar a cidade, em alguns de seus logradouros, com uma
1 Gilberto Freyre, Sobrados e Mucambos, 1.^ edição, pags. 17 e seguintes e 57 e seguintes.
504
ERNÂNI S I L V A BRUNO
rude pavimentação, e com covões para onde devia ser levado o lixo, antes atirado por todos os cantos. Também é certo que no começo do oitocentismo já se cogitava da nomenclatura oficial das vias públicas, e que São Paulo podia contar com a existência de um g-rande Jardim Público, embora afastado de sua área central. Foi no entanto a partir de meados do século dezenove que a rua e o largo paulistanos se beneficia- ram de uma porção de medidas mais amplas, do seu poder municipal, valorizando-se consideravelmente. Proibiu-se cjue as casas tivessem canos que despejas- sem sujeiras para as vias públicas, ou rótulas de portas e janelas que se abrissem para fora. Que houvesse moirÕes em certos largos ou ruas, onde se amarravam cavalos. Que certos artífices trabalhassem ao ar livre, atravancando os passeios. Determinou-se que os muros fossem caiados e tivessem cobertura de telhas. Criou-se um serviço de limpeza contando com carroças que recolhessem o lixo das casas pobres. Co- meçaram a ser tomadas medidas, na Câmara, para que tivessem melhor traçado e melhor nivelamento os pequenos larg'os que vinham dos tempos coloniais. Para que se macadamizassem algumas ruas centrais, substituindo-se a antiga pavimentação feita de grandes pedras irregulares. Para que se arborizassem alguns largos e algumas ruas. E para que se iluminassem algumas ruas, ainda que pobremente, por meio de lam- piões de azeite. Tudo isso contribuiu para que a rua paulistana — prestigiada também nessa época pela ]:)resença bastante viva dos estudantes de muitas partes do país — fôsse ganhando feição menos primitiva que aquela ([ue pudera exibir até o comêço do século dezenove.
Os depoimentos de alguns viajantes estrangeiros revelam o que eram as ruas paulistanas de 1828 até
PTISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 505
meados do século passado. Sobre a pavimentação delas na terceira década do oitocentismo, por exemplo, o reverendo Kidder entrou em detalhes, dizendo que era feita com mna rocha ferruginosa parecida com a pedra arenosa vermelha, porém com mais fragmentos de quartzo. Acrescentou o viajante americano que as ruas eram acanhadas e que deviam ter sido dese- nhadas sem obediência a qualquer plano geraP. Sabe-se que em 1829 os poderes municipais haviam procurado impedir que se contiíiuasse edificando, dentro dos limites do rocio, sem se formar um plano geral de alinhamento de ruas e de praças'^ Mas evi- dentemente Kidder se referia ao conjunto da ' velha cidade, que vinha dos tempos coloniais com tôdas as suas irregularidades. A respeito da largura das ruas paulistanas deve-se lembrar que Saint-Hilaire — que depois de Kidder publicou o seu estudo sobre a pro- víncia de São Paulo — escreveu: "Kidder afirma que as ruas são estreitas. Spix e Martins afirmam que as mesmas são muito largas. Eu creio que a verdade está entre essas duas afirmativas"^. Vagas referên- cias essas, que esclarecem muito pouco a questão, uma vez que não se sabe qual o tipo de cidade que êsses cronistas tomaram para base de suas comparações. Mais inteligente foi o depoimento do viajante ameri- cano Greene Arnold, que visitando a cidade em 1847 observou que suas ruas "eram largas para o Brasil, e pavimentadas com grandes pedras"^ A verdade é
^ D. P. Kidder, Rcuiiiiisccncios dc Viagens e Permanência no Brasil, I, pag. 188.
^ Atas da Câmara Municipal dc São Paulo, XXIV, pag.
397.
^ Auguste de Saint-Hilaire, Viagem à Província de S. Paulo, pag. 173.
Samuel Greene Arnold, Viaje por Auiérica dei Sur, (1847-1848), pag. 104.
506
ERNÂNI SILVA BRUNO
•que quase todos êsses viajantes parece terem sido um tanto generosos pelo menos com relação à limpeza das ruas. Basta a gente lembrar que a do Carmo — que era uma rua importante, entrada da cidade para os que procediam do Rio de Janeiro — sempre viveu esburacada pelas rodas dos carros de boi e enlameada pelas enxurradas^. Que em 1833, de pontos dos mais centrais (a rua da Quitanda e o beco da Lapa) foram retiradas certa vez trinta e seis carradas de estrume". E que em 1834 havia um pântano permanente na praça da Alegria, na rua que atravessava a de São João^.
Em sua memória sôbre a cidade de São Paulo Francisco Assis Vieira Bueno falou que o seu calça- mento era péssimo, feito de pedras não aparelhadas e além disso de qualidade má para a sua apHcação por serem de forma irregular e sem nenhuma resistência^. A razão era não haver outra qualidade de pedra na vizinhança da cidade e faltarem estradas e meios de transporte para que fôsse trazida pedra melhor de outras partes^". Já era uma luta fazer com que os proprietários calçassem as testadas de suas casas e terrenos nos lugares em que o leito da rua tinha sido pavimentado pela Câmara. Em 1829, o caso dos mo-
^ Nuto Santana, São Paulo Histórico, II, pag. 57.
^ Nuto Santana, op. cit., II, pag. 57.
^ Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XXVII, pags. 379-380. Mas essa era na época uma situação comum a tòdas as cidades brasileiras, escrevendo o viajante inglês George Gard- ner que mesmo nas capitais de província era a chuva "o único varredor" que conservava as ruas sofrivelmente limpas, quando construídas em declive. (George Gardner, Viagens no Brasil, pag. 65).
' Francisco de Asíis Vieira Bueno, "A Cidade de São Paulo", Rev. do Centro de Ciências, Letras e Artes, Campinas, Ano II, n.°s 1, 2 e 3.
Francisco de Assis Vieira Bueno, loc. cit.
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 491
--sobrado de Antônio Cavalheiro e Silva, perguntou: "Está fazendo o seu sobradão? — Estou sim, isso é para quem tem ânimo. — Ah, é para quem tem ânimo? Pois vais ver um outro, de três andares" — teria respondido Paiva. O de três andares ficou acabado em 1854, na esquina da rua da Imperatriz (15 de Novembro) com a do Tesouro''*^.
Os sobrados dêsse tempo em São Paulo — alguns •com janelas adornadas de pequenos e bonitos balcões, revelando, disse Tschudi, arquitetura de bom gôsto^^ — podem ser apreciados através das estampas sugesti- vas de Militão e de outros fotógrafos primitivos da cidade, ostentando sempre seus amplos beirais e, apesar de suas particularidades, uma uniformidade impres- sionante. Foram descritos, com abundância de deta- lhes técnicos, por Wasth Rodrigues. Havia os que tinham sacadas de ferro abraçando tôdas as janelas, com esteios para as luminárias. Começando como simples ganchos nos batentes onde se penduravam lan- ternas com velas ou tigelas de azeite, mostrou êsse pesquisador e desenhista que os suportes tomaram grande desenvolvimento no oitocentismo, tornando-se um adorno requintado nas fachadas das casas urba- nas^^. Havia por outro lado os sobrados que pos- suíam seu último andar em forma de água-furtada. E os que tinham telhados com quatro águas e c[uatro águas-furtadas dispostas em forma de cruz. Ou então sobradinhos com as janelas de cima tocando no beiral. Tipo de janela comum em São Paulo — segundo Wasth — como também em Minas e no Rio, era com vidros em caixilho fixo na metade superior e duas
5° Antônio Egídio Martins, op. cit., II, pag. 24.
Citado por Afonso de E. Tauiiay, op. cit., pag. 133. José Wasth Rodrigues, Documentário Ar quite tónico, II, comentário à estampa 25.
^ — ■ 2." Tradições
492
ERNÂNI SILVA BRUNO
folhas de rótula em baixo. E também as ombreiras de madeira com vêrga arqueada e rematada de mol- dura. Um elemento por êle considerado característi- co da arquitetura paulistana foi o muxarabiê como proteção de rótula sobreposta e apoiada ao balcão também de rótula''^ Balcões à maneira espanhola, escreveu o viajante Houssay que davam um toc[ue de originalidade às casas paulistanas''^. Nas suas notas sôbre moradores antigos da cidade, Antônio Egídio Martins era difícil falar de uma casa que não fôsse "de janelas de rótula" ou "de sacadas de rótula"^^ — janelas que uma postura proibia, já em 1855, que se abrissem para fora''^. Tanto casas térreas como de sobrado. E que no entanto aparecem ainda com mui- ta frequência — às vêzes escancaradas atrevidamente sôbre os passeios estreitos — nas velhas gravuras que restaram de algumas ruas paulistanas em 1860. Já em 1854, diante de um projeto para que se acabas- sem com as rótulas na cidade, e ante a defesa que muitos faziam delas, achando que eram muito cómo- das, o jornal O Constitucional escrevia: "Cómodas em que sentido? Para ocultarem-se as famílias, as vidraças cobertas com "esteiras da China", nas jane- las baixas, como se pratica em Santos e no Rio de Janeiro, produzem o mesmo efeito. E ocultarem-se de quê? Somos nós um povo de cucas? Demais vai aí grave questão de moralidade : é bom ref letir sôbre o estímulo de tudo que se esconde". "De resto —
Joíé Wasth Rodrigues, op. cit., I.
Frédéric Houssay, Dc Rio de Janeiro lí São Paulo, pag. 72. ^
Antônio Egídio Martins, op. GÍt., I, pags. 82, 93, 146, e II, pags. 41, 44, 65. 71, 72, 73, 74, 86, 90 e 162.
Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XLI, pag.
85.
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 495
acrescentava o jornal — é fora de dúvida que muito melhora de aspecto a capital da província com a provi- dência projetada, e que os perigos das abalroadas nas janelas desaparecem, e quem sabe que influência exer- cerá nos nossos costumes?"" As rótulas eram nu- merosas em São Paulo todavia ainda em 1865, e êsse foi um dos motivos pelos quais a cidade nessa ocasião não agradou muito ao Visconde de Taunay. As ró- tulas iam-se fechando — escreveu êle — "sucessiva- mente, com um bater tão característico, à medida que os transeuntes vinham se chegando para mais perto, e prestes se entreabriam depois da passagem,, esgui- chando-se atrás delas as cabeças da curiosidade e do mexerico .
Ainda nessa época, mesmo quando no pavimento térreo dêsses sobrados funcionavam casas de negócio, lojas de calçados, oficinas de ourives ou mesmo qui- tandas ou talhos de carne, no andar de cima instala- vam-se residências mais ou menos aristocráticas. Nas crónicas de Almeida Nogueira relativas ao pe- ríodo de 1869 a 1873 focalizam-se cenas em que apa- recem senhoras, na sacada de seus sobrados da rua da Imperatriz, em cujos peitoris, escreveu Cerqueira
^■^ Citado por Antônio Egídio Martins, op. cit., II, pag.
123.
Visconde de Taunay, Memórias, pag. 149. No Rio as gelosias desapareceram alguns anos depois da chegada de Dom João VI (Luccock, Notas sobre o Rio de Janeiro e par- tes meridionais do Brasil, pag. 25) e em Recife na mesma época estavam sendo substituídas (Henry Koster, Viagens ao Nordeste do Brasil, pag. 257), mas ainda em meados do sécu- lo elas se conservavam em edifícios antigos do distrito reci- fense de São Pedro (D. P. Kidder e J. C. Fletcher, op. cit, II, pag. 252) e em Belém do Pará eram ainda mais comuns que as vidraças. (D. P. Kidder, Reminiscências de Viagens e Permanência no Brasil, II, pag. 163).
496
ERNÂNI SILVA BRUNO
Mendes, dentro de caixotes envoltos em papel recor- tado, floriam malvas e cravinas^^. Ou visitas de es- tudantes da Academia a sobrados "onde eram recebi- dos com tôda a distinção"^^ Outros sobrados ou casas térreas de residência, nas proximidades do centro, contavam porém com maior espaço, ocupando por vêzes áreas enormes, com cavalariças no quintal, poço, lavadouros e alojamentos para escravos, como a residência da família Rrotero, edificada em 1840^^. Ou a da família Pais de Barros, em cujo pavimento térreo havia os cómodos reservados para os emprega- dos da casa^^. Também dispunham de espaço maior e ostentavam arquitetura mais aristocrática que as residências antigas os palacetes que na segunda me- tade do século dezenove começaram a ser edificados por fazendeiros enriquecidos que se transferiam do interior para a capital da província, localizando-se em geral nas vizinhanças da Estação da Inglesa. Foram erguidos ali — segundo Ian de Almeida Prado — além do palacete da família Pais de Barros, o do Barão de Piracicaba e o do Conde do Pinhal. Muitas dessas novas casas iu"banas se inspiravam, segundo esse pes- quisador, no classicismo italiano dos séculos dezesseis e dezessete. Contrastavam com as velhas casas aca- çapadas da tradição portugiiêsa as linhas severas e o aspecto monumental dessas residências do bairro da Luz. Algumas delas ostentando fachadas quase todas revestidas de azulejo. E colocadas quase sempre no fundo de jardins, o que ressaltava a sua imponência de solares. Nas áreas mais modestas da cidade, deli-
Cerqueira Mendes, Figuras Antigas, pag. 17. Almeida Nogueira, op. cit., I, pag. 298. Frederico de Barros Brotero, Traços Biográficos do Conselheiro José Maria de Avelar Brotero, pag. 4. ^2 Maria Pais de Barros, op. cit., pag. 23.
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 499"
neava-se o chalèzinho ladeado de portão, com pilastras- encimadas por cães ou leões de faiança portuguesa, "Era quando se construía a São Paulo Railway", es- creveu Almeida Prado^^.
Também os jardins particulares ou os terraços ajardinados dentro da zona urbana parece que começa- ram então a firmar o seu prestígio — de que é um reflexo êste anúncio publicado em 1860 pelo Correio Paulistano: "Se algum senhor desta cidade quiser dar a fazer qualquer jardim ou recreio pitoresco feito no último gosto, assim como qualquer terraço ajardi- nado com caramanchões tecidos de jasmins do Caba e também feito com letras com o nome do proprietário, os canteiros em volta de lírios do Japão do mais lindo gosto possível ..." podia escrever para o anunciante, que se declarava conhecedor tão perfeito de sua arte de jardineiro a ponto "de fazer dar uma só roseira, cinco diferentes qualidades de rosas, como Baronesa. Aurora, Eugênio Sue, Duque de Aumale e Príncipe Alberto"'\
Mas mesmo as residências de gente máis abas- tada eram de noite pouco iluminadas. Na corres- pondência de Álvares de Azevedo, de São Paulo para o Rio de Janeiro, entre os anos de 1844 e 1850, en- contram-se observações que revelam detalhes da po- breza da iluminação das casas paulistanas nesses meados do oitocentismo. Em uma de suas cartas o- estudante pedia que lhe mandassem da Còrte vidros pequenos, que servissem no seu candeeiro; quatro anos depois fazia um pedido igual : o vidro de seu candeeiro tinha se quebrado, e êsse era um artigo que não se
Ian de Almeida Prado, op. cit.
Correio Paulistano de 25 de maio de 1860.
500
ERNÂNI SILVA BRUNO
encontrava aqui, "nesta santa terrinha"^". Era to- davia principalmente por meio de candeeiros de azeite que se iluminavam as casas. Mas também por meio de velas. Velas que as escravas punham nos quartos, na hora de arrumar as camas, ou c[ue eram postas em altos castiçais de prata, iluminando a mesa em que to- mavam chá as familias nas residências mais aristocrá- ticas®^. As velas de espermacete, em meados do sé- culo, já representavam um progresso, segundo o cro- nista Almeida Nogueira, sobre as de cêra, as de sebo ou "as lúgubres candeias de azeite"®^.
^5 Álvares de Azevedo, Obras Completas. II, pags. 451 e 'seguintes.
^'^ Maria Pais de Barros, op. cit., pag. 24. ^' Almeida Nogueira, op. cit., II, pag. 115.
J^ode se dizer que em São Paulo, como em outras cida- des brasileiras segun- do Gilberto Freyre, foi no século deze- nove que mais acen- tuadamente começa- ram a despontar si- nais do prestígio cres- ■cente da rua em face da antiga prepotência da casa particular — casa que nos primeiros séculos se instala- ra nas áreas urbanas com o mesmo à-vontade com que se esparramava na zona ruraP. Em São Paulo, sobre- tudo a partir de meados do oitocentismo. É verdade que desde um século antes tivera a povoação um arruador, para evitar que continuassem sendo feitos os traçados extremamente irregulares dos primeiros tempos. E que desde os últimos anos do setecentismo pudera contar a cidade, em alguns de seus logradouros, com uma
1 Gilberto Freyre, Sobrados e Mucamhos, 1.^ edição, pags. 17 e seguintes e 57 e seguintes.
504
ERNÂNI SILVA 13 R U X O
rude pavimentação, e com covões para onde devia ser levado o lixo, antes atirado por todos os cantos. Também é certo que no começo do oitocentismo já se cogitava da nomenclatura oficial das vias públicas, e que São Paulo podia contar com a existência de um grande Jardim Público, embora afastado de sua área central. Foi no entanto a partir de meados do século dezenove que a rua e o largo paulistanos se beneficia- ram de uma porção de medidas mais amplas, do seu poder municipal, valorizando-se consideravelmente. Proibiu-se que as casas tivessem canos que despejas- sem sujeiras para as vias públicas, ou rótulas de portas e janelas que se abrissem para fora. Que houvesse moirões em certos largos ou ruas, onde se amarravam cavalos. Que certos artífices trabalhassem ao ar livre, atravancando os passeios. Determinou-se que os muros fossem caiados e tivessem cobertura de telhas. Criou-se um serviço de limpeza contando com carroças que recolhessem o lixo das casas pobres. Co- meçaram a ser tomadas medidas, na Câmara, para que tivessem melhor traçado e melhor nivelamento os pequenos larg'os que vinham dos tempos coloniais. Para que se macadamizassem algumas ruas centrais, substituindo-se a antiga pavimentação feita de grandes pedras irregulares. Para que se arborizassem alguns largos e algumas ruas. E para que se iluminassem algumas ruas, ainda que pobremente, por meio de lam- l)iões de azeite. Tudo isso contribuiu para que a rua paulistana — prestigiada também nessa época pela l)resença bastante viva dos estudantes de muitas partes do país — fòsse ganhando feição menos primitiva que aquela (pie pudera exibir até o começo do século dezenove.
Os depoimentos de alguns viajantes estrangeiros revelam o que eram as ruas paulistanas de 1828 até
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 505
meados do século passado. Sôbre a pavimentação delas na terceira década do oitocentismo, por exemplo, o reverendo Kidder entrou em detalhes, dizendo que era feita com uma rocha ferruginosa parecida com a pedra arenosa vermelha, porém com mais fragmentos de quartzo. Acrescentou o viajante americano que as ruas eram acanhadas e que deviam ter sido dese- nhadas sem obediência a qualquer plano geraP. Sabe-se que em 1829 os poderes municipais haviam procurado impedir que se continuasse edificando, dentro dos limites do rocio, sem se formar um plano geral de alinhamento de ruas e de praças^. Mas evi- dentemente Kidder se referia ao conjunto da velha cidade, que vinha dos tempos coloniais com tôdas as suas irregularidades. A respeito da largura das ruas paulistanas deve-se lembrar que Saint-Hilaire — c[ue depois de Kidder publicou o seu estudo sòbre a pro- víncia de São Paulo — escreveu: "Kidder afirma que as ruas são estreitas. Spix e Martins afirmam que as mesmas são muito largas. Eu creio que a verdade está entre essas duas afirmativas"*. Vagas referên- cias essas, que esclarecem muito pouco a ciuestão, uma vez que não se sabe qual o tipo cie cidade que êsses cronistas tomaram para base de suas comparações. Mais inteligente foi o depoimento do viajante ameri- cano Greene Arnold, que visitando a cidade em 1847 observou que suas ruas "eram largas para o Brasil, e pavimentadas com grandes pedras"^ A verdade é
^ D. P. Kidder, Rcminiscciicias de Viagens e Permanência no Brasil, I, pag. 188.
^ Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XXIV, pag.
397.
* Auguste de Saint-Hilaire, Viagem à Província de S. Paulo-, pag. 173.
^ Samuel Greene Arnold, Viaje por América dei Sur, (1847-1848), pag. 104.
i06
ERNÂNI SILVA BRUNO
que quase todos êsses viajantes parece terem sido um tanto generosos pelo menos com relação à limpeza das ruas. Basta a gente lembrar que a do Carmo — que era uma rua importante, entrada da cidade para os que procediam do Rio de Janeiro — sempre viveu esburacada pelas rodas dos carros de boi e enlameada pelas enxurradas^. Que em 1833, de pontos dos mais centrais (a rua da Quitanda e o beco da Lapa) foram retiradas certa vez trinta e seis carradas de estrume". E que em 1834 havia um pântano permanente na praça da Alegria, na rua que atravessava a de São Joao^.
Em sua memória sôbre a cidade de São Paulo Francisco Assis Vieira Bueno falou que o seu calça- mento era péssim.o, feito de pedras não aparelhadas e além disso de quahdade má para a sua aplicação por serem de forma irregular e sem nenhuma resistência^. A razão era não haver outra qualidade de pedra na vizinhança da cidade e faltarem estradas e meios de transporte para que fôsse trazida pedra melhor de outras partes^*^. Já era uma luta fazer com que os proprietários calçassem as testadas de suas casas e terrenos nos lugares em que o leito da rua tinha sido pavimentado pela Câmara. Em 1829, o caso dos mo-
^ Nuto Santana, São Paulo Histórico, II, pag. 57.
^ Nuto Santana, op. cit., II, pag. 57.
8 Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XXVII, pags. 379-380. Mas essa era na época uma situação comum a tôdas as cidades brasileiras, escrevendo o viajante inglês George Gard- ner que mesmo nas capitais de província era a chuva "o único varredor" que conservava as ruas sofrivelmente limpas, quando construídas em declive. (George Gardner, Viagens no Brasil, pag. 65).
^ Francisco de Assis Vieira Bueno, "A Cidade de São Paulo", Rev. do Centro de Ciências, Letras e Artes, Campinas, Ano II, n.os 1, 2 e 3.
Francisco de Assis Vieira Bueno, loc. cit.
6 — 2." Tradições
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 509
radores residentes na área compreendida pelo pátio de São Bento, as pontes do Marechal e do Lorena, o pátio do Pelourinho, as pontes da Tabatingiiera e do Carmo, a rua de Santa Teresa, o pátio do Colégio e as ruas do Rosário e Boa Vista". Em 1835 cogi- tava a Câmara de mandar fazer nas ruas do Ouvidor e Boa Vista calçadas "pelo método das estradas de alguns países": feitas com pedregulhos, segundo se indicava em um artigo publicado no jornal O Farol Paidistano^^. Empreendimento que na rua Boa Vista não pôde ser realizado porque as casas ali ficavam "abaixo do nível da rua"^^ Muito expressivo ' sôbre a pavimentação das ruas de São Paulo nessa época foi também o depoimento do Barão de Paranapiacaba, referindo-se particularmente ao tempo em tôrno do ano de 1839: "O centro da cidade estava calçado. Mas que calçamento, Santo Deus! Eram pontaletes eriçados, desiguais, espécies de bôcas-de-lôbo a des- coberto"^*. Nessa época — ainda segundo o Barão — do Lavapés ao largo de São Gonçalo percorria-se uma ladeira de terreno avermelhado e cheio de bo- queirões^^.
Outro que não se cansou de se lamentar e pro- testar contra a pavimentação das ruas paulistanas — ■ o que mostra a inferioridade delas, na época, em re- lação às da Corte — foi o poeta Álvares de Azevedo.
^1 Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XXIV, pags. 428-429.
^2 Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XXVIII, pag. 165.
'3 Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XXIX, pag.
24.
^* Citado em Obras Completeis, de Álvares de Azevedo, II, pag. 461.
Almeida Nogueira, A Academia de São Paulo, III, pags. .3-4. : ' ' ■ ' H il ' '
510
ERNÂNI SILVA BRUNO
"... Esta vida tediosa da mal ladrilhada São Paulo*'
— "... é só andar pelas ruas dando topadas nas pedras" — "o silêncio das ruas só é quebrado pelo ruído das bestas sapateando no ladrilho das ruas . , . "
— "para poupar-nos o trabalho de andar quebrando os pés pelas "macias" calçadas de São Paulo" — eram frases que a todo momento apareciam nas cartas (de 1844 a 1850) mandadas para o Rio pelo autor da Lira dos Vinte Aiios^^. E um seu personagem — o Satã do "Macário" — chega a dizer falando das ruas de São Paulo: "i\.s calçadas do inferno são mil vêzes melhores"^^. Também Fagundes Varela, em uma sá- tira intitulada "A Terra da Promissão", fêz uma alusão desfavorável ao calçamento da cidade
onde as beatas
Em sombrias mantilhas envolvidas, Nas ruas mal calçadas se abalroam De rosário na mão . . . "^^
Entretanto não se podia ainda fazer coisa melhor. Em 1845 o presidente da província Lima e Silva ex- plicava em prosa no seu relatório: "Não foi possível aperfeiçoar bastante o sistema de calçamento adotado antigamente, pelas razões capitais da falta de operá- rios especializados, ferramentas indispensáveis e da má qualidade das pedras"^^ Sabe-se que ainda nessa época nem sempre havia passeios para os pedestres e
Álvares de Azevedo. Obras Completas, II, pags. 461, 493 e 496.
Álvares de Azevedo, op. cit., II, pag. 27.
Citado por Pessanha Póvoa, Anos Acadcuiitos, pag. 227.
Citado por Auguste de Saint-Hilaire, op. cit., pag. 174.
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 511
que as sarjetas ficavam no meio das ruas^^ Em 1847 o fiscal da cidade avisava à Câmara que os donos de casas do pátio do Pelourinho estavam fazendo com imperfeições as calçadas de suas testadas, pois em alguns lugares elas tinham mais de três palmos sòbre o nível do pátio^^ E dois anos depois expunha o mau estado em que se achavam as calçadas do aterrado do Carmo, por onde os animais desciam para beber^^. "Conheceis o péssimo estado das calçadas desta capital — dizia em 1852 em seu relatório, referindo-se à pavimentação do leito das ruas, o presidente da pro- vinda Nabuco de Araújo — e quanto eu pudesse dizer seria menos do que realidade é: um projeto se apre- senta para substituição delas por um novo sistema, que consiste em calçar com pedras de cantaria conve- nientemente resistentes e próprias para se não esboroa- rem, formando essas pedras quadrilaterais de um pal- mo mais ou menos de grossura, e nunca menos de dois palmos de largura e três de comprimento ligeiramente preparadas e colocadas sobre leito de areia ou cas- calho"^^. Mas se essas eram em meados do século as deficiências da pavimentação nas áreas mais po- voadas da cidade — • as suas ruas centrais e os pátios adjacentes — é fácil de calcular o que aconteceria com as outras. Muitas com longos trechos de quintais fechados por muros de taipas^*. Como a dos Bambus
20 Everardo Valim Pereira de Sousa, "Reminiscências", Primeiro Centenário do Conselheiro Antônio da Silva Prado, pags. 200-201.
21 Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XXXVI, pag. 136.
22 Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XXXVII, pag. 114.
23 Relatório do presidente da proznncia Nabuco de Araújo em J852, pag. 51.
24 Francisco de Assis Vieira Bueno, loc. cit.
512
ERNÂNI SILVA BRUNO
(trecho da Visconde do Rio Branco) que ganhara êsse nome por causa das bonitas touceiras de bambus que havia dentro de alguns de seus quintais : a parte menos central dessa rua — na evocação de Ferreira de Resen- de — ''era de uma extensão por assim dizer indefinida; possuía um número muito pequeno de casas, as quais se achavam todas de um único lado"^^. E tinha inter- mináveis taipas não rebocadas, segundo Almeida No- gueira, com interrupções "que davam acesso a vastos terrenos em campo ou em lagoa". Como a dos Tim- biras, "então pantanosa e em mato"^®, em 1862 ainda aludindo Teodomiro Alves Pereira, o autor da Vida Académica, a um dos "inúmeros aterros lamosos" que povoavam a Paulicéia^'. Ou como a própria rua de Santa Ifigênia, "também quase intransitável"^^. Aliás todo êsse arrabalde na época — na descrição de Ber- nardo Guimarães — "era formado de quintais sem dono, cercados de taipas velhas e arruinadas, abando- nadas às formigas e aos tatus"^^
Em 1857 o poder municipal mandava que os donos de terrenos em ruas da cidade fechassem essas testa- das com muros rebocados, caiados e cobertos de te- Ihas^*^. Medidas como essa revelavam já um prestígio maior da rua em face dos particulares. Aliás nessa época, através de outras determinações, a Câmara pro- curava defender a via pública dos possíveis excessos ou descuidos de moradores. Já em 1830 estabeleciam- se penas para moradores que em suas casas tivessem canos que desaguassem imundícies para a rua. De-
25 Ferreira de Resende, Minhas Recordações, pag. 259. Almeida Nogueira, op. cit., III, pag. 140.
27 Teodomiro Alves Pereira, Vida Académica, II, pag. 13.
28 Almeida Nogueira, op. cit., III, pag. 140.
2' Bernardo Guimarães, Rosaura, a Enjeitada, pag. 15. Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XLIII, pag. 112.
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 515
terminação nem sempre obedecida, sabendo-se que em 1836 um cidadão mandou a um fiscal da Câmara um pacote contendo suas calças brancas e um par de sa- patos que haviam ficado inutilizados por causa de ter êle se "empantanado" em frente à casa de um dêsses moradores rebeldes^\ Por outro lado em 1837 con- cordara o poder municipal com uma solicitação de João da Conceição Maldonado no sentido de se colo- carem dois moirões unidos à parede de uma casa de ferrar no largo do Curso Jurídico, desde que esses moirões fossem mesmo unidos à parede e não estorvas- sem o trânsito^^ Mas dois anos depois foram ar- rancados daquele largo todos os moirões^^.' E em 1846 manda va-se que um morador tirasse os frades de pedra afixados na frente de sua casa^*. Também sinais de valorização da via pública. Posturas apro- vadas alguns anos mais tarde pelo poder municipal revelavam preocupações semelhantes em defesa dos direitos da rua. Em 1853 proibindo-se que se amar- rassem animais nas esquinas e batentes das portas das casas da Sé e de Santa Ifigênia^^ Em 1855 estabe- lecendo-se que as rótulas de portas, meias-portas e janelas não se abrissem para fora^^. Em 1857 não permitindo que oficiais de alfaiate, sapateiro e outros ofícios trabalhassem nas portas dos prédios ou nos passeios, colocando aí bancos ou outras coisas que
'1 Citado por Nuto Santana, op. cit., I, pags. 259-260. ^2 Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XXX, pag. 61.
Atas da Câmara Municipal de São Paião, XXXII,
pag. 94.
^'^ Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XXXVI, pag. 7.
^5 Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XL, pag. 69. Atas da Câmara Municipal de São Pdido, XLI, pag. 85-
516
ERNÂNI SILVA BRUNO
pudessem ofender o trânsito". Pois na alfaiataria do francês Pedro Bourgad, por exemplo, era costume até certa época, quando fazia calor, os empregados tra- balharem na rua, sentados em um banco de madeira^*.
Também revelava o prestígio crescente da rua pau- listana em meados do século passado a preocupação pelas denominações dos logradouros públicos e pela numeração das casas, procurando-se acabar com a balbúrdia de nomes e a vagueza de indicações que vinham dos tempos coloniais. Essas preocupações se refletiram em atas da Câmara em 1846^^, em 1855, quando se determinou que fôsse feita de novo a nu- meração dos prédios, em ordem alternada, dos dois lados*", e em 1865, quando se insistia nessa numeração alternada, "pelo sistema da Côrte"*^. Ainda nesse último ano — em 1865 — alterava a municipalidade as denominações de muitas ruas, ladeiras, travessas, becos : a da América passou a se chamar do Paraíso ; a do Acu, do Seminário das Educandas; a de Santo Elesbão, da Aurora; a Bela, dos Timbiras; a do Meio, Amador Bueno; a do Campo Redondo, dos Guaiana- ses; a Estreita, do Bom Retiro; a de Trás do Carmo, dos Carmelitas; a de Trás do Quartel, do Trem; a de
^"^ Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XLIII, pag. 106.
Antônio Egídio Martins, São Paulo Antigo, II, pag. 48. Provàvelmente restos de um costume que parece ter sido em época anterior comum a outras cidades brasileiras. No comêço do oitocentismo, na Bahia, Von Martius se referiu a mulatos que ocupados com o qfício de alfaiate enchiam certa rua sentados em pequenos tamboretes. (Von Martius, Através da Bahia, pag. 91 ) .
Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XXXVI,
pag. 19.
Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XLI, pag. 84. Atas da Câmara Municipal de São Paulo, LI, pag. 50.
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 517
Trás da Sé, de Santa Teresa; a de Santa Teresa, do Carmo; a do Cónego Leão, da Liberdade; a de Trás da Cadeia, da Cadeia; a do Rêgo, de Santa Cruz; a das Casinhas, do Palácio; a de Baixo, 25 de Março até a projetada praça do Mercado, e daí até a ladeira do Carmo, do Mercado; a da Freira, Senador Feijó; a da Casa Santa, do Riachuelo ; a do Mata Fome unida à da Alegria, do Ipiranga ; o beco do Quartel, do Tea- tro; o do Inferno, travessa do Comércio; o das Sete Casas, da Caixa Dágua; o da Casa Santa, da Fa- culdade de Direito; o do Sapo, travessa do Seminário; a ladeira do Bexiga, de Santo Amaro; a de Santo António, Doutor Falcão; a da Ponte do Acu, São João; as travessas das ruas Constituição e Bom Re- tiro, Episcopal; a do Jardim, rua do Jardim^^.
Renovavam-se também em meados do século as medidas tendentes a conservar limpas as ruas da ci- dade. Em 1854 propunha um vereador que para co- modidade da limpeza urbana se comprassem uma car- roça e uma besta que poderiam ficar a cargo de dois. africanos livres^^. No ano seguinte já tinha a Câ- mara carroças para a limpeza dos lixos das casas "de pessoas notoriamente pobres"**. Na mesma ocasião dividiu-se a parte central e mais populosa da cidade em quatro distritos, cada um servido por uma dessas
José Jacinto Ribeiro, Cronologia Paulista, III, pag. 543. Não teve a municipalidade paulistana, nessa ocasião, o critério seguro que tivera em 1831, quando a 'sua Comissão Perma- nente, diante de uma proposta para que se substituíssem certos nomes tradicionais de logradouros públicos, como os dos largos do Rosário, de São Francisco e de São Gonçalo, se manifestou contrária, "pela dificuldade que de ordinário se encontrava o povo de deixar as antigas e arraigadas denominações". (Atas da Câmara, XXVI, pag. 70).
Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XL, pag. 201.
Atas da Câmara Municipal dc São Padula, XLI, pag. 188.
518
ERNÂNI SILVA BRUNO
carroças, que começavam o seu serviço às seis horas da manhã, devendo por isso os moradores depositar o Hxo de suas casas "em cêstos, caixões ou gamelas junto à porta da rua"*^ Assim se evitava que muita porcaria fôsse atirada no leito da rua, como até então muitas vêzes se fizera. Começou-se a fiscalizar tam- bém com mais rigor o que se determinara há muito tempo sôbre os locais em que se devia fazer o despejo. Em 1865 foi preso o escravo João, do Conselheiro T. — dizia-se discretamente nas atas da Câmara — • por- que estava fazendo despejo no beco da rua de São José*^. E também a escrava Benedita, do tenente- coronel Antônio J. O. da Fonseca, que fazia o mesmo na ponte do Piques*''. O viajante Hadfield, passando em 1870 por São Paulo — que conhecera dois anos antes — achou a cidade e suas ruas notavelmente limpas*^.
Mas sôbre essas ruas paulistanas em meados do oitocentismo é interessante também o depoimento do reverendo Fletcher, embora semelhante ao de Kidder : vias públicas pavimentadas com um conglomerado fer- ruginoso muito parecido com o velho arenito vermelho, aproximando-se da "breccia". Ruas estreitas e não delineadas de acôrdo com qualquer sistema ou plano geral*^ De fato, apenas se esboçavam então preocupa- is Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XLI, pag. 162. Semelhantemente ao que já se fazia na Corte, onde os quarteirões estavam entregues a fiscais que tinham a seu ser- viço carroças, guardas e africanos livres, sendo varridas as ruas e o Hxo carregado para os mangues da Cidade Nova. (Charles Ribeyrolles, Brasil Pitoresco, I, pag. 153).
'^^ Atas da Câmara Municipal de São Paulo, LI, pag. 51.
Atas da Câmara Municipal de São Paulo, LI, pag. 39.
William Hadfield, Bradl and thc River Plate (1870- 1876), pag. 169.
D. P. Kidder e J. C. Fletcher, O Brasil e os Brasileiros,. II, pag. 70.
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADJi DE SÃO PAULO 521
ções mais constantes em relação às ruas, ao seu tra- çado, à sua largura e mesmo à sua estética. Em 1848 procurara-se alargar a rua que corria sôbre o paredão do Piques até a esquina do beco de São Luís^". No ano seguinte um parecer da Comissão Permanente da Câmara sôbre o projeto de abertura de uma rua em prolongamento da Casa Santa até o Bexiga dizia que "a beleza resultante da reta não sobressairia nessa rua, pois tendo de acompanhar o rebaixamento do terreno desde o portão de São Fran- cisco até o Bexiga, ela nunca poderia ser vista de um extremo ao outro". Mas não se tratava só de um problema de estética: a rua ficaria um despenhadei- ro^^ Por outro lado em 1854 propunha-se na Câ- mara que nunca tivesse menos de seis braças de lar- gura rua nova que se abrisse em qualquer ponto das três freguesias da cidade^^. E no ano seguinte, que se fechasse uma rua por ser sumamente estreita e tortuosa e por isso "contrária às condições de uma regular circulação e às exigências da salubridade pú- blica"^^. Mas alguns traçados terrivelmente irregula- res persistiam em muitas ruas centrais, como se pode ver em algumas estampas da cidade feitas no período de 1860 a 1870.
Relativamente ao calçamento das ruas na época em que Fletcher esteve na cidade, sabe-se que em 1854-1855, diante de uma proposta de pavimentação feita pelo engenheiro José Porfírio de Lima, a Co- missão Permanente da Câmara se declarou sem os
Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XXXVII,
pag. 28.
'1 Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XXXVII, pag. 171.
^2 Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XL, pag. 128 5' Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XLI, pag. 102.
522
ERNÂNI SILVA BRUNO
conhecimentos necessários para dar parecer e sugeriu que se consultasse a administração das obras públicas da Côrte^\ Na mesma ocasião — ainda em 1855 — sabe-se de uma solicitação do poder municipal ao go- vêrno da província, de um adiantamento de pelo menos cinco contos de réis para que fossem feitos os "pas- seios" de proprietários pobres ou dos que desejassem encarregar a Câmara de fazer as suas testadas na rua Direita, visto que tinham mandado macadamizar essa rua^^. Os donos de casas da rua Direita ou de outras que fossem novamente calçadas — determinava a Câmara — seriam obrigados a calçar as suas tes- tadas com lajes de Itu ou pedras de cantaria lavra- da^®. Essas lajes deviam ter a largura de seis palmos ou a que fôsse necessária para cobrir o espaço entre a parede e a guarnição externa. E não se admitia diferença alguma na altura do lajedo entre um prédio e outro^^. Mas no próprio ano de 1855 surgiu na Câmara opinião contrária à macadamização da rua Direita, que representava na época, para a cidade, uma novidade. Propôs um vereador que se determi- nasse outro sistema de pavimentação, visto que aquêle que se projetava fazer (a cargo do francês Marcelino Gerard) pioraria a situação daquela rua, fazendo com que ela se tornasse um depósito permanente de pó em tempo sêco e de lama em tempo chuvoso. E que fi- caria inferior ao calçamento que se desmanchara, pois para que fôsse duradouro o calçamento pelo sistema "macadam" seria preciso abolir o uso dos carros de
5'' Atas da Câmara Municipal de São Paulo. XL, pag. 74 e XLI, pag. 35.
José Jacinto Ribeiro, op. cit., I, pag. 546.
5^ Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XLI, pag. 64.
5^ Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XLI, pags. 196-197.
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 523
eixo fixo^^ O fato porém é que nessa época, se- gundo um cronista, o estado do calçamento "era de tal maneira lastimoso que as próprias estradas de comunicação com os povos marítimos e com as terras sertanejas eram superiores a algumas das principais vias públicas do centro"^^ Era aliás o que se dizia em um relatório do governo da província em 1855, quando o presidente José Antônio Saraiva confessava significativamente: "O estado das calçadas é o mais desgraçado que é possível imaginar"^". Sabe-se no entanto que nesse tempo foi consertada e macada- mizada, com esgotos laterais calçados de pedra — tendo sido o serviço executado por trabalhadores por- tugueses e alemães sob a direção do engenheiro Rath — a rua da Glória*''^. Em 1857, em vista do estado em geral ruinoso das ruas centrais, propunha-se que a pavimentação fôsse feita pelo modo sugerido pelo em- presário Martin d'Estadens, com as alterações feitas pelo engenheiro William ElHot^^ Finalmente em 1858 resolvia-se adotar "o sistema perfeito de Mac- kadam" para calçamento das vias públicas paulista- nas^^ De alguns anos depois — de 1862 — conhe- cem-se referências a um orçamento "da despesa para
5^ Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XLI, pag.
105.
Alberto Sousa, Memória Histórica sobre o Correio Paulistano, pag. 12.
Relatório do presidente da província José Antônio Sa- raiva em 1855, pag. 33.
Relatório do vice-presidente da província Antônio Ro- berto d' Almeida em 1856, pags. 29-30.
^2 Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XLIII, pag.
138.
Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XLIV, pag. 30. Possivelmente se inspiraram os administradores da cidade no exemplo do Rio de Janeiro, onde alguns anos antes fôra
7 — 2.° Tradições
524
ERNÂNI SILVA BRUNO
melhoramento de diversas ruas da cidade, inclusive o larg-o de São Gonçalo, pelo sistema e abaulamento a pedregulho, guias de cantaria e esgotos calçados de pedra a tição'"'\ Mas ainda em 1865 o Visconde de Taunay, em carta para a familia, falava que as ruas paulistanas, embora limpas, eram mal calçadas^^ Crítica com que não concordou o inglês Hadfield três anos depois : para êle as ruas da cidade, pavimentadas com material semelhante ao "macadam", tinham cal- çadas bem feitas, de grandes lajes, "muito superiores às da Côrte"^^ Realmente, não era rigorosamente o MacAdam que se empregava nessa época na pavi- mentação das ruas de São Paulo, "mas um arremedo dêsse bom sistema — dizia-se em um relatório de 1866 — constando êle da acumulação de grossas ca- madas de terra salpicadas de pequena porção de pedregulho"^'^. Em 1870 o Correio Paulistano des- tacava a necessidade de que se fizesse com capricho a pavimentação que se projetava para a rua do Miguel Carlos (trecho da Florêncio de Abreu), escrevendo: "A importância daquela rua autoriza esta exigência tanto mais que recentemente se acaba de fazer obra de igual natureza. . . o primoroso atêrro da rua dos Bambus, feito com pedregulho de superior qualidade
substituído nas ruas centrais o .calçamento primitivo jwr outro que tornara certos logradouros cariocas (naquele tempo, flumi- nenses) — no dizer do reverendo Fletcher — comparáveis aos de Viena e de Lx)ndres. (D. P. Kidder e J. C. Fletcher, op. cit., II, pa.ç. 18).
Citado por Nuto Santana, op. cit., I. pag. 306.
Citado por Vanderlei Pinho, Salões e Damas do Se- gundo Remado, pag. 85.
William Hadfield, Brasil and thc River Plate in 1868,
pag. 67.
Relatório do presidente da província Joaquim Floriano de Toledo em 1866, pag. 25.
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 525
e com tal esmero que emparelha aquela rua agora com as melhores do centro da capital". O aterro da Miguel Carlos pedia — segundo esse jornal — "es- mero ao menos igual", pela sua importância e afluên- cia de trânsito, visto que a dos Bambus era apenas uma rua de subúrbio, "freqíientada quase exclusiva- mente pelos moradores de algumas chácaras ali si- tuadas"^l
Sobre a largura das vias públicas da cidade em meados do oitocentism.o existe uma referência relativa a 1862, verificando-se que havia ruas com a largura de sessenta palmos: a da Casa Santa (Riachuelo), a ladeira do Ouvidor e a ladeira de São João; de cin- quenta e cinco palmos, a do Ouvidor (José Bonifácio) ; de quarenta e cinco, a de São João e a do Quartel (Onze de Agosto) ; de quarenta, a da Quitanda, a do Jôgo da Bola (Benjamin Constant) e a da Freira (Senador Feijó) e a travessa de Santa Teresa; entre trinta e trinta e oito, a do Príncipe (Quintino Bo- caiúva), a da Esperança (desaparecida com a demoli- ção de vários quarteirões, para ampliação do largo da Sé, no comêço do século atual), a de Santa Teresa, a do Trem (Anita Garibaldi) e a travessa do Quar- tel®^. Ê claro que mais estreitos eram os becos, tão comuns na cidade ainda nessa época — como sobrevi- vências das caprichosas azinhagas coloniais — e quase sempre batizados com nomes pitorescos, muitos dêles substituídos em 1865 : o do Inferno, decerto porque nêle se alinhavam os botequins em que as rixas e as bordoadas eram coisa de todos os dias; o do Sapo, na baixada alagadiça do Acu; ou o dos Cornos, nas proximidades do matadouro, que tinha êsse nome por-
Correio Paulistano de 12 de janeiro de 1870. Citado por Nuto Santana, op. cit., I, pag. 305.
526
ERN A XI SILVA BRUNO
que nêle se depositavam os chifres dos animais sa- crificados^**.
Da mesma forma que as ruas, também os largos se valorizaram nessa fase da história da cidade. Em 1828 a cidade possuía, além dos pátios e das praças que vinham dos tempos coloniais — e alguns mesmos da era mais primitiva da povoação — como o da Sé, o do Colégio, o de São Bento, o do Rosário, o do Carmo, o de São Gonçalo e o da Misericórdia, os que passaram à categoria de logradouros urbanos pos- sivelmente no comêço do século dezenove, como o dos Curros (depois largo Sete de Abril e mais tarde praça da República) , o do Arouche e o do Zunega ( Paissandu) e uma pequena parte dos que seriam depois os largos de São Francisco e do Pelourinho (Sete de Setembro, incorporado recentemente à praça João Mendes). Uma ata de 1829 mencionava já o do Pelourinho". O próprio largo de São Francisco todavia passou a existir de fato desde quando se estabeleceu na cidade o Curso Jurídico. Pelo menos foi então ampliado. Francisco de Assis Vieira Bueno escreveu que primitivamente a frente do convento de São Francisco ficava dentro de um quintal que tomava quase todo o espaço depois ocupado pelo largo. "Não sei precisamente — escre- veu êle — quando foi que o larg-o de São Francisco veio a ficar descortinado pela demoHção dessas tran- queiras. Conjeturo que foi por ocasião da adaptação do convento para a instalação da Faculdade, pois quando, a aula de latim foi removida do palácio (no pátio do Colégio) para a Faculdade, por ter ficado
Afonso A. de Freitas, Dicionário Histórico. Topográ- fico, Etnográfico, Ilustrado do Município de São Paulo, T, pag. 241.
^' Atas da Câmara Municipal dc São Paulo, XXIV, pags. 428-429.
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 529
pertencente ao Curso Anexo, já o largo estava desa- fogado"'l Reclamava o bem público — dizia uma proposta apresentada à Câmara Municipal no ano de 1829 (um ano depois de instalada a Academia de São Paulo) — que se aproveitasse todo o terreno contíguo à cidade, abrindo-se ruas e praças, em vista do au- mento da população da cidade, sobretudo por causa da chegada de estudantes para a Faculdade. E nesse caso estava "o terreno devoluto exterior ao edifício do Curso Jurídico'"^ Um documento do mesmo ano dizia que sempre fôra preocupação da municipalidade abrir praças e conservar as poucas que existiam na cidade'^*.
A partir de meados do oitocentismo — como ocorrera em geral com as ruas — foi que passaram no entanto a ser mais f reqiientes as preocupações do poder municipal com referência às praças e aos largos pau- listanos. Em 1849 indicava um vereador que se exa- minasse a possibilidade de se tornar mais limpo, mais plano e mais bonito o largo do Tanque do Zunega (Paissandu)^^ Em 1855 requeria-se que se mandasse fazer por um engenheiro inglês (sinal decerto da importância que áe dava ao empreendimento) o nivela- mento dos largos da Sé e do Palácio (pátio do Co- légio), os mais importantes da cidade^^. Na mesma ocasião — no ano seguinte — já se pensava no plano de uma grande praça nos fundos do quintal do palácio
^2 Francisco de Assis Vieira Bueno, loc. cit.
Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XXIV, pag. 450.
''^ Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XXV, pag. 13.
''^ Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XXXVII, pag. 147.
Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XLI,
pag. 84.
530
ERNANt SILVA BRUNO
do governo, que fosse terminar nas margens do Ta- manduateí — plano de que devia ser encarregado o engenheiro Carlos Rath^^ Logo em seguida cuidou- se de ampliar e melhorar o aspecto do largo de São Bento, então triste e nu — escreveu Dona Maria Pais de Barros — com ervas daninhas vicejando pelo chão, e sendo às vêzes capinado por escravos de partícula- res''^ Em 1857 pedia-se ao Abade de São Bento que por ocasião da reedificação do muro do quintal do convento êle fôsse recuado para que a praça ficasse mais ampla''^ Em 1864 a Câmara resolveu desapro- priar umas casinhas pegadas à igreja de Nossa Se- nhora dos Remédios a fim de ser melhor esquadrejado o largo do Pelourinho"^". A praça, escreveu José Jacinto Ribeiro que se chamaria da Alegria, mas alguns anos depois passou a se denominar largo Sete de Setembro^^. Essa foi uma das alterações de deno- minações de largos feitas em 1865. Houve outras. O largo do Bexiga passou a se chamar do Riachuelo : o dos Curros, Sete de Abril ; o do Tanque do Arouche, Campo do Arouche; o do Zunega, do Paissandu; o Campo Redondo, dos Guaianases; o do Brás, praça da Concórdia^^.
Jardim Público só houve um nessa fase da exis- tência da cidade: o da Euz. Nada justificava — es- creveu Francisco de Assis Vieira Bueno — a sua denominação primitiva de Jardim Botânico, "pois era
■ Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XLII,. pag. 26.
Maria Pais de Barros, No Tempo de Dantes, pag. 34. Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XLIIL pag. 163.
^° Atas da Câmara Municipal de São Paulo, L, pag. 118. José Jacinto Ribeiro, op. cit., I, pag. 229. José Jacinto Ribeiro, op. cit., III, pag. 543.
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 533
arborizado com plantas corriqueiras de nossas matas", e de ornamentação tinha apenas o seu grande lago central e as duas estátuas representando Vénus e Adônis^l Parece que não foi a princípio levado mui- to a sério êsse parque do bairro da Luz. No ano de 1830 o presidente da província Almeida Torres, indo ver como êle estava, ficou espantado. Tinha virado pastagem: cavalos e bois de carro estavam ali soltos, pastando à vontade dentro dêle^"\ E quando o via- jante Kidder estéve na cidade, nove anos mais tarde, observou mesmo que o parque ainda se achava um tanto abandonado. Mas achou o visitante que o seu plano geral era de muito bom gosto, contando êle com bonitas alamédas curviHneas bem arborizadas^^. En- tretanto não havia sido esquecido. Em 1835 o presi- dente da província Rafael Tobias dizia, dirigindo-se à Assembléia Legislativa Provincial, em seu relatório : "Continua-se a trabalhar no Jardim estabelecido nesta cidade; ainda que seja uma despesa que mais toca ao agradável do que ao útil, não se pode dispensar, uma vez que êle já serve de recreio aos cidadãos em certos dias, e não é conveniente abandonar uma obra começada, perdendo-se o que está feito"^^. Em 1838 deixou de ser chamado Jardim Botânico para ser denominado simplesmente Jardim Público", como se as autoridades tivessem se conpenetrado das mesmas razões de Vieira Bueno. Mas continuava figurando, com seus problemas — como aconteceria aliás du-
Francisco de Assis Vieira Bueno, loc. cit. ^4 Antônio Egídio Martins, op. cit., T, pag. 138.
D. P. Kidder, Reminisccncms de Viagens e Permanên- cia no Brasil, I, pag. 191.
Anais da Assembleia Legislativa Provincial de São Paulo (1835-1836), pag. 17.
^■^ Antônio Egídio Martins, op. cit., 1, pag. 139.
534
ERNÂNI S I I. V A BRUNO
rante todo o decorrer do século passado — nos relató- rios dos governos da província. No ano de 1844 o governador Sousa Melo escrevia a respeito dêle: "De- senhado sóbre um terreno vasto e perfeitamente unido, ornado com deliciosas aléias de árvores tanto exóticas quanto indígenas, e de grande variedade de arbustos e de flores, o Jardim Público oferece aos habitantes de nossa capital um lugar de descanso, onde os mesmos se acostumam a sentir todo o valor das belezas da natureza"^^. O viajante Greene Arnold, nesse tempo, escreveu que o Jardim paulistano era grande mas incompleto., embora formosamente projetado com um lago em forma de Cruz de Malta no centro^^. Nessa época ou pouco depois estavam a serviço do parque um feitor e cêrca de oito africanos livres como em- pregados^''. Em 1852, além de uma grade de ferro colocada na sua frente, foi enriquecido não só com uma coleção de sementes de cinqiienta qualidades e cento e vinte e duas mudas de plantas exóticas e indígenas, como também com uma coleção de novas plantas e flores compradas no Rio de Janeiro^\ Mas ainda em 1855 estavam cultivadas apenas três quartas partes de sua área, não sendo possível consertar a restante "a fim de se tornarem simétricas as suas disposições", por falta de recursos^'. Bernardo Gui- marães, em um de seus romances, pôs estas referên- cias desfavoráveis ao Jardim paulistano nessa época, na
S8 Aftais da Assembleia Legislativa Provincial de São Paulo (1844-1845), pag. 83.
Samuel Greene Arnold, op. cit., pag. 104. Almanaque Administrativo, Mercantil e Industrial da Província de São Paulo para o ano de 1857, pag. 85.
Relatório do presidente da província Nahnco de Araújo em 1852, pag. 32.
^2 Relatório do presidente da província José Antônio Sa^ raiva em 1855, pag. 29.
À
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 535
bóca de um personagem é verdade que insatisfeito de tudo : "Deixemos êsse recanto que não inspira prazer nem melancolia, saudade nem esperança; deixemos êsse lago lodoso e pútrido, essa mísera aléia de oli- veiras que não dão flor nem fruto, essas palmeiras raquíticas . . . "^^
O Jardim Público da Luz foi desfalcado de parte de suas terras em 1860. O capitão Antônio Bernardo Quartim, então seu inspetor, cumprindo ordens do go- verno, fêz entrega à Companhia Inglesa de vinte braças de terreno da frente ao fundo, para ser cons- truída ali a estação da estrada de ferro. Essa con- cessão — escreveu Antônio Egídio Martins — pre- judicou muito a simetria do velho logradouro, modi ficando a disposição de suas ruas e forçando a des- truição de enorme quantidade de arvoredos®*. Nessa época — em 1862 — o viajante Houssay achou que êle se chamava impròpriamente Jardim Público: "Ja- mais encontrei alguém ali que não fôsse o seu velho jardineiro alemão"®^. Conspirava contra o Jardim. PúbHco — como se dizia em um relatório de 1866 — o fato de que êle fôra feito sôbre uma área que se ressentia de esterilidade e não podia ser regada con- venientemente. Além disso não dispunha de trabalhos de arte e embelezamento que atraíssem a concorrência da população^^. Entretanto foi melhorado alguns anos depois. Em 1869 o govêrno da província fêz reconstruir as paredes de seu lago e cimentar tôda a sua superfície superior. Levantar o extremo do
Bernardo Guimarães, op. cit., pag. 11. ^'^ Antônio Egídio Martins, op. cit., I, pags. 142-143.
Frédéric Houssay, De Rio de Janeiro a São Paulo,
pag. 5.
Relatório do presidente da província João da Silva Carrão em 1866, pag. 21.
536
ERNÂNI SILVA BRUNO
encanamento que despejava sôbre êle, substituindo-se o cano bruto de pedra por uma cabeça de leão. Re- construir a escada, que ficou transformada no centro em pequena cascata, desdobrando-se sôbre um tanque também reconstruído e em cujos lados foram edifica- dos dois assentos de tijolos. E reconstruir os pedes- tais das estátuas^^ Na mesma ocasião foi construído no centro do lago uma ilha sôbre a qual se colocou uma casinha rústica para servir de abrigo às aves aquáticas. Consertaram-se as grades e o portão de ferro. Levantou-se em diversos pontos o muro que fechava o logradouro, para impedir a sua invasão por bichos®^. Por bichos e também por malfeitores, c[ue ali entravam de noite carregando às vêzes plantas preciosas^®.
De meados do oitocentismo dataram também pre- ocupações do poder municipal com relação à arboriza- ção de ruas e praças da cidade. Em 1845 propunha- se que nas entradas de vSantos, Brás, Luz e Tabatin- giiera se mandassem plantar árvores de pronto cres- cimento e grande ramagem, a distâncias convenientes, f azendo-se o mesmo no Campo dos Curros : f ormando- se no centro dêle um quadrado de árvores que ficassem a sessenta palmos das propriedades que havia em volta^°°. Três anos depois estabeleciam-se multas para as pessoas que de qualquer modo danificassem as árvores plantadas nas ruas, praças e aterrados^"^. Para plantar nas margens do aterrado do Carmo e
AiTtônio Egídio Martins, op. cit., I, pag. 140. Antônio Egídio Martins, op. cit.. I, pag. 140. Relatório do presidente da província Antônio Cândido da Rocha cm 1870, pag. 47.
Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XXXV, pags. 203-204.
Atas da Câmara Municipal de Sãu Paulo. XXXVII,.
pag. 32.
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 537
em outros lugares, a Câmara recomendava em 1861 que os fiscais da cidade tivessem muito cuidado com as mudas das figueiras arrancadas da Luz para constru- ção da estrada de ferro^**^. Talvez nem sempre se fizessem essas primeiras tentativas de arborização sem resistência. Ainda em 1858 uma comissão da Câmara alegava que não devia ser feita a plantação de árvores projetada para a rua do Piques porque muitos dos proprietários se opunham a ela. com o fundamento de que embaraçava a vista de suas casas e dava lugar a acidentes desagradáveis^ Mas em 1869 a Câmara aprovava indicação importante relativa à ar- borização dos largos principais c de uma rua da ci- dade. "Sendo um embelezamento adotado hoje em quase tôdas as cidades a arborização das praças, largos e ruas espaçosas, concorrendo também para a salubri- dade pública", dizia-se em uma ata desse ano, pro- punha-se que se plantassem árvores nos largos do Carmo, do Palácio, de São Bento, de São Francisco, e rua do Rosário (Quinze de Novembro) entre Boa Vista e travessa da Quitanda. Árvores de boa qua- lidade — acrescentava-se — plantadas com intervalos não menores de vinte palmos^°*.
^"2 Atas da Câmara Municipal de São Pando, XXXVII, pag. 87.
Atas da Câmara Municipal de São Paião, XLIV,
pag. 20.
Atas da Câmara Municipal de São Paulo, LV, pags. 262-263. A arborização dos largos devia na época ser quase uma novidade na própria Côrte. Ainda em 1858 o viajante Charles Ribeyrolles, no Rio, eítranhava que o largo do Paço f ôsse um lugar árido e calcinante, sem qualquer arbusto ; que no largo do Rocio vegetassem apenas algumas plantas enfeza- das e que o Campo da Aclamação — podendo comportar dois "squares" londrinos — fôsse desnudo como um deserto afri- cano. (Charles Ribeyrolles, op. cit., I, pag. 154).
538
ERNÂNI SILVA B R i; N O
Foi por outro lado no período de 1828 a 1872 que essas ruas e êsses largos paulistanos tiveram os seus primeiros ensaios de iluminação. Em 1829 o governo da província punha à disposição da Câmara vinte e quatro lampiões "que já se achavam colocados nas vias públicas e mais alguns, que estavam sendo con- cluídos no Trem Nacional"^"^ Mas logo em seguida o procurador da Câmara acusava ter recebido apenas oito desses lampiões^^^. O problema era acima de tudo de carência de recursos. E resolveu-se no mesmo ano que enquanto a Câmara não tivesse um rendi- mento especial para a iluminação pública, o fiscal entrasse em entendimentos com alguns moradores da cidade para ver se êles queriam se encarregar de conservar os combustores acesos^"^. Foi então — se- gundo Nuto Santana — que cinco lampiões de vidros encardidos, com maus pavios alimentados com azeite ruim — às vezes o de mamona, outras vêzes o de peixe — foram pendurados nas paredes de alguns edifícios. E os próprios moradores dessas casas eram encarregados de acender, limpar e conservar êsses primeiros combustores^"^ cujo aspecto Francisco de Assis Vieira Bueno fixou assim : "Uma enorme ge- ringonça de ferro, pregada na parede de uma esquina, estendia por cima da rua um longo braço em cuja extremidade estava pendurado um lampião". A luz deles — ainda de acordo com a evocação de Vieira Bueno — difundia uma claridade mortiça que só alu-
^^'^ Atas da Câmara Municipal dc São Paulo. XXIV, pag. 390.
'"^ Atas da Câmara Municipal de São Paulo. XXV, pag.
163.
Atas da Câmar.a Municipal dc São Paulo, XXIV,
pag. 486.
108 l\T^^tQ Santana, op. cit., III, pag. 21.
8 — 2.» Tradições
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 541
miava nm pequeno espaço, projetando longas sombras movediças quando o vento balançava os lampiões : "As noites eram pois trevosas, quando não havia lua, acon- tecendo algumas vêzes pisar-se em sapos que ocultos durante o dia nos quintais, de noite vinham para a rua tratar da vida, saindo pelos canos de esgoto das águas pluviais. Miríades desses batráquios povoa- vam o Anhangabaú e do outro lado o Tamanduateí e os charcos de suas várzeas, e quem nas noites de calor estacionasse nas pontes do Lorena, do Acu e do Carmo, ouvia a sua tristonha e variegada orquestra, não sem encanto i)ara quem é propenso à melancolia"^/'^ Em 1830 sabc-se que o edifício da Cadeia Pública tinha quatro desses lampiões de azeite do lado de fora, deis no largo da Cadeia e dois para o lado da rua do Rêgo. Não se acendiam também nas noites de lua. Dentro do prédio candeeiros de cobre consumiam azeite de peixe, que era transportado de Santos em barris car- regados em lombo de burro. Também do litoral, em caixotes, procediam os vidros para êsses candeeiros^^''.'
Mas essa iluminação precária não satisfazia à Câmara, cujas atas de 1835 e 1836 revelam que o assunto estava sempre em foco embora não houvesse recursos para fazer coisa melhor^'^. Nem a Lei do Orçamento designava quantia alguma para a ilumi- nação pública' — dizia-se em uma ata — "como se tem feito em outras províncias"^^^ Afinal em 1840 o governo determinou que êsse serviço de iluminação pública da cidade fôsse feito por meio de cento e um
^•^^ Francisco de Assis \'ieira Bueno, loc. cit. 1" Nuto Santana, op. cit.. 11, pags. 84-85.
Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XXVIII,
pag. 16.
Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XXIX,
pag. 55.
542
E R N A X I SILVA BRUNO
lampiões de quatro luzes — o que a Comissão Per- manente da Câmara ainda achava insuficiente^^". Já no ano seguinte as autoridades da província orde- navam a entrega à Câmara dos lampiões que tinham vindo do Rio "com seus competentes ferros" para serem colocados nos lugares indicados, ou podendo o poder municipal propor as alterações convenientes^^'*. Re- solveu-se que se mandasse comprar também no Rio de Janeiro oito pipas de azeite tendo em vista um anúncio do Jornal do Comércio, de um artigo bom à venda na Praia do Peixe^^^. Estabeleceu por outro lado o poder municipal, como condições para arrema- tação do serviço de colocação de lampiões, que êles fossem colocados "em pés direitos de canela legí- tima, com grossura de gémeo em quadra de vinte palmos de largura"^^^. Começaram então os pedi- dos de moradores para que fossem removidos para outros lugares os lampiões colocados em suas pro- priedades. Entre êsses pedidos as atas da Câmara mencionam o do cónego Joaquim Carlos de Car- valho, da rua de Santa Teresa"^ ; o do coronel José Joaquim César de Cerqueira, da rua das Flôres^^^;
Atas da Câmara Municipal de São Pcfitlo. XXXIII, pags. 29-30 e 42-43.
Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XXXIII.
pp.g. 144.
Atas da Câmara Municipal dc São Paulo. XXXIIT, png. 190..
i''' Atas da Câmara Municipal dc São Paulo. XXXIII, pag. 159.
Atas da Câmara Municipal dc São Paulo. XXXIII,
pag. 180.
Atas da Câmara Municipal dc São Paulo, XXXIII, pags. 185-186.
J
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 545
O de dona Ana Joaquina Josefa de Abelho Forte^^^ e o de Inácio Joaquim da Silva. O pedido dêste último trazia a explicação dos demais : queria que o govêrno ordenasse a mudança do lampião para outro lugar pelos danos que êle fazia à parede de frente de sua casa na rua de São José^^^ Também pelo receio de ladrões. Em 1842 o cónego Joaquim Carlos explicava ao govêrno que a colocação de um lampião na esquina de sua casa punha em risco os objetos da Fábrica da Sé Catedral que estavam sob a sua guarda, "por facilitar a subida de ladrões pelos ferros para as janelas"^^^, E assim andaram os primeiros lam- piões paulistanos de um lado para outro. O designa- do para a casa do cónego Joaquim Carlos e deftois para a esquina do convento de Santa Teresa, o pre- sidente da província acabou mandando que f ósse pen- durado na mesma esquina, mas em uni poste de ma- deira^^l
Afinal depois de tódas essas mudanças — e de um ofício do administrador da iluminação pública fazendo ver que não eram apropriados pavios de fio de algodão torcido, mas sim uns pavios chatos que havia no Rio de Janeiro^^^ — foi dado início ao ser- viço no dia 27 de abril de 1842 "com alguns peque- nos transtornos" que seriam remediados com a expe-
Atas da Câmara Municipal de São Paulo. XXXIV,
i.ap. 53.
Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XXXIV,
pag. 111.
Citado por Nuto Santana, op. cit., III, pag. 178. Atas da Câmara Municipal de São Paulo. XXXIV,
pag. 6.
12^ Atas da Câmara Municipal dc São Paulo, XXXIV, pags. 32-33.
546
E R X A N I SILVA BRUNO
riência^-'*. Entre êsses transtornos notava-se por exemplo que havia demora em acender os lampiões, falta de limpeza em alguns e que outros apareciam acesos ainda de manhã^"^. Além disso caiu logo o da portaria de São Francisco e foi preciso que êle fôsse de novo colocado com ganchos de ferro "ou de qualquer maneira que seja mais segura"^^^. Por outro lado ocorrências de momento influíram nessa ilumi- nação das ruas em seus primeiros tempos. Em 1842 — por causa da chamada Revolução Liberal — o governo da província mandou que a Câmara fizesse conservar a iluminação por tôda a noite "durante o estado perigoso da- Capital"^'^ E em 1846 um. vereador sugeriu que se- oficiasse ao govêrno da pro- víncia para mandar colocar seis lampiões na fregue- sia-do Brás, pois a Imperatriz, em visita a São Paulo^ dev:ia se hospedar na chácara de Dona Gertrudes^^^.
Sabe-se que no ano seguinte — em 1847 — a Câmara Municipal de São Paulo fêz um contrato com AfonsQ Milliet — que desde' "há alguná anos tinha unia fábrica de gás hidrogénio na cidade — pelo qual a iluminação das ruas passava a ser feita a gás hidro- génio líquido durante cinco anos, por meio de cento e sessenta lampiões. Cada um déles precisava ter quatro orifícios luminosos e a luz devia ser mantida à noite tôda, menos nas horas em que a lua estivesse
124 ^fas da Câmara Municipal dc São Paulo, XXXIV. pag. 55.
Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XXXIV,.
pag. 60.
Atas da Câmara Municipal dc São Paulo, XXXIV,
pag. 85.
Atas da Câmara Municipal dc São Paulo, XXXIV,.
pag. 70.
'-^ Atas da Câmara Municipal dc São Paulo, XXXVI. pag. 1 9
61 — Rua da Imperatriz (Quinz.e de Novembro), à noite, em 1862. (Quadro de Wasth Rodrigues — Museu Paulista).
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 549
aparecendo^-^ Dêsse tempo conhece-se uma impres- são — é verdade que excessivamente "literária" — do aspecto noturno da cidade, deixada por Álvares de Azevedo. O poeta, voltando do bota-fora de m\\ amigo que viajara para Santos, havia cruzado a bai- xada da Glória, a caminho da cidade, já de noite: "Além, lá longe, se levantava a cidade negra; e os lampiões, abalados pela ventania, pareciam êsses me- teoros efémeros que se levantam dos paludes . . . Mas era realmente uma luz efémera e fraca a dos lampiões paulistanos désse tempo. Em 1853 refe- riam-se ainda as atas da Câmara ao mau estado da iIuminação^^\ No ano seguinte uma nota publicada no Correio Paulistano — fazendo referência a pessoas que andavam "às marradas pelo escuro" — acen- tuava a precariedade da iluminação das ruas paulis- tanas nessa época, lembrando o caso de um viajante que procedente de Santos "andou a noite inteira per- dido pela cidade sem achar saída", não podendo pros- seguir, senão no dia seguinte, sua viagem no rumo de Jundiai^^^. E em um relatório do govérno pro- vincial dêsse tempo — em 1856 — fazia-se referência ainda à grande distância em que se colocavam um do outro os lampiões, "de modo que apesar de darem êles boa luz", ficavam largos espaços no escuro, o que
Antônio Egídio Martins, op. cit., II. pags. 179-180. Sabe-se que nes-e mesmo ano de 1847 rejeitoií-se no Rio de Janeiro uma proposta no sentido de que a cidade fôsse ilumi- nada por meio de gás hidrogénio líquido, dizendo-se que o sistema era conhecido na Europa para usos domésticos, mas não para iluminação pública devido aos perigos que podia acar- retar. (C. J- Dunlop, Apontamentos para a história da ihmii- nação da cidade do Rio de Janeiro, pag. 7).
130 Alvares de Azevedo, op. cit., II, pag. 476.
Atas dã Câmara Municipal de São Paulo, XL, pag. 94.
Correio Paulistano d? 28 de junho de 1854.
550
ERNÂNI SILVA BRUNO
se fazia ainda mais sensível em certas rtias^^^. Em 1860 já existiam todavia ims duzentos lampiões para iluminação das vias públicas de São Paulo. Muitos
— como a gente pode ver em gravuras da época — ainda presos nas paredes das casas pelas tais gerin- gonças; outros, colocados no alto de acanhados postes de madeira; e também alguns — por certo os mais recentes — em cima de postes de ferro de feitura mais elegante. Postes que desde há alguns anos os poderes municipais procuravam defender de certos abusos de moradores ou de tropeiros. Conhece-se uma recomendação da Câmara em 1852 proibindo que cavaleiros ou condutores de tropas deixassem seus animais atados a êsses postes de lampião de rua^^^. Mas com todos êsses cuidados a iluminação era . pobre no centro e quase inexistente nos bairros, disBOf idando bem uma idéia a evocação feita por Afonso Schmidt falando do sobrado que havia na esquina da praça João Mendes com a antiga rua da Fòrca (Liberdade). Os pauHstanos que vinham do Quebra-Bunda ou mesmo da Pólvora costumavam deixar ali as lanternas de que se serviam. Tôdas as noites a entrada do sobrado ficava cheia delas. E o dono da casa deixava na porta uma lata de azeite e uma caixa de " joncopingues" : quem quisesse podia se servir à vontade^^^. Mesmo as ruas do centro — e não apenas essas que conduziam aos arrabaldes
— eram mal alumiadas, e em 1862 anotava Teodomira Alves Pereira na sua Vida Académica que era frouxo, baço e enfraquecido o clarão dos lampiões paulistanos,
Relatório do vice-presidente 'da província Antônio Ro- berto d' Almeida em 1856, pag. 21.
^•^"^ Citado por Nuto Santana, op. cit., IV, pag. 83.
^•^^ Afonso Schmidt, ".A.inda São Paulo em 1860", A Tribuna, Santos.
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 551
sobretudo nas noites de neblina^^^. Foi nesse tempo que Camilo Bourroul propôs iluminar São Paulo com azeite resinoso fotogênico, pelo espaço de dez anos^". Em 1863, no entanto, o governo da província con- tratou com Francisco Taques Alvim e José Dutton a iluminação a gás da cidade^^^. Melhoramento c[ue só viria porém em 1872.
Teodomiro Alves Pereira, op. cit., II, pag. 35. Antônio Egidio Martins, op. cit., II, pags. 181 e se- guintes.
Antônio Egídio Martins, op. cit., II, pag. 59.
Ill — NO RETIRO DAS CHÁCARAS
J
_^^inda que timida- mente e de for- ma bastante irregular cresceu a área da ci- dade de São Paulo no período de 1828 a 1872 em consequência das repercussões que sôbre a existência da capital da província tiveram o pequeno ressurgimento económico do an- tigo "país dos paulistas", a partir de fins do setecen- tismo, e o estabelecimento da Academia de Direito. O núcleo urbano, que pouco ultrapassava no comêço do século dezenove os limites do "triângulo" tradi- cional, foi se ampliando em algumas direções, for- çando o recuo das chácaras e dos matagais que do- minavam até então certas zonas circunvizinhas. O acréscimo de população impôs então o retalhamento das terras de algumas dessas chácaras para formação de ruas e de largos ou edificação de casas. Ganha- ram ao mesmo tempo feição mais acentuadamente
— 2." Tradições
556
E R X A N I SILVA BRUNO
urbana bairros que até o coniêço do oitocentismo se caracterizavam antes de mais nada com áreas toma- das só pelos sítios e as casas de campo. Êsse cres- cimento da área da cidade se acentuou mais particu- larmente ainda a partir de meados do século passado, quando o poder municipal já era forçado a fazer pressão sòbre particulares no sentido de que fossem imediatamente aproveitadas as terras abandonadas existentes dentro do rocio ''da meia légua". Ruas novas se abriram então em várias zonas da cidade ao mesmo tempo que se tornava mais compacto o seu núcleo central. Abriu-se a rua Vinte e Cinco de Março, sóbre locais em parte ocupados antes pelo leito da Tamanduateí. Desenhou-se a rua General Carneira comunicando a várzea desse rio com a zona central da povoação. Esboçou-se o desenvolvimento do bairro do Brás. E do outro lado da cidade abriu-se a rua Formosa comunicando o Acu com o Piques. Coma êsse crescimento urbano foi no entanto muito irre- gular, desenvolvendo- se apenas em algumas direções. restaram zonas de matagais e de chácaras às vêzes quase encostadas ao próprio núcleo central da cidade. No Chá e em outras áreas muito próximas ao centro, por exemplo, ainda na segunda metade do oitocentismo se caçavam perdizes, cabritos e até pobres escravos fugidos que se aquilombavam em suas barrocas.
Apesar disso foi sensível a transformação da área urbana e da área semi-rural da cidade durante o período compreendido pelo segundo e o terceiro quartéis do século dezenove. Evocando o 1830 pau- listano escreveu Francisco de x\ssis Vieira Bueno que o corpo mais compacto da cidade ocupava longi- tudinalmente o planalto da colina cuja escarpa des- cambava a leste para o Tamanduateí e ao poente para o Anhangabaú, acaliando para o sul no largo da.
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SAO PAULO 559
chácara dos Ingleses (largo São Paulo), no cemitério (em tôrno da capela dos Aflitos) e no campo da Forca (largo da Liberdade) e para o norte no convento de São Bento. "Fora dessa área havia somente es- galhos muito irregulares, formando arrabaldes desi- gualmente povoados ao poente e ao norte"\ Esta- vam ainda cobertos de mato e de capoeiras — escreveu o mesmo cronista — todo o terreno compreendido entre o Tamanduateí e a rua da Tabatingúera, a mar- gem esquerda dêsse rio, da ponte do Carmo para baixo e, do outro lado da cidade, tôda a área de ter- reno mais tarde chamada Morro do Chá^. Mas pre- cisamente nessa época evocada por Vieira Bueno — e sobretudo por causa do acréscimo de população decor- rente da instalação do Curso Jurídico — a cidade tendia a se estender sobre algumas dessas áreas co- bertas de matagais e a retalhar em ruas e praças públicas os terrenos de algumas chácaras que ainda se esparramavam em suas imediações. Em algumas atas da Câmara, no ano de 1829, já se refletia essa tendência^. Entretanto ainda na terceira década do século passado — em 1836 — o presidente da província dirigiu um ofício à Câmara Municipal di- zendo: "Tendo a Assembléia Provincial resolvido que a Câmara desta cidade seja ouvida sobre a con- veniência da alienação dos terrenos que estão como depósitos insalubres do lado esquerdo das descidas das pontes do Carmo e do Acu, com obrigação de deixar-se nesta última um portão para a servidão
^ Francisco de Assis Vieira Bueno, "A Cidade de São Paulo", Rev. do Centro de Ciências, Letras e Artes, Campi- nas, Ano II, n.°s 1, 2 e 3.
2 Francisco de Assis Vieira Bueno, loc. cit.
^ Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XXIV, pags. 397 e 450.
560
ERNÂNI S 1 L \' A l; R U N O
pública, junto à primeira casa da rua Nova de São José, se parecer conveniente, (jrdeno que informe a tal respeito"^ Na ponte do Acu — popularmente conhecida pelo nome de "ponte do cisqueiro" — ob- servou José Jacinto Ribeiro que foi efetivamente co- locado o portão separando a cidade do campo. ( "ampo onde hoje ■ — escrevia em fins do século o aiiti-r da Cronologia — estão situadas as ricas freguesias de Santa Ifigênia, Santa Cecília, Consolação^. Tôda a chamada Cidade Nova.
Os largos de São Bento, do Carmo e a ladeira — reafirmava Martini Francisco referindo-se apro- ximadamente a 1840 — eram o fim da cidade e o começo dos arrabaldes. "Nestes raras vezes duas casas avizinhavam-se por completo. Os muros abu- savam do direito de não pagar impòsto". Fora da cidade, só a Consolação, caminho dos viajantes que demandavam Itu e Campinas ou dali chegavam — acrescentava êle — revelava alguns traços de vida pró- pria*. Dá bem uma idéia da pequenez da cidade em mea- dos do oitocentismo — em vista de seu crescimento de depois — a frase dita por um personagem do drama de Paulo Eiró, Sangue Limpo: " . . .e de São Bento à Cruz Preta não é um pulo". "O trecho nos mostra — comen- tou José A. Gonçalves — que os antigos paulistanos não tinham o hábito de andar a pé: consideravam uma caminhada penosa ir de São Bento (rua ou largo) à rua da Cruz Preta (Quintino Bocaiúva) Evi- dentemente porque na época o trajeto ( provàvelmen-
José Jacinto Kil)eiro. Crowalogia Paulista. T, pag. 418. ^ José Jacinto Ribeiro, op. cit._. I, pag. 418. ^ Citado por Iístê\'ão Leão líourroul, Hércules J-lorcncc. pags. 11-12.
' Paulo liiró, Saiiç/iic Limpo. jiag. 64, e José .A. Gonçal- ves, "Nota^ ao drama Sangue Limpo", pag. 106.
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 563
te do largo de São Bento à rua Quintino Bocaiúva) equivalia a atravessar a cidade (ou a sua zona povoa- da mais densamente) quase de um extremo ao outro. Entretanto particularmente nas vizinhanças da metade do século o desenvolvimento da população reclamava novas ttrras para edificação, e o aproveitamento das áreas mais próximas do núcleo urbano. Em 1846 a Câmara resolveu que se avisasse a tôdas as pessoas que tivessem terrenos dentro da "meia légua" e que se achassem abandonados, de que perderiam os seus direitos em relação a essas terras se elas não fossem edificadas ou cultivadas no prazo de três meses^
Nesse tempo a zona do Carmo reafirmava a sua tradição de área fidalga, por certo fortalecida pela situação da rua do Carmo: entrada da cidade para os que procediam do Rio de Janeiro, com as comuni- cações se tornando mais frec[úentes. Moravam nela familias importantes de São Paulo. E também o "Matemático", personagem curioso cujo prestígio, na observação de Nuto Santana, deve ter nascido do fato de ser então um dos poucos conhecedores da ciência dos números na cidade. Emprestou seu nome à rua da Tabatingúera, que chegou a ser conhecida como Rua do Matemático^ Local sem prestígio era ali perto a várzea do Carmo : destinava-se ao despejo das imundícies. Ainda em 1859 a municipaHdade man- dava que se fizesse o atêrro e o calçamento do beco do Colégio para facilitar a descida dos que precisavam de carregar lixo para a várzea^'*. Mas nesse mesmo ano a Câmara procedia à demarcação da rua que s'j resolvera abrir da Ponte do Carmo ao pôrto de São
8 Atas da Câmara Municipal dc São Paulo, XXXVI, pag. 80.
^ Nuto Santana, São Paulo Histórico, V, pag. 97. Nuto Santana, op. cit., III, pag. 87.
564
ERNÂNI SILVA B R U N O
Hentíj. pela margem esquerda do rio: a futura rua \'inte e Cinco de Março^\ Alguns anos antes abrira - se uma rua através do quintal do palácio, dando para o Tamanduateí : a General Carneiro^-. "Quando Fer- reira de Meneses. Varela e Castro Alves — escrevia em 1890 o jornalista Eugênio Leonel — decantax am em noites claras as belezas do céu paulista", junto do legendário Tamanduateí, sua margem esquerda era quase deserta: algumas casas na ladeira da Taba- tingúera e nada mais. A rua do Hospício não existia. Só havia ali, além do casebre que depois lhe deu (; nome. uma montanha de saibro. "Também desabi- tada era ainda a parte compreendida entre o reco- lhimento dos loucos e a rua dos Carmelitas"^^
Foi também só a partir de meados do século passado que começou a se desenvolver o bairro do Brás, conhecido antes por diversos nomes — escreveu Nuto Santana — sendo que o que absorveu os outros foi o de José Brás, reconstrutor da capelinha do lugar Sempre sitiado pelas cheias do Tietê e do Tamanduateí foi durante muito tempo apenas a es- trada de São Paulo para a Penha — observou Afonso A. de Freitas — com a chácara da Figueira em um extremo e a do Tatuapé no outro^^. O longo caminho do aterrado, que partia em direção a êle, se desdo- brava através da várzea como uma gigantesca "boa" na comparação do Barão de Paranapiacaba evocando
" Atas da Câmara Municipal dc São Paulo. XXX\'II, pa-. 140.
Antônio Egídio Martins. São Paulo Antigo, I, pags.
131-132.
Kugénio Leonel. Notas a Lápis, jiags. 20-21. Nuto .Santana, op. cit., II, pags. 294-295. Afon.so A. de Freitas, Tradições c Rcininisccncias Pau- listanas, pags. 16-17.
ca ^
5 B <
Pi cu.
o .2 o. o
À
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE Slo PAULO 567
São Paulo em 1839'^ Mas visto do Carmo o bairro do Brás — a sugestão foi de Bernardo Guimarães em um de seus romances — era encantador: "A capela de São Brás, com seu campanário branco, e aquelas casas dispersas pela planície, exalam um per- fume idílico que enleva a imaginação"". Em 1846 cogitava-se já de mandar levantar uma planta topo- gráfica dêsse bairro e da várzea do Carmo, com- preendendo tôdas as pontes, cercados e propriedades, ruas, aguadas, brejos, alagadiços, pedreiras, caminhos, quintais, chácaras — a fim de que com base nesse trabalho a Câmara pudesse mandar demarcar arrua- mentos e praças^^. Muitas casas começaram a se edificar em seguida à margem da estrada da Penha. Salientava-se na Câmara em 1857 a necessidade ou a conveniência de se aperfeiçoar a estrada até a fre- guesia da Penha, de modo c[ue servisse para trânsito fácil e seguro de seges e outros veículos semelhantes^^. A construção da estrada nova — empreendimento que estava quase concluído em 1864, segundo relatório do vice-presidente da província — prometia que "em
Citado por Almeida Nogueira, A Academia de São Paulo, III, pag. 4.
Bernardo Guimarães, Rosaura, a Enjeitada, pag. 12. 18 Atas da Câmara Municipal de São Paido, XXXVI, pag. 54. "Planta topográfica — dizia-se nas atas — da var- gem do Carmo e Brás, principiando fronteiro ao Pavilhão, se- guindo pelo leito do Tamanduateí por êle abaixo ao Tietê e por êste acima a confrontar as divisas da Freguesia do Brás com as da Penha", "reservando-se as aguadas, pedreiras e terrenos montuosos para suas terras, quando cavadas, serem aplicadas aos entulhos da vargem e construção de edifícios a bem público e então conceder-se cartas de datas para aumento e beleza do Município."
1' AtcLS da Câmara Míinicipal dc São Patdo, XLIII, pag. 150.
1
568
E R X A XI SI L \- A lí R U X O
futuro não remoto ficará unia rua até a ig-reja da Penha, muito concorrida pela grande devoção de fiéis"-". r\Ias ainda no ano seguinte dizia-se, nas atas da Câmara, (jue a povoação do Brás não era nume- rosa nem industri()sa-\ E na mesma época — segundo evocação de Alfredo Moreira Pinto, em 1900, relem- brando seus tempos de estudante em São Paulo mais de trinta anos antes — o Brás, a Moóca e o Pari eram povoados insignificantes, com algumas casas de sapé que medrosamente se erguiam no meio de matagais espessos. E a várzea do Carmo lugar escolhido para caçadas de cabritos-^ Como antes fôra local de ca- çadas de frangos-d'água^'^.
Também outros bairros se mantinham desertos e silenciosos em meados do oitocentismo : a Estrada Vergueiro, os Campos Elíseos e o próprio Chá, no centro da cidade, e só em 1855, em terrenos da chácara do Cadete Santos, foi que a Câmara mandou abrir a rua Formosa, "rua que continuando a do hospital — dizia em 1853 o jornal O Compilador — pela margem esquerda do Anhangabaú, em terreno do senhor co- mendador Santos Silva, vá sair ao lado da ponte do Lorena, onde indicar a reta, a fim de comunicar mais comodamente o Acu com o Piques"^^. Era uma ne- cessidade premente na época, e o Correio Paulistano assinalava : "... esse lugar de grandes transações do mercado [o Piíiues], ponto de chegada de grandes tropas que vêm do sul e interior da província, acha- co Citado por Antônio Egidio Martin.s, op. cit., IT, pag. 31. 2' Atas da Câmara Municipal de São Paulo, LI, pag. 14L 2- Alfredo Moreira Pinto. A Cidade de São Paulo em mo, pags. 7, 8 e 9.
2^ Almeida Nogueira, op. cit., VII, pag. 130.
Citado por Afonso A. de Freitas, A Imprensa Perió- dica de São Paulo, pag. 118.
1
HISTORIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 571
•se separado de uma bela porção da cidade, igualmente povoada e concorrida, por um terreno estéril e inútil. Queremos dizer que o habitante do Piques que quiser ir para o lado da Luz, isto é, a freguesia de Santa Ifig-ênia, ou há de atravessar esse desfiladeiro esca- broso que se chama rua Nova de São José ou de galgar esse penhasco que se chama ladeira da rua da Palha"^^ Nos próprios campos do Bexiga, abran- gendo todas as terras localizadas entre a rua da Con- solação e a rua de Santo Amaro, ainda em 1870 se caçavam veados, perdizes e até escravos fugidos^®. Grandes chácaras circundavam, por êsse lado, a cida- de^'. Por êsse e pelos outros. Uma das chácaras pau- listanas da primeira metade do século dezenove — essa distante do centro, porém — o reverendo Kidder visitou quando esteve em São Paulo: a do coronel Anastácio — Anastácio de Freitas Trancoso — com a sua plantação de chá. Foi dela que se originou o bairro do Anastácio^*.
Outras ficavam muito mais próximas do centro. Morando em 1847 em uma chácara da rua dos Bambus (trecho da Visconde do Rio Branco) dizia em carta ao pai o conselheiro Albino José Barbosa de 'Oliveira : ^'A casa onde moro é excelente e a chácara muito bem plantada de horta e jardim, árvores frutíferas, água dentro, étc, porém como está fora da cidade e as estradas não são calçadas, acontece que quando
Correio Paulistano de 18 de julho de 1854.
26 Afonso A. de Freitas, Tradições e Reminiscências Paulistanas, pag. 11.
27 Antônio de Góis Nobre, Esboço Histórico da Real e Benemérita Sociedade Portuguesa de Beneficência em São Paulo, I, pags. 16 e 23.
- 28 ]3_ p_ Kidder, Reminiscências de Viagens e Permanên- cia no Brasil, I, pag. 207.
ao — 2.» Tradições
572
ERNÂNI SILVA BRUNO
chove fica tudo intransitável. Não se vê um só ves- tígio de gente. Ontem vi um cabrito na rua. Hoje nem isso. Apenas ouço o cantar dos pássaros e o chiar das cig•arras"^^ Um ambiente perfeitamente rural. Do outro lado da cidade a chácara da Glória, além do córrego Cambuci, em 1852 já estava em ruí- nas, "o prédio com as paredes descobertas — escreveu o viajante Június — a pleno ar, metade caídas, e as da antiga capela, que parecia ser a peça mais impor- tante daquela casa, apresentando aos olhos do visi- tante os restos ou pedaços dos grandes quadros nela pintados"^". Ainda outras chácaras ficavam quase encostadas ao núcleo urbano central. Em 1848, quan- do se procedeu à demarcação e ao alinhamento de terrenos suficientes para o alargamento da rua que corria sobre o paredão do Piques até a esquina do beco de São Luís, falava-se em entendimentos com os do- nos das "chácaras contíguas"^\ Em 1860 Zaluar escrevia na sua Peregrinação pela Província de São Paulo: "Entramos em São Paulo pelo lugar cha- mado Brás. É um dos arrabaldes mais belos e con- corridos, notável pelas suas chácaras onde residem muitas famílias abastadas"^l Com casas-grandes abarracadas "ao gosto paulista", como escreveu José de Alencar em um de seus romances, descrevendo uma chácara extensa que ficava "em um dos mais pitores- cos arrabaldes da capital de São Paulo": o Brás^^
29 Albino José Barbosa de Oliveira, Memórias de um Magistrado do Império, pags. 182-183.
Június. Em São Paulo — Notas dc Viagem, pags. 140-141."
Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XXXVII,
pag. 28.
■'2 Emílio Zaluar, Peregrinação pela Província de São Paulo. ])ag. 136.
José de Alencar, SonJios d' Ouro, II, pag. 233.
PQ <
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 575
Talvez ainda então chácaras enormes como aquelas a que muitos anos antes se referia um anúncio do jornal O Farol Paulistano, Ficavam na freguesia "do senhor Bom Jesus do Brás",- com muitas terras e até mato virgem, "pasto para alguns animais e bom curral de gado, fechado"^^.
As chácaras todavia foram se desmanchando, so- bretudo a partir de meados do oitocentismo, com a expansão da cidade em várias direçÕes e a urbanização de algumas zonas suburbanas. Em áreas onde antes só havia chácaras, com as suas plantações de horta- liças, de frutas e de chá, foram se desenhando ruas. É verdade que ruas ainda com jeito mais de estradas : com casas muito isoladas umas das outras, habitadas por gente pobre ou servindo de sede para repúblicas de estudantes. Algumas delas Ferreira de Resende retratou nas suas memórias (1849-1855) : a da Palha (Sete de Abril), a dos Bambus (trecho da Visconde do Rio Branco) e a que passava pelos fundos da igreja de Santa Ifigênia (trecho da futura avenida Ipiranga)^^, todas à esquerda do Anhangabaú. Em 1856 dizia-se na Câmara que a suspensão da distri- buição de terras urbanas, desde 1854. tinha sido muito prejudicial ao progresso e engrandecimento da cidade porque era incalculável o número de edifícios que teriam sido construídos em seus arrabaldes se não tivesse sido a Câmara privada daquele direito. Dizia- se ainda que como em breve se estabeleceria a estrada de ferro na província, era preciso ceder ao povo os terrenos reclamados para edificações, pois com a ferro- via haveria afluência muito maior de gente. "É cer-
^'^ O Farol Paulistano, nP 410, de 2 de novembro de 1830.
^5 Ferreira de Resende, Minhas Recordações, pags. 252, 258 . e 2.S9.
576
ERNÂNI SILVA BRUNO
to que os terrenos compreendidos nos limites marcados na doação feita por Martim Afonso não são, e menos serão daqui a alguns anos, suficientes para as neces- sidades dos habitantes da cidade, e por isso pede a Câmara que além dêsses se lhe concedam os que forem precisos para perfazerem uma légua em redor da cidade, considerando como ponto central o largo da Sé^*'. É que ainda no período da existência da cidade decorrido entre os anos de 1828 e 1872 manti- veram-se de pé, com tôdas as suas terras, muitas chácaras localizadas nos bairros de Santa Ifigênia, do Bom Retiro, do Brás, da Consolação, da Liberdade, do Cambuci, da Moóca, do Pari, da Barra Funda, da Água Branca, de Higienópolis, da Vila Buarque. Em tôrno de 1860 ainda apareciam no Correio Paulistano anúncios como êste, de uma chácara para se vender na rua da Tabatingúera : "Vende-se uma rica chácara com boa casa de sobrado construída tôda de novo com pilares de tijolos, sita na rua da Tabatingiiera ... a qual tem muitos e bons arvoredos, de diversas quali- dades, como peras, maçãs, ameixas, grandes parreiras, etc, plantações de chá, capim e um grande pasto para animais, riquíssima água dentro"". Outras se tor- naram famosas pelos seus donos ou pela sua localização e foram fixadas pelos primeiros fotógrafos paulista- nos. A de Rendon, na Vila Buarque, por exemplo. A das Palmeiras, na zona em que se abriu mais tarde a Avenida Angélica. A Charpe, Mauá ou do Campo Redondo, nos Campos Elíseos, de que se conhece uma fotografia de 1870: uma casa de dois pavimentos, pi-
Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XLIV, pags. 198-199.
Correio Paulistano de 27 de março de 1860.
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 577
toresca e ampla, esparramada entre belas árvores. O sítio do Carvalho, na Barra Funda. A da Tabatin- gúera, na Glória, cuja casa baixa e acolhedora, com grandes abas, uma estampa de 1862 permite conhecer em sua feição dêsse tempo. A do Sertório, no futuro bairro do Paraíso. E as chácaras Bresser e Loskiel, no Brás, com seus muros de taipa cobertos de telhas sinuosas.
IV — CARRUAGENS E PONTES DE PEDRA
j^ij a fase da exis- tência da cidade balizada pelos anos de 1828 e 1872 acen- tuoii-se de modo geral a tendência que se observara dos primei- ros séculos coloniais ao setecentismo : ao passo que o 'transpor- ■ te fluvial tendia a se reduzir, em conseqíiência de su- cessivos e morosos trabalhos de retificação das cor- rentes de água — em 1849 desaparecendo mesmo a navegação no Tamanduateí por causa da retificação feita segundo o projeto Bresser — as comunicações por terra foram se intensificando até a instalação do primeiro caminho de ferro da província em meados do século dezenove. Com o crescimento do comércio, so- bretudo de açúcar, ganharam movimento notável êsses caminhos que irradiavam da cidade, e cresceram de importância os ranchos, as hospedarias e as pastagens da beira dêles. Com o acréscimo de população e o
582 ERNÂNI SILVA BRUNO
movimento maior de viajantes — entre os quais já estudantes de várias partes do Brasil — criaram-se até empresas de transporte que se encarregavam da condução de passageiros entre Santos e São Paulo peio velho Caminho do Mar. Caminho que — tal como ocorrera em fins do setecentismo — passou por uma porção de reformas e melhoramentos que fizeram parecer o "doce caminho" a que se referira Frei Gaspar da Madre de Deus uma picada perigosa como o diabo. Nas próprias ruas da cidade a movimentação constante de tropas de burro e também de carros de boi criaram problemas de trânsito que tiveram de ser enfrentados pelo poder municipal, embora as carrua- gens ainda em meados do século fossem tão raras que ainda chamavam a atenção, e só em 1865 aparecessem os carros de aluguel com ponto de estacionamento no largo da Sé. Nesse tempo o funcionamento da In- glesa — a primeira estrada de ferro — marcou o começo da decadência das tropas, dos caminhos e até de povoações e bairros que a êsse movimento primi- tivo deviam a sua vitalidade.
Pois o desenvolvimento de m.uitas zonas da cidade e seus arredores tinha sido condicionado, desde o co- mêço do século, em parte pelos caminhos antigos, como foi em seguida pelo caminho de ferro. É evidente que nos pontos por que passavam essas vias de Hgaçâo as atividades comerciais se condensavam dando origem a pequenos núcleos de população, às vezes em torno dós próprios ranchos ou pousos. A planta de São Paulo de 1800-1870, de Afonso A. de Freitas, assinalava a existência de um pouso ou rancho um pouco além da ponte do Ferrão, na futura avenida Rangel Pestana. De outro no Lavapés, à margem da estrada de Santos. De outro no Bexiga, e de outro ainda no Guaré. Existiu também — escreveu Nuto
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 583
Santana — um no Tatuapé, adiante do Belém, um pouco antes da Penha\ O do Bexiga e o do Lavapés observou Vieira Bueno que eram os mais freqiienta- ■dos por serem os procurados pelas tropas que passavam para Santos. O pasto do primeiro desses ranchos era "o do vasto, escalvado e acidentado campo do Bexiga" € o do segundo ficava na morraria localizada no Camíbuci, por detrás do ponto em que se abriu a rua Tamandaré^. ITavia ainda o rancho da Água Branca, extraordinariamente cómodo para os viajantes", se- gundo Saint-Hilaire^.
Permaneciam no entanto os caminhos que irra- diavam da cidade como no começo do século ou mesmo na era set^entista. A estrada de São Paulo para Jundiaí, por exemplo — dizia-se em um relatório de 1852, do govêrno da província — "pôsto que tenha sido melhorado com os atalhos do Monjolinho, Juqueri e Taipas, ainda bem longe está de ser sofrível: êsses mesmos atalhos ainda não estão perfeitos como devem ser porque apenas com a largura de quinze a trinta palmos êles não podem dar passagem fácil e cómoda ao avultado número de tropas que efetivamente tran- sitam por aquela direção"^. O Caminho dó Mar foi provàvelmente o que sofreu maiores transformações. Na terceira década do oitocentismo foi descrito por Kidder, que subiu de Santos por êle. Era ainda o ^'doce caminho" da referência de Frei Gaspar em
* Nuto Santana, São Paulo Histórico, I, pag. 40.
2 Francisco de Afsis Vieira Bueno, "A Cidade de São Paulo", Rev. do Centro de Ciências, Letras e Artes, Campinas, Ano II, nPs 1, 2 e 3.
^ Auguste de Saint-Hilaire, Viagem à Província de São Paião, pag. 164.
* Relatório do presidente da província Nabuco de Araújo -em 1852, pag. 64.
584
ERNÂNI SILVA BRUNO
carta ao governador Lorena. Antes de entrar na ci- dade pelo largo do Pelourinho (Sete de Setembro) passou Kidder pelo Hospital da Misericórdia, na an- tiga chácara dos Ingleses (largo São Paulo), "linda- mente colocado fora da cidade, em um lugar descam- pado"^. Era um sobradão alto e vistoso a sede da chácara, e perto dêle, do outro lado do caminho, ficava o cemitério formado em volta da capela de Nossa Senhora dos Afhtos. Antes de atingir a chácara dos Ingleses o viajante passou por outros lugares bas- tante conhecidos na época. Um dêles, o cruzamento do riacho Lavapés, cujo nome como se sabe se originou do fato de marcar o local onde os roceiros lavavam os pés para entrarem na cidade. Sabe-se que quando eram viajantes ilustres os que transitavam pelo Ca- minho do Mar em direção a São Paulo — particular- mente governadores ou bispos — a sua aproximação se anunciava por acenos, rojões e outros sinais dados por pessoas que ficavam na estrada e eram observadas por vigias do alto da tôrre da igreja da Boa Morte®. O templo da rua do Carmo, por sua posição, dominava tôda a baixada que se estendia a leste e ao sul da cidade. Em 1841 o brigadeiro Tobias verificou que era impossível a adaptação do velho Caminho do Mar para veículos. Mas fêz algumas reformas na estrada, abrindo uma nova picada. Em viagem que fêz nesse ano para Santos, cantou Vieira Bueno que ainda desceu a serra pela "estrada antiga" mas que na volta já pôde subir pela picada da "estrada da Maioridade, que se estava abrindo por iniciativa de Rafael Tobias". "Quando por alguma aberta avistava algum trecho da
^ D. P. Kidder, Reminiscências de Triagens e Permanên- cia no Brasil, I, pag. 251.
^ Antônio Egídio Martins, São Paulo Antigo, II, pag. 46.
J
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 587
•calçada da estrada velha — escreveu Bueno pa-
:recia-me um paredão a pique, tão íngreme era ela"''. Oferecia aliás constantes perigos essa estrada antiga, "aberta de tempos imemoriais", segundo o Barão á^ Paranapiacaba referindo-se à mesma época^ A êsses dois caminhos da serra se referiu também, alguns anos ■depois — em 1847 — o viajante Greene Arnold, es- crevendo: "o antigo está pavimentado e é melhor para o tempo chuvoso, embora seja muito empinado. O novo é pavimentado só em certos trechos e em outros macadamizado; é mais largo e menos empinado, mas está terrivelmente destroçado pelas chuvas"*. Árvo- res caídas e terra desmoronada ou profundos barran- cos com torrentes de água dificultavam o trânsito por êle. As vezes os cavalos se atolavam até a barriga^". Também observou a diferença notável entre o ca- minho antigo e o novo, em meados do século, o reve- rendo Fletcher. "Graças a uma previdente engenha- ria — observou o viajante americano — as subidas não são tão íngremes e com grandes despesas tôda a estrada foi macadamizada". Mas mesmo assim a su- bida era demasiadamente forte "para veículos pesada- mente carregados"^^. O que não impedia que. por êsse caminho transitassem por mês, em tôrno de 1858, além de cêrca de vinte e cinco mil bêstas, mais de -duzentos carros^^. O movimento fôra se tornando
^ Francisco de Assis Vieira Bueno, Autobiografia, pag. 13. ^ Citado por Almeida Nogueira, A Academia de São Paulo, III, pag. 3.
^ Samuel Greene Arnold, Viaje por América dei Sm (1847-1848), pag. 107.
Samuel Greene Arnold, op. cit., pags. 101-102. D. P. Kidder e J. C. Fletcher, O Brasil e os Brasileiros, 11, pag. 61.
^2 Relat&rio do presidente da província José Joaquim 'Fernandes Torres em 1858, pags. 26-27.
11 — 2.° Tradições
588
ERNÂNI SILVA BRUNO
cada vez mais intenso ao se aproximar a metade do oitocentismo como consequência do crescimento das atividades económicas da provincia, sabendo-se que o escoamento de sua produção se fazia sobretudo pelo pôrto de Santos. Em 1848 estabelecera-se mesmo no Zanzalá um registro verificador, que servia de bar- reira filial da do Cubatão^^ Mas apesar de ter passado o caminho, ainda mais tarde, por novos me- lhoramentos, feitos por iniciativa de Vergueiro em 1862 e em 1864^*, continuou a velha estrada de ligação entre o planalto e a m.arinha a ser um caminho terrível. Em seu livro Viagens de Outrora descreveu o Vis- conde de Taunay o que era então uma excursão por êle: "A estrada do Cubatão pareceu-nos o caminho do paraíso como o descrevem as velhas crónicas da Idade Média. Caro amigo, desejamos aos nossos ini- migos o trânsito contínuo por ela, em carroças sem molas, com maus animais. Não há suplício compará- vel. Ora o carro, com dolorosos gemidos, eleva-se às nuvens e galga alturas imensas, ora submerge-se e parece entranhar-se nas profundezas da terra, e sem- pre tangenciando precipícios insondáveis e sempre su- jeito a inclinações pavorosas"^^.
Logo depois, porém, em 1867, com o estabeleci- mento da estrada de ferro desde Santos até Jundiai, passando pela capital da província, ficaram quase abandonados o Caminho do Mar e o caminho para oeste. Diminuiu o movimento que faziam antes por êles os . tropeiros e os negociantes dos quatro cantos da província. E isso determinou a decadência mo- mentânea de locais como o Ipiranga, São Bernardo,
José Jacinto Ribeiro, Cronologia Paiilista, III, pag. 415. Almanaque de "O Estado de São Pardo", 1940, pags. 162 e seguintes.
Visconde de Taunay, Viagens de Outrora, pags. 90-91.
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE sÂo PAULO 591
a Freguesia do Ó^^ Nesta freguesia, alguns anos antes — em 1845 — pedia-se que a Câmara de São Paulo tomasse medidas contra os abusos de vários indivíduos que estragavam os caminhos e estradas "com repetidas caças de tatus e abelhas" e destaca va- se a necessidade de se descortinarem as matas que ocultavam "os caminhos de mão comum"^''. São Ber- nardo, antes da construção do caminho de ferro li- gando Santos a São Paulo, era ponto de passagem forçada dos viajantes, muitos dos quais, segundo Hen- rique Raffard, se relacionavam com o abastado alfe- res Francisco Martins Bonilha, dono da úni-ca casa de sobrado existente então naquela freguesia. De- pois de obsequiar e reter às vezes os viajantes era sua casa o alferes Bonilha lhes dava recomendações (para os que se dirigiam a São Paulo) a seu genro^^. Êsse como outros locais perderam por isso muito de sua vitahdade em benefício de outros lugares colo- cados na passagem dos trilhos do caminho de ferro.. Entre êstes últimos o próprio ponto de partida dos trens em São Paulo. "Sendo o lugar da estação da estrada de ferro aquêle para a qual afluem todos hoje, não apenas por passeio como mesmo por negócio — dizia em 1866 uma proposta apresentada ao poder municipal — proponho que se mande colocar ali alguns bancos junto à grade e ao redor da árvore que ali existe, assim como arborizar o mesmo local"^^.
1^ Június, Em São Paulo — Notas de Viagem, pags. 63 e 134.
Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XXXV, pags. 128-129.
^8 Henrique Raffard, "Algunis Dias na Paulicéia", Rev. do Inst. Hist., Geog. e Etnog. Brasileiro, vol. LV, II, pag. 159.
1^ Atas da Câmara Municipal de São Paulo, LIII,, pag.
114,
592
ERNÂNI SILVA BRUNO
Não só pelos caminhos como pelas ruas da cidade transitavam, no período de 1828 a 1872, as tropas de burro, os carjos de boi e os cavaleiros. Dentro do núcleo urbano c em seus arredores, ainda algumas carruagens, as diligências e raras cadeirinhas. O uso da cadeirinha, carregada por dois ou quatro escravos arreados com luxo, ou do bangúê tirado por duas bestas ajaezadas, para transporte de senhoras ricas, Toledo Piza escreveu que durou aproximadamente até 1850^**. Dona Maria Pais de Barros, evocando época um pouco posterior, escreveu que ao contrário do que acontecia no Rio e na Bahia, eram muito raras as cadeirinhas na cidade de São Paulo^\ O grande mo- vimento -- sobretudo nas estradas — era o represen- tado pelas viagens de tropas de burros e cavaleiros. Para a viagem de Santos a São Paulo utilizavam-se em geral bestas manhosas — como escreveu o Barão de Paranapiacaba — que derreavam os viajantes. Êstes se apeavam para se compor um pouco na mar- gem do riacho Lavapés, entrando limpos e arranjados na cidade^^. Referindo-se à época em tôrno de 1862 Couto de Magalhães escreveu que para essa viagem se tomavam animais, quase sempre burros, que caval - gados por imperitos e entregues depois à incúria dos escravos negros, ficavam terrivelmente manhosos^^.
N. da R. em Doctimenios Inieressantes para a História e Costumes de São Paulo, XXXII, pag. 146.
21 Maria Pais de Barros, No Tempo de Dantes, pag. 13.
2- Citado por Almeida Nogueira, op. cit., III, pag. 3.
2^ Parece que os escravos negros eram proverbialmente, no Brasil, maus tratadores dê-ses animais. "Os belos cavalos importados do Cabo da Boa Esperança — observou Fletcher — ficam logo avariados nas mãos de um preto." Por isso os propiictários que mostravam cuidado pelos seus cavalos, no Rio de Janeiro, se esforçavam por contratar ingleses para em- pregados de suas cavalari-as. (D. P. Kidder e J. C. Fletcher, op. cit.. 1, pag. 102).
HISTORIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 595-
Nesses animais subia-se a serra, "aquelas rampas al- cantiladas do Paranapiacaba muitas vêzes por noite velha". Grande parte dos viajantes — acrescentou aquêle escritor — estudantes do Rio ou das províncias marítimas sem prática alguma de andar a cavalo, não- podia suportar de uma assentada a viagem de Santos- a São Paulo, pelo que pernoitava no Alto da Serra,, ou na pousada de um alemão, chamada Zanzalar, ou em outra, chamada do Rio Grande, ou ainda cm outra,, chamada Ponto Alto. "As estradas alvejavam — observou ainda Couto de Magalhães, referindo-se ao- Caminho do Mar e ao do Rio de Janeiro — : com as inúmeras ossadas de burros que as orlavam de ladO' a lado"^*. Essa viagem descrita por Couto de Maga- lhães é que tinha de ser feita na época, pelo mencff duas vêzes por ano, segundo Almeida Nogueira, por muitos estudantes de fora que cursavam a Academia- de Direito de São Paulo^^. Para atender a êsse mo- vimento chegaram a se organizar mesmo empresas de transporte que se incumbiam do serviço de passageiros e suas bagagens. Três eram as mais importantes delas, com sede em São Paulo e correspondentes em Santos e pelo caminho. Alugavam animais, bangiies^ cargueiros, camaradas^^ Os empresários — escreveu Nogueira — eram Antônio Joaquim de Assis Emílio,, estabelecido ná rua do Imperador e tendo correspon- dente no ponto das Caveiras, no Alto da Serra ; AurélÍG Joaquim de Sousa Fernandes, da rua do Comércio^ com correspondente em Ponto Alto; e Joaquim Pe- reira da Silva, com correspondente no Rio Grande^'',
24 Couto de Magalhães, Viagem ao Araguaia, pags. 5, 6 e 8.
. 25 Almeida Nogueira, op. cit., VI, pag. 159.
2^ Almeida Nogueira, op. cit. VI, pag. 159.
27 Almeida Nogueira, op. cit., VI, pag. 159.
596
ERNÂNI SILVA BRUNO
Havia também empresas, estabelecidas na cidade, que alugavam animais para todos os pontos da província, "com camaradas ou sem êles", como dizia um anúncio publicado em 1854 no Correio Paulistano^^. É que o movimento de cavaleiros e sobretudo de tropas de carga que faziam as ligações comerciais entre vários pontos do interior, São Paulo e o pôrto de Santos fôra se tornando cada vez mais intenso no oitocentis- mo, particularmente no Caminho do Mar. Em 1865 o Visconde de Tauriay, viajando por esse último ca- minho em direção à cidade de São Paulo, observou que eram inúmeras as tropas de animais de carga que ^'de contínuo por êle desciam e subiam a transportar o muito café exportado já pela província"^^. Como acontecera, até há alguns anos antes, principalmente com o açúcar. Também então as tropas de bestas atravessavam as ruas paulistanas a caminho do litoral. E havia já nesse tempo, nas entradas da cidade, hos- pedarias com um pátio anexo, em que as cargas podiam ser arreadas, e com a estacaria precisa para a amar- ração dos animais que, depois de comida a sua ração de milho, ficavam soltos pelo pasto^".
Essas tropas e êsses cavaleiros criavam decerto muitos problemas de trânsito e de estacionamento nas ruas, como se pode verificar pela leitura de várias das atas da Câmara Municipal relativas a meados do século passado. Em 1852 recomendava o poder mu- nicipal que as tropas de animais de carga, quando atravessassem carregadas as vias públicas, fossem conduzidas a passo lento, em lotes que não excedes- sem de dez animais, e levadas pelo centro das ruas em
Correio Paulistano de 17 de outubro de 1854. 2' Visconde de Taunay, Memórias, Y>^g. 140. •'^ Francisco de Assis Vieira Bueno, "A Cidade de São Paulo", cit.
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 597
uma única linha. E proibindo que se largassem ca- valos soltos pelas ruas ou então atados a portas, a janelas, a lampiões, atrapalhando o trânsito^^ No ano seguinte apresentava-se na Câmara um projeto de postura proibindo o uso de se amarrarem animais nas esquinas e nos batentes das portas das casas nas freguesias da Sé e de Santa Ifigênia, para que ficasse livre o trânsito pelas calçadas^^ Mas é claro que nem sempre eram obedecidas essas posturas. Pelo con- trário, as notas aparecidas na época em jornais pau- listanos revelam que os abusos se repetiam a todo momento. Um comentário publicado no Correio Pau- listano em 1854 mostrava que não havia dia em que não se vissem muitas ruas, "mesmo as mais públicas", obstruídas de carros e de animais por todos os cantos. "É raro o dia em que não sejamos testemunhas — • escrevia-se então — das disparadas de bestas pelas ruas, levando de rastos cangalhas ou cargas aos trambolhões pelo meio do povo, com grande risco de vida das pessoas que trabalham"^^ Alguns anos de- pois — em 1861 — pedia a municipalidade auxílio ao govêrno da província para o prolongamento, da rua da Casa Santa (do Riachuelo) até o largo do Bexiga, que podia se considerar continuação da estrada de Campinas para Santos, "evitando assim que as tropas transitem pelo centro da cidade"^*. Uma tentativa para diminuir a intensidade do tráfego de cargueiros na parte central, que dava margem a tantas reclama- ções. Mas o movimento de tropas continuou sendo feito pelas ruas paulistanas. Com seus guizos, e car-
■'^ Citado por Nuto Santana, op. cit.. IV, pags. 71 e 83.
32 Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XL, pag. 69.
33 Correio Paulistano de 7 de Julho de 1854.
^■^ Atas da Câmara Municipal de São Pav.lo, XLVII, pag.
105.
598
ERNÂNI SILVA BRUNO
regadas com "os produtos do ])aís", elas davam à cidade em 1868 — como escreveu o viajante William Hadfield — um ar de atividade intensa^^. No Piques particularmente era tão frequente êsse movimento de tropas que houve, em meados do século passado, um estabelecimento de fazendas a varejo que tomou o nome de Loja dos Tropeiros^®. Dai também a im- portância considerável que tiveram na época — como observou Veiga Miranda ao estudar o tempo em que viveu na cidade de São Paulo o poeta Álvares de Azevedo — as forjas para ferrar animais e os veteri- nários rústicos, "sangradores que curavam ajoianien- tos e tiravam travagens", rasgavam fleimões, tosquia- vam muares^^. Tschudi, quando esteve em São Paulo,^ em 1860, se referiu a um caso extraordinário. Re- comendaram a êsse visitante que levasse a um ferrador do largo de São Francisco uma mula atacada de afecção catarral. O ferrador derramou sôbre o ani- mal algumas garrafas de aguardente muito forte e lhe deitou fogo, decerto sob os olhos espantados do. suíço. A mula "ardeu em chama azul — assinalou Tschudi — e começou a pular loucamente". Mas abafado o fogo em cobertores de lã, o animal andou durante uma hora e ficou completamente curado^ ^ Sabe-se que nos primeiros tempos de funcionamento da estrada de ferro, as tropas de mulas representaram elemento adverso à prosperidade da ferrovia. Aliás
^5 William Hadfield, Bra:::il cíiid thc River Plate in 1868, pags. 69-70.
Antônio de Góis Nobre, Esboço Histórico da Real ít Benemérita Sociedade Portuguesa de Beneficência em São Paulo, I, pags. 16 e 23.
Veiga Miranda, Alvares de Azevedo, pag. 22.
Citado por Afonso de E. Taunay, Amador Bueno e- outros ensaios, pag. 68.
i
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 601
não podia deixar de ser assim, observou o cronista Almeida Nogueira: os fazendeiros e os "arreadores", — e mesmo as empresas que na capital da província alugavam êsses animais para viagens em qualquer ponto do interior — não poderiam se desfazer, de uma hora para outra, dessas suas tropas que repre- sentavam capital avultado. Pelo contrário, tratavam essas empresas, êsses arreadores e êsses fazendeiros, de manter os seus cargueiros no mesmo serviço que anteriormente faziam, por preços diminutos, movendo concorrência séria à Inglêsa^^.
Entretanto movimento intenso nas ruas e nos ca- minhos paulistanos foi nesse tempo também o dos carros de boi. Parece que raramente ocorria o que em 1830 aconteceu em Santo Amaro: não haver ne- nhum dêsses veículos "em exercício" pela falta de bois, que "andavam morrendo de carrapatos"^". Em 1832 a Câmara tomava medidas sobre o estaciona- mento dêsses carros na cidade. Depois de serem car- regados ou descarregados de géneros, não atrapalhas- sem o trânsito : só podiam se demorar nos logradouros mais espaçosos, os largos do Carmo, de São Gonçalo, de São Francisco e de São Bento*^. Os carros de- Santo Amaro, vindos pela rua da Casa Santa (do Riachuelo) ou pelo Piques, estacionavam nos largos de São Gonçalo oii de São Francisco. Os que entravam pelas pontes do Carmo e da Tabatingúera, no largo da Carmo. Os que cruzavam as pontes do Acu e da Constituição, no largo de São Bento. E havia ainda
35 Almeida Nogueira, op. cit., VIII, pag. 127.
Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XXV, pag.
129.
Atas da Câmara Municipal de São Paido, XXVI,- pag. 422.
F. R N A N I
SILVA
BRUNO
•OS que vinham do lado de Pinheiros ou do Ó e San- tana e se destinavam à freguesia de Santa Ifigênia. Êsses, depois de descarregados, podiam estacionar nos largos de Santa Ifigênia, do Tanque do Zunega (Pais- sandu") ou no da Consolação^^. No ano de 1854 pedia- se que os fiscais estivessem atentos aos carreiros que continuavam fazendo do largo do Capim (do Ouvidor) paradeiro de carros'^. Mas além do estacionamento havia, em relação aos carros de boi, o problema do ruído que êles faziam. Já em 1849 pensava-se na Câmara Municipal em proibir que os carros de boi "chiassem" quando em trânsito pelas ruas da cidade**. Mas nada foi feito e ainda em 1866 o jornal humorís- tico Cabrião noticiava ironicamente que "os harmo- niosos carros continuavam a fazer as dehcias das ruas da capital"*^. Parece que pelo menos até o ano seguinte os carros de boi trafegaram pela zona urbana •da mesma forma por que circulavam pelas estradas ■dos sítios e das fazendas : puxados por grandes juntas vagarosas, embaladas pela música dos eixos em que :se prendiam as rodas maciças. Só naquele ano — em 1867 — a Câmara Municipal editou uma postura proibindo que êles chiassem trafegando pela cidade.
Mas os carreiros não se conformaram logo com a proibição, pedindo a suspensão da postura. A Câ- mara manteve o que dispusera sôbre o assunto consi- derando que o "chio" causava incómodos á população e que podia desaparecer — ensinavam os homens do govêrno aos que lidavam com os bois — desde que
42 Nuto Santana, op. cit., IV, pags. 70-71.
"♦^ Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XL, pag.
227.
Atas da Câmara Municipal dc São Paulo, XXXVII,. jpzg. 131.
*° Cabrião (jornal), n." 3, 1866.
12 — 2." Tradições
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃG PAULO 605
fossem untados os carros com qualquer gordura ou matéria oleosa: sabão ou azeite*^. Também como na roça os carros de boi eram por vêzes utilizados no transporte de gente. Êles e as carroças. Isso parti- cularmente nos dias de festa na igrejinha da Penha: oito de setembro. As diligências puxadas por quatro animais, que partiam do mercado velho da rua Vinte e Cinco de Março, depois de meados do século, não davam conta do recado. MuHa gente ia a pé ou a cavalo. Ou então em carros de boi cobertos de colchas ou em carroças enfeitadas com folhagens^^.
Carros de praça, Almeida Nogueira, referindo-se ao período de 1843 a 1847, escreveu que ainda não existiam, e mesmo cocheira para aluguel de carruagens havia apenas a do Califórnia, na esquina da rua com a travessa do Carmo. Poucas famílias abastadas pos- suíam carruagens^ ^. Segundo Martim Francisco, existiam nesse tempo apenas duas carruagens, a da Marquesa de Santos e a do bispo, puxadas por pare- lhas de burros e guiadas por escravos pretos, de chapéus altos e paletós quase sempre verdes com botões amarelos^^. Mas em 1850, além da do bispo e a da Marquesa, podiam ser lembradas as carruagens do Barão de Limeira e dos brigadeiros Rafael Tobias e Gavião Peixoto. As librés dos cocheiros tinham enfeites de cores vivas, dominando o amarelo, o azul e o vermelho, respectivamente, nas dos cativos do brigadeiro Tobias, de Peixoto e do Barão. Segundo um observador da cidade nessa ocasião o rodar de uma sege era coisa que ainda chamava a atenção.
'^^ Citado por José Jacinto Ribeiro, op. cit., III, pag. 529. ■♦^ Antônio Egídio Martins, op. cit., I, pag. 68.
Almeida Nogueira, op. cit., VIII, pag. 101.
Citado por Estêvão Leão Bourroul, Hércules Florence,
pag. 13.
606
ERNÂNI SILVA BRUNO
Aparecia gente nas janelas para ver de quem era o *'trem" que passava^". Conhece-se no entanto dessa época uma postura municipal proibindo tôda e qual- quer qualidade de transporte de rotação de andar "a galope ou trote largo" pelas ruas da cidade^^ E em 1857 já se falava na Câmara na conveniência de se aperfeiçoar a estrada da freguesia da Penha de modo que prestasse trânsito fácil e seguro "a seges e outros veículos semelhantes"^^. Nesse tempo havia ainda apenas uma casa que alugava carruagens^^, e duas fábricas de seges na cidade^*. Do aumento desses veículos pelas ruas parece significativo o que se dizia alguns anos depois — em 1861 — nas atas da Câ- mara: que todos os carros e tílburis que trafegassem pelas ruas deviam ser guiados "por cocheiros mestres aprovados e matriculados na polícia" e durante a noite, a partir da hora em que se acendiam os lampiões, com duas lanternas acesas^^.
Em 1865 — em parte decerto como resultado de uma pavimentação melhor das ruas centrais da ci-
^° Június, op. cit,
51 Citado por Nuto Santana, op. cit., I, pag. 243.
52 Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XLIII, pag.
150.
53 Almanaque Administrativo, Mercantil e Industrial da Província de São Paulo para o ano de 1857, pags. 144-150.
5'* Almanaque cit., pags. 149-151.
55 Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XLVII, pag. 153. ■ Mas São Paulo estava longe, em matéria de car- ruagens, de outras cidades brasileiras na mesma época. Sabe- se por exemplo que em Belém do Pará quase na mesma ocasião — segundo as notas de Fletcher e dèpois as de Bates — havia cerca de cinquenta carruagens fabricadas em Newark e em Bos- ton, além dos leves cabriolés de fabricação local. (D. P. Kid- der e J. C. Fletcher, op. cit., II, pag. 296, e Henry Walter Bates, O Naturalista no Rio Amazonas, II, pag. 394.)
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 607
dade, que começou a ser feita em 1858" — apareceram os primeiros carros de praça, sendo o serviço explorado pelo italiano Donato Severino". Estacionavam no largo da Sé esses primeiros carros e tílburis de alu- guel, e os seus preços eram menores quando o trajeto se fazia "dentro de pontes". Precisamente no ano do aparecimento dos carros de aluguel na cidade houve um desastre com o trem inaugural da via férrea In- glesa e isso deu margem a versinhos citados por Afonso A. de Freitas, uma das estrofes dizendo assim :
Seguro morreu de velho; Quem aznsa amigo é\ Quem quiser dar bons passeios Tem carrinhos — sem receios Bem baratos lá na Sé^^.
Reservaram-se depois também outros locais para estacionamento de carros de aluguel : os largos de São Francisco, de São Gonçalo, de São Bento e o pátio do Colégio^^. Os "limites da tabela", para a qual havia preços fixos, eram as chácaras do capitão Ben- jamim, na estrada de Santo Amaro e do conselheiro Falcão, na Moóca; as igrejas do Brás, da Luz e da Consolação; o Campo Redondo, o largo do Arouche,
No Rio de Janeiro o A'ia'ante Castelnau explicava a existência do penufno número de carros de praça e de carrua- gens de procedência europeia pela terrível pavimentação das ruas. (Citado por Afonso de E. Taunay, Rio de Janeiro de Antanho, pag'. 225).
Nardi Filho, "Carros de Praça", O Estado de São Paulo de 9 de fevereiro de 1938.
Afonso A. de Freitas, Tradições e Reminiscências Paulistanas, pag. 106.
Afonso A. de Freitas, op. cit., pag. 23.
50S ERNÂNI SILVA BRUNO
■ I'
O Morro Vermelho e o Lavapés^''. O viajante ílad- field, em 1868, viu na cidade "seges e tilbnris" em constante movimento^^. E mais ou menos dessa época existe a lembrança do aparecimento do trole em São Paulo^^ Bem representativa da importância que as carruagens tiveram nesse tempo na cidade é uma gravura que se conhece, do largo de São Fran- cisco em 1865, em que aparece um ferrador exercendo as suas funções : ferrando o animal de um tílburi diante de uma casa térrea — naturalmente uma co- cheira — em cuja fachada clara se vêem pintados dois cavalos, cada um de um lado da alta porta central^^. Nessa época já davam trabalho considerável as car- ruagens. Um oficio do chefe de policia à municipa- lidade em 1868 falava na reprodução de fatos que punham em perigo ou sobressaltavam as pessoas nas ruas : veículos de aluguel que se abalroavam, que atro- pelavam gente e que corriam desabaladamente mesmo nas ruas mais estreitas — pelo que era preciso plani- ficar o trânsito (indicando-se as ruas para subidas e descidas dos veículos) por meio de sinais, "como se praticava na Corte e em outras províncias"®*. No mesmo ano determinava o poder municipal que o en- sino dos animais destinados à condução de seges, carros e tílburis, e também a aprendizagem dos co- cheiros, fossem feitos unicamente nos campos dos Curros, na várzea do Carmo e na estrada da Glória®^
Afonso A. de Freitas, op. cit., pag. 22. William Hadfield, op. cit., pags. 69-70. ^2 Citado por Aluísio de Almeida, "O trole e suas cri gens", O Estado de São Paulo de 19 de janeiro de 1947.
São Paulo Antigo e São Paulo Moderno (álbum),
pag. 54.
Atas da Câmara Municipal de São Paulo, LIV, pag. 20. Atas da Câmara Municipal de São Paulo, LIV, pag. 56.
72 — Ferrador e tílburi, no largo de São Francisco, em 1865. (Gravura reproduzida do álbum São Paulo AntÍQo e São Paulo Moderno. 1905)
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃo PAULO 611
É que nessa época já circulavam pelas ruas paulistanas, além de mais de quatrocentas carroças de carga e sessenta e duas de pipas de água, quarenta carros particulares e setenta e sete de aluguel, dos quais cin- quenta de quatro rodas, vinte e dois tilburis e cinco diligências^^ Estas últimas haviam surgido em 1866, com o estabelecimento do tráfego da Inglesa. Anun- ciava nesse ano um jornal: "Diligências para o bair- ro da Luz. Partirá todos os dias do largo da Sé para a estação do caminho de ferro da Luz uma diligência, e a mesma fará suas viagens regulares por todo o dia. As partidas da Luz para a cidade esperam o trem de ferro quando o mesmo tiver de chegar". Êsse serviço foi desbancado em 1872 — escreveu Afonso A. de Freitas — pelo estabelecimento das linhas de bondes^''.
Entretanto, de 1830 até meados do século passado, alguns rios continuaram servindo de meios de comuni- cação, completando a rêde formada na região de São Paulo pelos caminhos de tropas e de carros. A nave- gação chegou a ser bastante ativa, sobretudo no Ta- manduateí e também no Tietê. No extremo do beco dos Barbas (ladeira Pôrto Geral) havia um porto onde atracavam as canoas que conduziam mercadorias das roças ribeirinhas e das olarias da fazenda de vSao Bernardo^^. Era o pôrto mais importante do Ta- manduateí, e vivia por isso cheio de tropas, de mer- cadores e de escravos^^ "Lá em baixo, à margem da
'''^ Relatório da Repartição de Polícia da Província de São- Paulo em 1871, pags. 40-41.
Afonso A. de Freitas, "A cidade de São Paulo no ano de 1822", Rev. do Inst. Hist. e Geog. de São Paulo, XXIII, pag. 131.
Antônio Egídio Martins, op. cit., I, pag. 64. Nuto Santana, op. cit., I, pag. 130.
612
ERNÂNI SILVA BRUNO
caudal — escreveu Nuto Santana — existia um bar- ração onde se resguardavam as mercadorias da caní- cula e das intempéries". Abaixo dêsse Pôrto Geral, na altura da foz do Anhangabaú, ficava o pôrto da Figueira, localizando-se ainda para baixo o do coronel Paula Gomes. Aquele entretanto que em valor co- mercial vinha logo depois do Pôrto Geral era o da Tabatingiiera, preferido para as mercadorias destina- das às suas proximidades ou que tivessem por êsse lado condução mais fáciF". Essa navegação no Tamanduateí era todavia dificultada pelos bancos de areia e pela sujeira. Em 1839 avultavam ao longo do rio — observou ainda Nuto Santana — em alguns pontos da várzea, capoeiras que eram freqiientemente roçadas. Entre o Pôrto Geral de São Bento e a ponte do Carmo, notavam-se numerosos bancos de areia que atrapalhavam a passagem das embarcações. Era o que participava à Câmara em 1847 o fiscal da cidade' \ E para baixo, em longo trecho, abundavam "aguapés e outras esterqueiras'"^. Entretanto, com todos esses obstáculos, a navegação se fêz até o ano de 1849, quando da retificação do Tamanduateí. No Tietê, além da navegação por canoas ou pequenos barcos de transporte de areia, de telha e de outros produtos, houve em 1861 uma tentativa para navegação com barcos a vapor. "São navegáveis no município — dizia-se em uma ata da Câmara no ano seguinte — os rios Tietê e dos Pinheiros" "e para sua navegação está organizada uma companhia denominada Dois de
Nuto Santana, op. cit., I, pags. 130-131.
Nuto Santana, op. cit., I, pag. 132 e Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XXXVI, pag.. 131.
Nuto Santana, op. cit., I, pag. 132.
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 613
Dezembro, cujos estatutos já foram aprovados"^^. Realmente essa empresa obteve nesse ano privilégio para navegar com barcos a vapor em alguns rios da província: o Pinheiros, no trecho até a estrada para Santos, e o Tietê, de São Paulo até Mogi. Mas de- pois de feitas algumas explorações a empresa deixou de ir por diante'^*. Dez anos mais tarde — em 1872 — o proprietário da Olaria do Bom Retiro, na Luz, pedia consentimento à Câmara para abrir na várzea ■uma vala por onde pudesse entrar o seu vaporzinho "Progresso" e atracar naquele estabelecimento, pois a distância a que êle ficava do Tietê dificultava o abastecimento de combustíveis e acessórios'^^ Aliás houve modificações, no decorrer do século passado, no leito do velho Anhembi, nas proximidades de São Paulo. "Contam pessoas idosas — escreveu-se nas notas à edição definitiva de Os Gnaianás, de Couto de Mag'alhães — que a uns dez ou quinze metros para baixo da atual Ponte Grande, que então não ■existia, havia um extenso banco de areia que permitia a passagem pelo rio, de uma margem a outra, de carros de boi carregados de lenha, madeira, pedras, etc, que eram conduzidas da Serra. Referem ainda €ssas pessoas que o canal atual do rio não é o antigo hoje denominado Tietê-qúera, isto é, Tietê Velho". O canal que existiu depois e que partindo da Ponte ■Grande e deixando à margem direita o Tietê-qúera vai até o lugar chamado Coroa, foi aberto depois de
7^ Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XLVIII, pag. 10.
Adolfo Augusto Pinto, História da Viação Pública de São Paulo, pag. 298.
^5 Atas da Câmara Municipal de São Paulo, LVIII, pag.
153.
614
ERNÂNI SILVA BRUNO
1842, "por um senhor Teixeira ou Teixeirão, como era conhecido, o qual empregou nessa obra grande número de escravos'"®.
Mas as enchentes dos rios paulistanos foi que sobretudo deram trabalho na época. Em 1838 já se talava na Câmara no dessecamento da várzea do Carmo como um dos problemas da cidade que recla- mavam logo uma solução''^. Durante seis meses por ano — confessava em discurso de 1844 o presidente da província Sousa Melo — a cidade ficava por assim dizer no meio de uma lagoa formada pelas enchentes do Tamanduateí e também do Tietê''^. O primeiro desses rios corria ainda pelos terrenos depois ocupados pela rua Vinte e Cinco de Março, descrevendo sete voltas desde a ponte do Carmo até a rampa e o gradil da rua da Constituição (Florêncio de Abreu) Para Bernardo Guimarães — que descreveu a várzea nessa época — só de longe a paisagem agradava. Um dos personagens de um romance dêle dizia assim: "E aquele comprido e monótono caminho do aterrado entre os charcos do Tamanduateí, exalando infectos miasmas, de maresia, transposto o qual essas planícies, que de longe pareciam vastas e aprazíveis, vistas de perto não são mais do que áridas e acanhadas char- necas entre ribeirões estéreis, onde não murmura um regato, não sussurra um arvoredo, não canta um passarinho . . . Terra de águas mortas e de formiga
''^ Notas à edição definitiva de Os Giiaianás de Couto de Magalhães, pags. 131-132.
^7 Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XXXI, pags. 58-59.
Anais da Assenihléia Legislativa Provincial de Saa Paulo (1844-1845), pag. 59.
Antônio Egidio Martins, op. cit., I, pag. 62.
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 615
saúva, campos sem relvas e sem flores . . . "^^ Ao contrário de outro romancista — José de Alencar que viveu nessa época na cidade e mais tarde se refe- riu, em um de seus romances, às "paisagens que se desdobravam pelas lindas várzeas de São Paulo"^^ Só em 1849 foi feita a retificação do Tamanduateí segundo o projeto Bresser. A corrente foi afastada — escreveu Afonso A. de Freitas — do sopé da montanha, e foram cortadas diversas curvas, nas bai- xadas de São Bento, para a formação de uma rua que seria a Vinte e Cinco de Março. O canal aberto para substituir êsse trecho do rio cortou a Avenida Tiradentes, edificando-se ali a Ponte Pequena^^. A cidade, além de ganhar uma rua, se beneficiou assim com o esgotamento relativo da parte extrema da várzea do Pari, mas ainda segundo Freitas as inun- dações continuaram fazendo sentir os seus efeitos mais ao sul, nas várzeas de São Bento, do Carmo e mesmo do Cambuci^ ^ Nessa época também o Anhan- gabaú — o velho córrego das Almas — dava trabalho. Em 1850, por ocasião de um temporal bastante vio- lento, transbordaram os tanques Reúno e do Bexiga, cresceram as águas do Anhangabaú, desabou a ponte da Abdicação. Houve inundações, casas destruídas, gente morreu afogada^^ Mas vários anos antes — em 1837 — o problema havia sido apresentado à Câmara, deliberando-se então que se fizesse um orça- do Bernardo Guimarães, Rosaura, a Enjeitada, pag. 12. ^1 José de Alencar, Sonhos d'Onro, I, pag. 57. 82 Afonso A. de Freitas, Prospecto do Dicionário Eti- mológico, Histórico, Topográfico, Estatístico, Biográfico, Biblio- gráfico e Etnográfico, Ilustrado de São Paulo, pag. 78. Afonso A. de Freitas, op. cit., pag. 78. Antônio Egídio Martins, op. cit., I, pag. 95, e José Jacinto Ribeiro, op. cit., I, pag. 29.
616
ERNÂNI Sir, VA BRUNO
mento para limpeza do córrego e aumento de suas margens nos lugares em que estivessem tão estreitas que embaraçassem o curso das águas^^ Algum temoa depois da enchente grande — isto é, em 1856 — a municipalidade teve de mandar desobstruir o Anhan- gabaú^^ E em 1862 propunha-se que se mandasse examinar o rio desde a ponte do Piques até a do Miguel Carlos, para se ver o melhoramento que podia ser feito em seu leito, para que por ocasião das grandes enchentes não houvesse inundação dos quintais ri- beirinhos".
As pontes lançadas sobre êsses rios continuaram a ser quase que as mesmas do comêço do século deze- nove ou de fins do setecentismo. Muito lentamente foram se fazendo nelas algumas reformas e raros me- lhoramentos — ao mesmo tempo que se refletiam nas atas da Câmara medidas do poder municipal para de- fender por vêzes essas edificações do abuso de par- ticulares. No Piques, além da do Lorena — descrita por Saint-Hilaire — havia a da Limpeza, na rua que depois se chamou da Assembléia, no trecho em que o rio foi conhecido pelo nome de ribeirão da Limpeza porque passava pelo matadouro do Humaitá; e a ponte chamada do Bexiga ou de Antônio Manuel, no local onde hoje começa a ladeira de Santo Amaro^^. Por certo ao lado do pouso do Bexiga. Em 1829 foi feito para ela um aterro novo, e dois anos depois con- sertado o seu paredão, sendo utilizado no serviço — como era comum ainda nesse tempo — o trabalho de
^5 Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XXX, pag.
130.
Afonso A. de Freitas, op. cit., pag. 78. 8^ Atas da Câma:-a Municipal de São Paulo, XLMTI, pag. 218.
Nuto Santana, op. cit., I, pags. 209-210.
í
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 619
galés. Foi nessa ocasião — em 1831 — que a ponte do Marechal, no Acu, passou a ser chamada de Ponte da Abdicação^l Em 1829 ainda determinava a Câ- mara que a sobra das carradas de pedra da retif icação das calçadas das ruas se f ôsse depositando na rua da Constituição, sobre o morro que descia para a ponte (provavelmente a do Miguel Carlos), a fim de que se fizesse concluir de pedra, como já estava resolvido, essa edificação — "essa tão interessante ponte", dizia- se nas atas — que convidaria a que se edificassem casas naquela rua, dando uma entrada mais curta da Luz para a cidade^°. Em seu Quadro Estatístico da Província de São Paulo, que se refere ao ano de 1836, Daniel Pedro Muller escreveu que havia no ribeiro Anhangabaú três pontes de alvenaria (com certeza já a de Miguel Carlos, além das do Lorena e da Abdica- ção) ; e no Tamanduateí uma de alvenaria (a do Fer- rão) e uma de madeira''\ A da Abdicação, alguns anos mais tarde — em 1850 — caiu e foi arrastada pela torrente^^. G. Wyzewski, endereçando um ofício ao poder municipal, achava que a causa da enchente no Anhangabaú estava na insuficiência dos vãos de suas pontes, "tanto que depois da queda da- ponte do Acu o nível das águas abaixou imediatamente". Acrescentava êsse técnico — parece tratar-se de um engenheiro polaco então recentemente chegado à ci- dade — que não se devia permitir por isso mesmo que os moradores marginais estabelecessem sôbre o cór- rego pequenas pontes de madeira, baixas, pois elas
Nuto Santana, op. cit., III, pag. 149. Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XXIV, pag. 333.
Daniel Pedro Muller, São Paulo em 1836 — Ensaio de um Quadro Estatístico da Província, pag. 49.
^2 Antônio Egídio Martins, op. cit., I, pag. 95.
13 — 2.» Tradições
620
ERNÂNI SILVA BRUNO
formavam numerosos obstáculos ao curso do rio, pro- duzindo as inundaçÕes^^. Encarregado de fazer cons- truir no lugar da ponte da Abdicação outra ponte pequena, mas que desse "boa passagem a pessoas a pé", um vereador sugeriu que ela fôsse feita com se- gurança, tendo onze palmos de largura e devendo ser estivada com pranchões de madeira de lei^*. Reparada em 1852, segundo plano do engenheiro H. Bastide, de alvenaria, com abóbada de tijolo e construída sôbre estacadas, por causa do terreno lodoso, com os cantos e encontros de cantaria^^, a ponte da Abdicação con- tinuou servindo de ligação entre as duas porções centrais e mais importantes da cidade: as freguesias da Sé e de Santa Ifigênia. Incumbido de fazer os i}arapeitos dessa ponte em 1853, Martin d'Estadens pediu à Câmara, em vista da dificuldade de obter tijolos, que lhe concedesse fazer aquêles parapeitos de pedra^^. Na mesma época fizeram-se consertos im- portantes na Ponte Grande sôbre o Tietê, que estava com o assoalho quase todo podre, mostrando grandes buracos que tornavam perigosa a passagem por ela, além de estar com o parapeito todo danificado, tendo chegado — como se dizia em um relatório do govêrno provincial — "ao último recurso da resistência"^^. E logo depois resolveu a municipalidade que se encarre- gasse um dos "engenheiros ing"lêses" — William Elliot ou John Cameron, então empregados nas Obras
Citado por Nuto Santana, op. cit., I, pag. 168. ^■^ Niito Santana, op. cit., I, pags. 166-167^
Relatório do presidente da provinda Nalnico de Araújo em 1852, pag. 59.
Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XL, pag. 59.
Relatório do presidente da proi'incia Nahuco de Araújo em 1852, pag. 60.
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 621
Públicas^^ — de dar o plano e orçamento de uma ponte de madeira com cabeceiras de pedra, no Ta- manduateí, no lugar do Fonseca, no fim da ladeira da Tabatingiiera^^ Em 1866 no entanto contava a ci- dade, além dessas velhas pontes consertadas ou refor- madas, com duas pontes de ferro sobre encontros e pilares de pedra: a de Santana, sôbre o Tietê, e a do rio Pinheiros, na estrada para Sorocaba^^*', esta última importada de Londres por intermédio de João Jacques Aubertin^''\ As pontes centrais paulistanas foram quase tôdas, durante meados do século, pontos de aglomeração de gente que trabalhava: em 1848 a Câmara impunha multas às pessoas que estendessem roupas nas suas guardas^''^. Mas as pontes eram tam- bém ponto de reunião de gente que apeais fazia horas. Antônio Egídio Martins contou que muitos negocian- tes da rua da Imperatriz — tôdas as tardes, depois de fechadas as suas lojas — costumavam dar sua chegadinha ao local da ponte do Mercado Velho^"'. Quem sabe se por causa das pernas das lavadeiras, que trabalhavam naquele ponto do Tamanduateí.
Almanaque de 1857, cit., pag. 84. 5^ Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XLI, pag. 79. Relatório do presidente da província Joaquim Flo- riano de Toledo em 1866, pag. 25.
Relatório do presidente da província João Crispiniano Soares em 1865, pag. 69.
Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XXXVII.
pag. 32.
Antônio Egídio Martins, op. cit., I, pag. 148.
epoimentos rela- tivos ao pri- meiro quartell do século dezenove mos- tram que nessa época a alimentação do mo- rador da cidade de São Paulo devia con- tar com possibilidades muito melhores do que aquelas que ocorriam no setecentismo. Em parte porque desde fins do século dezoito tudo indica que co- meçassem a se desenvolver, na região da cidade, sítios de lavoura e de criação. Ainda assim no entanto não era sempre regular o abastecimento em meados do século passado. Embora se plantassem e se colhessem géneros no distrito paulistano, ainda era indispensável a contri- buição dos sítios de lavoura e de criação de outros muni- cípios vizinhos e até de regiões distantes como a zona de Franca ou certas localidades da província de Minas Gerais. As mercadorias por isso às vêzes rareavam
626
ERNÂNI SILVA BRUNO
OU encareciam. Não só em consequência da ação de atravessadores e monopolistas, como pelo receio dos tropeiros, muitas vezes, que diante das epidemias de bexigas em São Paulo retornavam antes de chegar à cidade. A própria carne às vezes faltava para o abas- tecimento, ou era fornecida aos moradores em condi- ções inferiores por causa da falta de higiene no ma- tadouro e nos açougues. Em parte como consequên- cia disso tudo, em meados do século passado as refeições do paulistano eram em geral, segundo depoi- mento de um observador, na época, modestas e parcas. É verdade que essa dieta se completava, como desde os primeiros séculos, com os produtos da pesca — - embora raramente se pudesse comer peixe de mar — e da caça : às vêzes até bichos estranhos que os índios haviam ensinado a comer. E também com frutas, sobretudo jabuticabas, abundantes nas chácaras e mesmo em quase todos os quintais da cidade. E ainda com doces e quitutes, feitos em casa e vendidos em tabuleiros pelas ruas. Sem falar na saúva torrada — cujo valor nutritivo provavelmente ainda não foi estudado ... — consumida ainda em meados do século dezenove inclusive por pessoas de famílias importantes. O pão de trigo — cuja tradição primitiva parecia ter se perdido — começou a ser mais conhecido de novo a partir de 1840. Consumo abundante ainda o de chá, qualquer botequim tendo o seu caixote de chá da índia, embora o produto local fôsse também regu- larmente apreciado. De bebidas, a aguardente, a ga- rapa, os vinhos portuguêses e espanhóis, as cervejas de fabricação local e algumas inglêsas e, mais para crianças, a caramuru e a gengibirra. O abasteci- mento de água — apesar dos esforços do poder municipal, mandando construir novos chafarizes e caixas-d'água, pouco se modificou em relação ao que
I
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 629
se fazia desde fins do século anterior. Os chafa- rizes viviam danificados; às vêzes em conseqiiên- cia de brigas entre escravos e carroceiros. A água era infiltrada de sujeira e quase sempre faltava por causa dos encanamentos deficientes, feitos em condi- ções defeituosas de nivelamento. Os moradores eram em sua maioria forçados a comprar água em_ barris, vendida de porta em porta pelos aguadeiros.
Sem dúvida o acréscimo repentino de população — determinado pela fundação do Curso Jurídico — agravou até de início os problemas de abastecimento de água ou de géneros na cidade. Embora na ter- ceira década do oitocentismo — segundo o Quadro Estatístico de Daniel Pedro Muller — na cidade de São Paulo e seu distrito já se plantasse e se colhesse "para alimento de seus habitantes" era ainda indispen- sável para o seu abastecimento de géneros a contri- buição dos sítios de lavoura e criação de localidades como Brag^ança, Atibaia, Nazaré^. Dessas localida- des e dos sítios vizinhos da cidade mandavam-se para õ consumo de seus moradores o arroz, o feijão, o milho e outros mantimentos, incltisive o toicinho e a carne de porco salgada^. Às vêzes até a carne fal- tava. Em 1829, como se verifica pela leitura de várias atas da Câmara, faltava carne para o consumo público da cidade, oficiando então o poder municipal às câmaras de Bragança e Atibaia, e propondo-se que em vista "da extraordinária carestia de víveres" se pusessem capitães do mato nas entradas da cidade para
1 Daniel Pedro Muller, São Paulo cm 1836 — Ensaio de um Quadro Estatístico da Província, pag. 25.
2 Francisco de Assis Vieira Bueno, "A Cidade de São Paulo", Rev. do Centro de Ciências, Letras e Artes, Campinas, Ano II, n.os 1, 2 e 3.
630
ERNÂNI SILVA BRUNO
evitar que os géneros fossem desviados por atraves- sadores^ Sofria assim o abastecimento sempre que por qualquer motivo os cargueiros não chegavam a São Paulo. Como em 1853, quando se insistia para que fôsse consertada a Ponte Grande da Freguesia da Conceição dos Guarulhos, medida que provavelmente faria cessar "em grande parte a carestia de géneros de primeira necessidade"*. Ferreira de Resende, em suas memórias, assinalou essa grande carestia que se observou na cidade precisamente no ano de 1853. O toicinho, por exemplo, passou de oitenta ou cem réis a libra para oitocentos e até mil. Passada a crise — notou Resende — baixaram de novo os pre- ços, mas sem que chegassem ao nível anterior^. Outras vezes acontecia que géneros de muito longe — de Minas ou da zona de Franca — deixavam de chegar ao mercado paulistano porque os tropeiros, apavorados com a epidemia de bexigas — como andou acontecendo em 1858 — vendiam seus produtos em Campinas mesmo, e dali retornavam®.
Em parte talvez em consequência dessa irregula- ridade no abastecimento. — marcada por frequentes elevações nos preços dos géneros de primeira neces- sidade (embora outros fatôres pudessem ter concorri- do no mesmo sentido) — o fato é que em meados do século passado as refeições de um modo geral em São Paulo — segundo Almeida Nogueira, baseado em informações dadas por pessoas que viveram na época na cidade — eram parcas, modestas e frugais: de
3 Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XXIV, pags. 183-184.
Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XL, paf 77. ^ Ferreira de Resende, Minhas Recordações, pag. 279. 6 Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XLVI, pa^.
116.
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 631
oito às nove, o almoço; de duas da tarde às três, o jantar, e à noite ordinàriamente chá com pão e bis- coitos ou bolachas. Em algumas casas ceias de garfo, mas ligeiras''. Com-o em todas as dêsse tempo — confirmou Dona Maria Pais de Barros em sua evo- cação — as refeições eram servidas cedo. Almoça- va-se às nove horas; às duas em ponto era servido o jantar; às oito, já noite, "o mulato Joaquim trazia uma grande bandeja com xícaras de chá que ia pas- sando a tôda a familia instalada em volta da mesa". Com pratos de torradas, biscoitos e pão-de-ló^. Os pratos principais no almoço e no jantar — ainda de acordo com a informação dada a Almeida Nogueira — ■ eram a sopa (não muito generalizada ainda), o cozido, o feijão e o arroz, ervas — "a couve, a sabo- rosa couve, era na época o prato predileto do paulista- no", como escreveu Veiga Miranda^ — carne enso- pada, ou antes, afogada e assada, de vaca, porco ou carneiro, não raro de galinha. Nos dias festivos, peru recheado, leitoa, empadas, "tudo à antiga moda paulista". À sobremesa, doces de batata ou de figo ou arroz de leite^**.
A carne, que ainda em 1830 era vendida em um único açougue e recebida do curral do Conselho, na beira da estrada de Santo Amaro (pouco acima do largo do Bexiga), onde não havia preocupações de higiene, sendo as reses abatidas e sangradas sôbre um chão de terra revolvida^^ foi depois melhorando em limpeza e provàvelmente em qualidade. Aliás
" Almeida Nogueira, A Academia de São Paulo, VIII, pag. 100.
8 Maria Pais de Barros, No Tempo de Dantes, pag. 24. ^ Veiga Miranda, Álvares de Azevedo, pag. 84.
10 Almeida Nogueira, op. cit., VIII, pag. 100.
11 Francisco de Assis Vieira Bueno, loc. cit.
632
E R M A N I SILVA B R ÍJ N O
desde essa época cuidou o poder municipal de reme- diar "a esterelidade de nossos campos" para que êles se tomassem capazes de sustentar com fartura e abun- dância os animais, "promovendo-se a plantação de giesta pela maneira recomendada no opúsculo do conse- lheiro Vellozo"^'. E em 1864 já se realizava na ci- dade um concurso de bois gordos, carneiros e porcos, com prémios instituidos por alguns cidadãos ingléses^^. Entretanto ainda se ref letiam em meados do século pas- sado, nas atas da Câmara, reclamações sobre a falta de limpeza da carne vendida à população, por causa do desleixo em que vivia o matadouro, e da falta de higiene dos cepos nos açougues^^. O poder municipal determinava que o transporte da carne, do matadouro para a cidade, se fizesse em carros; que a carne não fôsse cortada, nos açougues, a não ser com faca e serrote; que os cepos para o talho seriam substituídos por balcões de tábuas limpas, lavadas todos os dias; e que a mercadoria devia ser pendurada nas portas ou nas paredes dos açougues sobre panos brancos de linho ou de algodão^^. Mas a própria situação do matadouro era considerada "contrária ao bem pú- blico", pois êle ficava em posição vizinha e sobran- ceira à cidade, na direção dos ventos dominantes, "que acarretavam sobre a povoação tôdas as exala- ções pútridas" que dali se elevavam^^. O fato porém é que com tôdas as dificuldades que se observavam
12 Atas da Câmara Municipal dc São Paulo, XXIV, pags. 312-313.
'■^ Atas da Câmara Municipal dc São Paulo, L, pag. 174. Atas da Câmara Municipal de São Paulo, XXIY. pag.
334.
Citado por X"uto Santana, São Paulo Histórico, IV, pag. 289.
"5 Atas da Câmara Municipal dc São Paulo, XXV^, pag.
201.
í
HISTÓRIA E TRADIÇÕES DA CIDADE DE SÃO PAULO 635
na distribuição da carne, e da sua qualidade ou lim- peza por vêzes bastante duvidosas, em meados do século o tradicional picadinho — em que tòdas as cozinheiras paulistanas se mostravam peritas — era prato obri- gatório pelo menos no almoço das repúblicas de estu- dantes". Almoço que, segundo Almeida Nogueira, se compunha em geral de ovos estrelados, arroz, chá de cartucho e pão com manteiga^**. A manteiga, como o leite, eram bons nessa época na cidade, e se obtinham fàcilmente, o que não ocorria, segundo o viajante Hadfield, em outras cidades brasileiras, por causa do clima^^ O jantar das casas de académicos incluía sopa, feijão, arroz, um prato de ensopado e outro de carne frita ou assada. Nas repúblicas mais fidalgas serviam-se doces — melado, banana frita ou batata em calda^**.
Dêsse picadinho famoso nas repúblicas paulistanas de estudantes, o cronista Almeida Nogueira publicou em seu livro esta receita, de Tia Silvana: "Toma-se um quilo de alcatra ou íilé, carne de primeira, lava-se, enxuga-se bem, bate-se, cor- ta-se era pedacinhos pouco maiores que um dado ; ref oga-se com cebola picada ; déita-se-lhe de]X)is um copo de água quente, um buquê de cebolas em rama, salsa e uma fôlha de louro; ajuntam-se alguns pedacinhos de toicinho fresco, sal e pimenta, e deixa-se ferver a fogo brando até que a carne fique bem co- zida, tendo-se o caidado de aumentar a água sempre que venha a secar. Ajunte-se em tempo batata picada, que não deve ficar muito cozida. Nada de ensrossar o caldo : ao contrário, deve ser abundante e bastante aquoso. Serve-se em prato de tampa". Êsse caldo — observou o cronista • — era o melhor da festa. "Os estudantes mineiros comiam-no com farinha, e os rio-gran- denses também ; os fluminenses, com pão ; e os paulistas e pau- listanos, com arroz. Alguns bebiam-no com colher". (Ahueida Nogueira, op. cit., III, pag. 213).
Almeida Nogueira, op. cit., III, pag. 213. ^5 William Hadfield, Brazil and the River Plate in 1868, pag. 69.
Almeida Nogueira, op. cit., III, pags. 213-214. <